À Lupa

Portugal sem soluções para um adversário com o dedo de Capello

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1. A tentação será reduzir a derrota de Portugal ao caiporismo, mas seria um erro de palmatória acreditar que a superioridade e a qualidade se medem apenas pela posse de bola (mais de 70%) e pelo número de ataques, remates e de cantos. Portugal perdeu porque cometeu demasiado cedo um erro fatal e porque, depois, foi incapaz de resolver os problemas colocados por Fabio Capello. Mas também porque a Rússia foi mais inteligente: transfigurou-se, resolveu as debilidades históricas e potenciou as virtudes. Portugal teve cabeceamentos mais ou menos perigosos de Bruno Alves e Postiga e um desvio de Ronaldo. Para além do golo, a melhor chance pertenceu à Rússia. Foi, por isso, uma vitória "à italiana" e com o dedo de Capello.

2. A ausência de Meireles e a lesão de Coentrão limitaram os recursos. E nunca é fácil jogar num sintético. Mas nem isso justifica tantos passes errados e a falta de intensidade de jogo, principalmente no segundo tempo. O problema resultou da falta de inspiração de uma boa parte dos jogadores portugueses (Micael pareceu sempre afectado pela perda de bola no lance do golo e Ronaldo foi bem vigiado) e da forma como a Rússia tirou partido do marcador quando pouco tinha sido feito para o justificar.

3. Olha-se para esta Rússia e não há sinal da que desiludiu no Euro. Os jogadores são os mesmos, o toque de bola perfumado continua lá, mas tudo o resto é diferente. A base de partida parece continuar a ser o 4x3x3, mas ontem, quando se observava com atenção, verificava-se que os russos, sem a bola, assumiam uma espécie de 4x2x3x1. Muitas das vezes, o quinteto do miolo distribuía-se num duplo pivot (Denisov e Shirokov) e Fayzulin surgia entre Bystrov e Kokorin. Noutras, formava uma linha de cinco homens, à frente e próxima de uma defesa muito recuada (disfarçou assim a falta de mobilidade dos centrais).

Notou-se o cuidado em nunca perder a bola em terrenos perigosos. Tudo ao contrário do passado recente. Ontem, viu-se uma equipa cínica, mais de transições do que de organizações. E fê-lo com competência, como no lance do golo (Shirokov decidiu tudo com aquele passe de primeira que isolou Kerzhakov e deixou Portugal desequilibrado). Capello foi ainda sagaz quando abdicou da estrela Dzagoev para apostar na velocidade de Kokorin. Ou quando adiantou este para meter um segundo lateral-esquerdo.

4. Paulo Bento recorreu ao habitual, incluindo a passagem de Nani para a posição dez. Éder podia ter entrado mais cedo - Postiga foi sempre presa fácil.

5. Coentrão não vai recuperar em três dias e Miguel Lopes não dá profundidade na esquerda. Não era má ideia chamar de urgência Eliseu para o jogo com a Irlanda do Norte.