Quando se telefonapara o poder

Porque a linha entre um contacto informal e a troca de favores é tão difusa, o que fica é a desconfiança

Há uma linha ténue que separa os contactos informais entre quem está em posições de poder e quem está à frente de bancos, escritórios de advogados e gabinetes de consultoria. Até que ponto é legítimo um banqueiro ou um advogado telefonarem a um membro do Governo antes, durante ou depois de uma decisão governamental que envolve milhões, para falarem sobre o assunto? Se a corrupção é difícil de provar em tribunal - e Portugal tem um triste histórico no qual as raras condenações por corrupção acabam em nada, porque prescrevem, ou apenas em multas - mais difícil é provar trocas de favores e tráfico de influência. Há dois anos, quando nasceu o braço português da organização internacional Transparência e Integridade, Luís de Sousa, o coordenador, socorreu-se da História da Arte para falar da importância de se fortalecer a qualidade da vida pública. Sugeriu uma visita ao Palácio Público de Siena e, lá dentro, um olhar sobre os frescos de Lorenzetti Ambrogio da Alegoria do Bom e do Mau Governo. Num, o líder é aconselhado pelo sopro divino e segue os princípios da justiça, moderação, generosidade, força e paz. No outro, do mau governo, o líder é representado pelo Diabo e a justiça está no chão, amordaçada, e aos seus pés. À volta, o caos. Em vez dos campos cultivados, da harmonia, da arte e do comércio a florescerem, há a morte, a peste, a fome e a guerra. A história está cheia de relatos de corrupção, das perdizes oferecidas aos juízes na Idade Média às comissões de milhões do nosso tempo. Quando se fala em défice democrático, fala-se também disto, de usar influência junto do poder para obter um tratamento especial, de negócios opacos, de adjudicações sem concursos públicos, de troca de favores nos bastidores. A corrupção não é só um envelope com dinheiro. O relacionamento entre privados e públicos é legítimo, mas porque a linha é difusa, em muitos casos o que fica é a desconfiança.

Uma vitória clara

Toda a gente esperava que o PSD fosse penalizado pelo impacto das políticas de austeridade do Governo de Lisboa nas eleições regionais dos Açores. Mas não foi apenas isso que aconteceu. Se os sociais-democratas perderam uma oportunidade histórica para regressar ao poder, os socialistas não foram afectados pela mudança de líder. Por isso, a noite eleitoral açoriana teve três vencedores claros. Carlos César, cujo percurso de 16 anos à frente da região foi também sufragado. Vasco Cordeiro, o delfim, que conseguiu manter a maioria absoluta. E António José Seguro, que sai a ganhar por o PS ter beneficiado do desencanto com os partidos que estão no poder em Lisboa (o CDS também perdeu deputados), enquanto os partidos mais à esquerda não polarizaram o descontentamento. A leitura final é simples. Nos Açores, o PS governará sem ter que fazer alianças. A nível nacional, a leitura será amarga para a maioria, mas o PS viu a sua estratégia nacional ser fortemente legitimada. Mais até do que os socialistas esperariam.