Patriarca diz que democracia na rua corrompe a democracia

José Policarpo: A crise actual foi criada “ao longo de muito tempo”
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José Policarpo: A crise actual foi criada “ao longo de muito tempo”

O patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, diz que a Igreja Católica deve “aceitar a diferença” e que a situação actual do governo “a partir da rua” resulta na “corrupção da harmonia democrática”.

Em conferência de imprensa esta tarde, em Fátima, antes do início da peregrinação de 13 de Outubro, o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa afirmou que “há dimensões preocupantes” na actual crise económica e social que se vive no país. “A democracia [portuguesa], que se define constitucionalmente como democracia representativa, na qual as soluções alternativas têm um lugar próprio para serem apresentadas, neste momento, está na rua”, afirmou.

O patriarca está nesta sexta-feira e sábado a presidir, talvez pela última vez, a uma peregrinação em Fátima enquanto patriarca, já que deverá abandonar o cargo dentro de meses. Antes do início das cerimónias, D. José Policarpo acrescentou, respondendo a perguntas dos jornalistas: “O que está a acontecer é uma corrosão da harmonia democrática, da nossa constituição e do nosso sistema constitucional.”

A crise actual, disse o patriarca, foi criada “ao longo de muito tempo”. “Estes problemas foram criados por nós e por quem nos governou”, afirmou, manifestando-se no entanto como “incompetente” para se pronunciar sobre medidas concretas do actual ou de anteriores governos.

O patriarca acrescentou que os problemas não se resolvem “contestando, indo para grandes manifestações” ou fazendo uma qualquer “revolução”. E criticou a “reacção colectiva a este momento nacional, que dá a ideia de que a única coisa que se pretende é mudar o Governo”.

D. José Policarpo considera que “há sinais” de que os sacrifícios levarão a resultados positivos”, quer no país quer na Europa. “A situação criou-se dentro de um sistema económico-financeiro em que estamos inseridos, na União Europeia, e é lá que temos de encontrar as soluções”, disse, para acrescentar: “A democracia faz-se vencendo etapas como estas.”

Sobre o papel da Igreja Católica, o cardeal Policarpo diz que ela está presente junto dos mais necessitados “para ajudar em silêncio”, porque essa deve ser a atitude dos cristãos. “A Igreja, no seu todo, reagiu na atenção às pessoas”, disse. A arte da política deve ser a de promover “a equidade”, protegendo os mais desfavorecidos.

O patriarca insistiu, no entanto, na recusa em acrescentar a sua voz à “balbúrdia das opiniões” que comentam a actualidade, porque isso não faz parte do “ministério do bispo”.

Unidade não é só um caminho

Acabado de chegar do Vaticano, onde participou ontem na abertura oficial do “ano da fé”, proclamado pelo Papa Bento XVI, o patriarca referiu-se ainda aos 50 anos do início do Concílio Vaticano II, que ontem mesmo também se assinalava. Um dos passos mais importantes que a Igreja Católica deve dar é o de “aceitar a diferença, respeitando o essencial da fé”.

O desafio ecuménico é um dos mais importantes para as diferentes igrejas cristãs, acrescentou ainda. “Não haverá unidade se o caminho for conduzir todos ao código romano”, afirmou, acrescentando que o desafio colocado às restantes igrejas cristãs é “chegar ao essencial da fé”.

O Concílio Vaticano II, que entre 1962 e 1965 reuniu todos os bispos católicos encetando várias reformas da Igreja, precisa agora de ser relançado “para as novas gerações que não o conheceram”, afirmou entretanto o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto.

O mesmo responsável referiu-se ainda ao Nobel da Paz hoje atribuído à UE, afirmando que ele é “um reconhecimento do valor do projecto da União Europeia e do seu sentido para a construção da paz entre os povos da Europa e do mundo”. O Nobel “não foi apenas atribuído aos líderes”, mas “a todos os cidadãos e povos da Europa” num momento difícil em que o projecto europeu “está abalado” nos seus fundamentos e ameaça “desfazer-se em ruínas”, acrescentou o bispo, que é delegado da Conferência Episcopal Portuguesa na Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia.