Ciclismo

Horta diz que condenação de Armstrong é uma vitória da luta contra o "doping"

O facto de Armstrong não ter tido controlos positivos não é essencial para a acusação, segundo defende Luís Horta.
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O facto de Armstrong não ter tido controlos positivos não é essencial para a acusação, segundo defende Luís Horta. Lucas Jackson/Reuters (Arquivo)

Luís Horta, presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), classifica o fim do processo contra Lance Armstrong, com a irradiação do ciclista e a anulação dos seus resultados desportivos, como uma “clara vitória da luta contra o doping”.

“O epílogo de toda esta investigação desencadeada pela USADA (Agência Antidopagem dos Estados Unidos) demonstra grande coragem, porque pôs em causa um dos heróis nacionais dos Estados Unidos”, realçou Luís Horta, em declarações à agência Lusa.

Para Luís Horta, igualmente director do Laboratório de Análises de Dopagem português, esta é também “uma boa prova do que podem fazer as agências nacionais antidopagem”, elogiando a “coragem” de Travis Tygart, o presidente da USADA, que qualifica o sistema montado em torno de Armstrong como “o programa de doping mais sofisticado da história do desporto”.

Luís Horta não considera que a acusação a Armstrong fique “fragilizada” por se sustentar em depoimentos de 26 pessoas, a maior parte das quais ciclistas colegas do hepta vencedor do Tour (1999 a 2005), e relembra a importância que dos dados fornecidos pelo “passaporte biológico”.

“Foram utilizados diversos meios que estão consagrados, como a confissão de terceiros que demonstraram o seu arrependimento, mas também provas laboratoriais indiretas, análises realizadas ao sangue do ciclista ao longo do tempo”, explica, frisando que a análise dos parâmetros sanguíneos determinou um “perfil longitudinal considerado não fisiológico”.

E mesmo a prova testemunhal é de grande importância, neste caso: “Os testemunhos valem o que valem, o de uma ou duas pessoas poderá ter algumas fragilidades, mas neste caso foi uma série de pessoas - que inclusivamente viveram com Armstrong, treinaram e conviveram diariamente - a corroborar uma série de afirmações”.

Luís Horta admite que o caso não termine com a decisão da USADA - “vai ter muitas repercussões, é um polvo de muitos tentáculos e vai atingir outros países, deverão ser desencadeados outro tipo de investigações, que podem afetar outros ciclistas”.

Nenhum prevaricador se pode considerar totalmente descansado, já que a lei atual permite “retroceder oito anos” em termos de investigação. “Qualquer facto praticado nesse período pode ser investigado”, adverte, salientado que agora “a luta está mais eficaz”.

O facto de Armstrong não ter tido controlos positivos não é essencial para a acusação, reconhece Luís Horta, que afirma que “a luta antidopagem vai muito além dos controlos, que têm fragilidades”.

“Há substâncias que ainda hoje não têm método de detecção, ou que têm janelas de detecção curtíssimas - pequenas doses de EPO podem desaparecer em menos de 24 horas, o mesmo acontecendo com uma administração de hormona do crescimento”, explica. E há mesmo “determinadas aplicações de esteróides que podem desaparecer em muito menos de 24 horas”.

Mas face ao período do apogeu de Armstrong, muito se avançou e a UCI acabou por se adequar às regras da Agência Mundial Antidopagem (AMA). Luís Horta relembra ter estado no Tour de 2003, como observador da AMA, e os problemas que então constatou, e que relatou, de “forma clara e frontal”.

Recorda que os ciclistas tinham até uma hora para se apresentarem ao controlo, após a notificação, sem serem acompanhados nesse período de tempo.

“Mesmo quando tivessem de ir ao pódio, a conferências de imprensa ou receber massagens, deveriam ser devidamente acompanhados, a regra da AMA era apresentarem-se de imediato”, explica. “Tentei demonstrar que isso era possível, eu próprio fiz o acompanhamento de um atleta, e quando cheguei à porta do autocarro da equipa tive a entrada vedada, disseram-me que era espaço privado”.

No período de 20 minutos que teve de esperar o ciclista poderia “ter feito uma algaliação ou uma manipulação da amostra” e assim não ser detectado o doping.

No mesmo Tour, recorda ter chegado hotel da Deutsche Telekom pelas 06h30 e ficar surpreendido por ver o director desportivo no "hall" do hotel. “Depois de diversas manobras de diversão, o ciclista só foi notificado 45 minutos depois”.

“Poderia ter havido manipulação da amostra - há testemunhos a nível nacional de ciclistas arrependidos que referiam quem dormisse com um balão de soro à cabeceira, e à chegada da brigada eram avisados por quem estava de alerta e introduziam o soro para diluir o sangue e manipular os parâmetros analíticos”, refere.

Agora, tudo é diferente - “estamos em velocidade cruzeiro com o passaporte biológico, que é a arma mais eficaz que temos agora”. Uma realidade totalmente diferente dos anos de grande domínio de Lance Armstrong, Jan Ullrich e outros, em que a UCI ainda não estava “em sintonia” com a AMA e em que havia “fragilidades” no sistema, que só permitiam suspeições. “Mas as suspeições de então confirmaram-se...”.

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