Bacia do Vouga está contaminada com bactérias resistentes a antibióticos

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O Antuã foi um dos três cursos de água onde foram detectadas as bactérias resistentes. Os outros rios foram o Ul e o Cértima adriano miranda

Investigadores da Universidade de Aveiro alertam para aquilo que consideram um "problema gravíssimo". As bactérias resistentes foram encontradas em águas utilizadas para pesca e rega de campos agrícolas

Há locais da Bacia Hidrográfica do Vouga que estão contaminados por bactérias resistentes a antibióticos muito utilizados no tratamento de infecções. A situação foi comprovada por um estudo realizado por uma equipa de investigadores do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro (UA) e assume contornos ainda mais alarmantes devido ao facto de as comunidades bacterianas resistentes terem sido encontradas em águas utilizadas para regas agrícolas e pesca. Ou seja, as bactérias em causa podem estar a passar para as pessoas, por via da alimentação.

Os investigadores da UA não sabem ainda se as estirpes em causa provocam infecções em humanos, mas já provaram que conseguem transferir para bactérias patogénicas, que os antibióticos conseguiam tratar, a tal característica que as torna imunes a esses mesmos antibióticos.

As estirpes de Escherichia coli, de Aeromonas hydrophila, de Pseudomonas sp. e de Enterobacter foram isoladas pelos cientistas da UA, depois de analisarem amostras de água de 11 locais de outros tantos rios da Bacia Hidrográfica do Rio Vouga, na região de Aveiro. Antuã, Cértima e Ul são os rios onde foram localizadas essas bactérias - o primeiro corre junto a Estarreja, o segundo tem várias vilas nas proximidades e o terceiro fica próximo da cidade de Oliveira de Azeméis.

Perante esta descoberta, os investigadores da UA alertam para o facto de as resistências encontradas serem "um problema gravíssimo na clínica, pois limitam a eficácia dos antibióticos mais usados em caso de infecção". "As estirpes mais resistentes foram encontradas em três locais muito poluídos, onde a qualidade da água é muito baixa", descreve a investigadora Isabel Henriques, especialista em microbiologia ambiental. A autora do estudo, juntamente com os investigadores António Correia e Marta Tacão, receia que, "noutros sítios da bacia do Vouga com as mesmas características de água", ainda não analisados, "haja uma elevada probabilidade de existirem mais comunidades de bactérias com este tipo de resistência a antibióticos".

Há uma pergunta que se impõe: Qual o risco que advém do facto de estas bactérias estarem a passar para as pessoas? "Não consigo quantificar o risco de estas bactérias chegarem ao homem, mas está cientificamente comprovado que há uma disseminação de resistência a antibióticos que vai do ambiente, neste caso da água, para os humanos e que depois terá impacto na clínica", adverte a investigadora, que já tinha desenvolvido um estudo semelhante nas águas da ria de Aveiro - onde também foram detectadas bactérias resistentes a antibióticos.

O estudo na Bacia Hidrográfica do Vouga atestou ainda que os genes que conferem a resistência às bactérias, cefalosporinas de terceira geração, estão associados a elementos genéticos móveis, ou seja, "essa resistência pode ser facilmente transmitida de bactéria para bactéria". Na prática, isto quer dizer que "as próprias bactérias podem passar a característica da resistência a antibióticos a outras que não a tenham e que, até agora, apesar de serem patogénicas, podiam ser combatidas com antibióticos", alerta Isabel Henriques. "Esse é o problema, pois poderemos ter bactérias que vão combinar a capacidade de causar doenças com a capacidade de resistir aos antibióticos", sublinhou.

O estudo mostra que a poluição da água promove a disseminação deste tipo de resistências a antibióticos, ou seja, que águas muito poluídas constituem um risco maior. "Fica demonstrado que o homem, como agente poluidor, está a fazer com que locais poluídos se tornem um depósito com resistências que depois têm impacto em termos de saúde pública", conclui Isabel Henriques.