Selecção

Uma equipa de bons rapazes foi capaz de empatar um grupo de pseudo-estrelas

Postiga fez o golo do empate
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Postiga fez o golo do empate Foto: Miguel Vidal/Reuters

Depois de uma derrota, uma igualdade muito comprometedora. Portugal deixou-se nesta terça-feira empatar (1-1) no Estádio do Dragão pela frágil selecção da Irlanda do Norte e o apuramento directo para o Campeonato do Mundo de 2014 começa a tornar-se numa miragem.

Tal como tinha acontecido nos três jogos anteriores da qualificação, a selecção nacional realizou uma exibição medíocre e apenas nos últimos minutos conseguiu empurrar os britânicos para a sua área e marcar o golo, por Hélder Postiga, que evitou uma humilhante derrota.

Quatro dias depois de sofrer a primeira derrota no trajecto, que os portugueses (ainda) esperam de sucesso, até ao Brasil, Paulo Bento revelou o conservadorismo habitual. Nos três primeiros jogos da fase de qualificação para o Mundial 2014, o seleccionador nacional apostou no “onze tipo” utilizado no Euro 2012, com excepção da última partida na Rússia, onde foi obrigado a prescindir de Raul Meireles que ficou de fora por lesão. No entanto, as exibições, especialmente contra as frágeis selecções do Luxemburgo e Azerbaijão, revelaram-se, no mínimo, sofríveis e a muitas milhas de distância do que os portugueses mostraram na Polónia e Ucrânia no passado mês de Junho.

Mas Bento manteve-se irredutível e manteve a receita. Para o treinador, apesar da derrota em Moscovo e das pouco convincentes vitórias anteriores, os jogadores portugueses nada tinham a provar. Para o seleccionador, a derrota na Rússia, onde Portugal limitou-se a ter muita posse de bola e quase não criou oportunidades, tinha sido apenas “um resultado injusto”. Por isso, optou pelos suspeitos do costume, fazendo apenas uma alteração em relação ao último jogo: o lesionado Fábio Coentrão foi substituído por Miguel Lopes, que voltou a ter que se adaptar ao lado esquerdo da defesa.

Praticamente sem margem de manobra para errar, Portugal estava proibido de perder qualquer ponto frente à Irlanda do Norte para se manter na luta com os russos pelo primeiro lugar do Grupo F, o único que garante automaticamente um lugar no Mundial do Brasil. Contra um conjunto irlandês que apresentou, como Paulo Bento tinha previsto na véspera, um “bloco muito baixo” na defesa, o treinador pediu “paciência” para furar a barreira defensiva de uma equipa que, sempre que necessário, não abdica do velhinho kick and rush britânico.

Com uma equipa limitada tecnicamente, sair do Estádio do Dragão com um empate seria, assumidamente, “um bom resultado”para a Irlanda do Norte, mas Steve Davis, capitão dos britânicos, reconheceu que para isso seria necessário “um pouco de sorte”. O pedido do jogador do Southampton foi satisfeito, mas para além da fortuna, os irlandeses contaram com um bónus: a displicência de uma equipa portuguesa que parece nada ter aprendido após os sustos nos jogos frente a luxemburgueses e azeris.

Tal como tinha acontecido na estreia da qualificação, no Luxemburgo, Portugal entrou no jogo a dormir. Postiga quase desviou para o fundo da baliza um centro de Ronaldo, aos 2’, mas a oportunidade revelou-se um acidente de percurso. A partir daí, começou o futebol macio, previsível, displicente e sem garra dos últimos jogos. E os irlandeses agradeceram. Apesar de ser uma selecção constituída apenas por um grupo de bons rapazes, que nos últimos nove encontros perdeu sete e apenas evitou a derrota em casa contra o Luxemburgo e a Finlândia, os jogadores da Irlanda do Norte colocaram em campo o que raramente houve do outro lado: esforço, dedicação e vontade.

Reacção tardia

O resultado, foi muita posse de bola para as estrelas portuguesas, mas mais atrevimento por parte dos esforçados britânicos que, sorrateiramente, iam chegando perto da baliza de Rui Patrício, quase sempre através de bolas paradas. O futebol de ambos os lados, era no entanto, soporífero. Mas a única equipa que tinha responsabilidade de acabar com a monotonia e procurar o golo, foi (justamente) castigada: aos 30’, MacGinn, a surpresa no “onze” irlandês, surgiu isolado perante Rui Patrício e não falhou. O modesto 117.º classificado do ranking da FIFA passava a ganhar ao 3.º.


A partir daí, a amorfa equipa portuguesa, resolveu acordar: aos 34’ Postiga esteve perto golo e, aos 36’, Cathcart quase marcou na própria baliza após centro de Nani.

Na segunda parte, esperava-se uma atitude totalmente diferente de Portugal, mas a reacção do banco português foi pouco ambiciosa: troca de Miguel Lopes por Ruben Amorim (Veloso passou para a esquerda da defesa). E os efeitos da aposta de Paulo Bento pouco se fizeram sentir. Só a partir da hora de jogo, quando houve um pouco de risco (entrada de Varela), a Irlanda do Norte começou, finalmente, a ser encostada às cordas.

Portugal começou a criar oportunidades (Nani, aos 62’; Ruben Amorim aos 63’; Ronaldo aos 71’), mas o tempo começava a escassear. Até que, aos 79’, já com Éder em campo, chegou o empate: Bruno Alves cruza da direita, o avançado do Sp.Braga amortece de cabeça e a bola sobra para Postiga que faz o empate.

Depois, sim: os irlandeses deixaram de conseguir respirar. No entanto, já era demasiado tarde. As oportunidades, umas atrás das outras, surgiram, mas o golo não. E o Brasil ficou mais longe.

POSITIVOÉder

Com o avançado do Sp. Braga em campo, Portugal melhorou muito. Paulo Bento, no entanto, arriscou demasiado tarde (Éder entrou aos 75’) e o apenas se evitou a derrota.


Irlanda do Norte

Técnica não abunda, mas vontade sim. Os britânicos aproveitaram a débil exibição portuguesa para conseguir um dos melhores resultados dos últimos anos.


NEGATIVOPaulo Bento

Apesar das más exibições (Luxemburgo e Azerbaijão) e da derrota (Rússia), Bento manteve a equipa e o discurso que “não havia nada a provar”. O resultado foi uma exibição muito má contra mais um rival com pouca qualidade e o primeiro lugar no Grupo F começa a ficar demasiado longe.


Ficha de Jogo

Portugal, 1


Irl. Norte, 1


Jogo no Estádio do Dragão, no Porto
Espectadores: 48.711


Portugal

Rui Patrício, João Pereira (Éder, 74’), Pepe, Bruno Alves, Miguel Lopes (Ruben Amorim, 46’), Miguel Veloso, Ruben Micael (Silvestre Varela, 61’), João Moutinho, Nani, Cristiano Ronaldo e Hélder Postiga. Treinador Paulo Bento.


Irlanda do Norte

Roy Carroll, Aaron Hughes, Craig Cathcart, Jonathan Evans, Ryan McGivern, Chris Baird, Steve Davis, Corry Evans, Niall McGinn, Oliver Norwood e Kyle Lafferty. Treinador Michael O’Neill.


Árbitro

Thorsten Kinhöfer, da Alemanha.

Amarelos

Aaron Hughes (84’), Pepe (80’).

Golos

0-1, por Niall McGinn, aos 30’; 1-1, por Hélder Postiga, aos 79’.

Notícia actualizada às 23h46
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