Crónica de jogo

Quinze minutos de recital e erros arbitrais

Schaars voltou à titularidade no Dragão
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Schaars voltou à titularidade no Dragão Foto: Francisco Leong/AFP

No Dragão, os golos caíram na baliza do Sporting como folhas no Outono, com cadência regular, um em cada parte. E foram a expressão inequívoca do domínio exercido pelo FC Porto, da impotência dos “Ocean’s Eleven” e de alguns equívocos arbitrais. Com excepcão do período inicial, não houve, no entanto, uma soberba lição futebolística e o jogo acabou por ficar marcado por algumas polémicas e teatros (dois penáltis mais do que duvidosos). À sexta jornada, o “leão” disse adeus ao título, porque ninguém acredita que recupere 21 pontos (oito para o FC Porto e para o Benfica e quatro para o Sp. Braga).

Os primeiros 15 minutos foram marcados por uma superioridade escandalosa do FC Porto, que repetiu a equipa que venceu o PSG, o que aconteceu pela primeira vez esta época. Pelo contrário, no Sporting assistiu-se a uma pequena revolução, com Oceano a efectuar seis alterações. Regressou o 4x3x3 (com o triângulo invertido, porque Elias e Schaars formavam o duplo pivot, já que Rinaudo ficou no “banco” e Gélson nem isso). Pranjic surgiu sobre a esquerda do miolo, algo que o despedido Sá Pinto já tinha experimentado. Mas se alguém esperava um efeito libertador, uma espécie de catarse em resultado da troca do treinador, acabou redondamente enganado.

O jogo era então um monólogo, com o FC Porto a exercer o seu jogo circular, feito de triangulações. Um jogo de memória que levou o Sporting ao limite da impotência, sem respostas individuais ou colectivas. O que se advinhava quase desde o apito inicial aconteceu ao minuto 10, numa jogada que poderia fazer parte de qualquer boa enciclopédia de bom futebol. Lançamento magnífico de Danilo e Jackson a dominar primeiro com a coxa e, depois, a aplicar de costas um toque de calcanhar que deixou Patrício sem reacção. Um golo que foi um hino ao futebol. Antes, Moutinho, Jackson (excelente defesa de Patrício) e James também já tinham visado a baliza “leonina” com perigo. E, depois, Lucho também tentou a sua sorte de longe. Nesse período, o FC Porto desgastou o sistema nervoso do Sporting, que atingiu uma cota insuportável.

O jogo de pares em que apostou Oceano (Elias e Schaars seguiam, respectivamente, Moutinho e Lucho) resultava confuso e o Sporting mostrava-se uma nulidade com a bola. Defendia mal, atacava pior — nada funcionava. Era uma equipa invertebrada, excessivamente contemplativa, nada protagonista. O seu futebol pecava pelo absentimo e melancolismo.

De facto, nunca teve verdadeiramente um plano ou se o tinha não o aplicou. Melhorou um pouco após o primeiro quarto de hora, quando Maicon se lesionou (entrou Mangala). Mas isso resultou principamente de uma quebra na coerência do futebol portista, que baixou de intensidade e perdeu fiabilidade. Pouco a pouco, os portistas foram retomando o comando do jogo. A boa ocupação dos espaços permitia-lhe ser uma equipa que retira vantagem do caos que produz nos adversários. Fá-lo muito à custa da inteligências de Moutinho, que tem o condão de impor um governo discreto que só se vislumbra com inteira justiça das bancadas.

O Sporting demorou muito a chegar ao jogo e raramente conseguiu jogar com critério e ofício. Tentava fazer um exercício profissional, mas nunca conseguia governar o jogo. Era uma equipa plana, indigesta, sem garbo. E faltava-lhe remate — o primeiro (por Carrillo) aconteceu apenas aos 17’, e sem perigo. Nada de surpreendente num clube à beira de um ataque de nervos e numa equipa cujo autocarro teve de voltar para trás depois de ter arrancado para o estádio, porque se tinham esquecido do técnico adjunto Porfírio.

A segunda parte foi um exercício geométrico, muitas idas e voltas, muita pólvora seca, mas com saldo nulo. O Sporting surgiu mais afoito, mas o FC Porto podia ter rsolvido tudo se Lucho não tivesse disparado ao poste, aos 55’, na marcação de um penálti duvidoso (ficou a ideia que Cédric não teve a intenção de tocar a bola com a mão).

O final do jogo foi eléctrico, mas não teve transcendência por aí além. Oceano abdicou de Izmailov, perdendo a sua única fonte de inspiração. O jogo estava mais repartido, mas ficou mais fácil para o FC Porto após a expulsão de Rojo, vítima do segundo amarelo. Os portistas também ficariam reduzidos a dez, após a lesão de Alex Sandro, numa altura em que as substituições estavam esgotadas. Helton ainda teve de se aplicar (remate de Pranjic), mas tudo ficou decidido quando James fez o 2-0, em mais um penálti duvidoso (não ficou claro o agarrão de Boulahrouz a Jackson).

Um bom general deve não apenas conhecer o modo de vencer, mas também saber quando a vitória é impossível. Ontem, Oceano não teve tropas e ainda teve contra si o árbitro.

POSITIVO

João Moutinho
Nao é um jogador para as estatísticas, mas voltou a ser a extensão do treinador no relvado. Está em todo o lado, movimentando-se com uma inteligência e com uma qualidade de jogo diametralmente opostas à sua estatura.

Otamendi
Esteve imperial lá atrás e ainda tentou o golo por diversas vezes.

Golo e Jackson
A jogada foi magnífica, a começar pelo lançamento de Danilo, mas a execução final de Jackson foi à altura de um Zeus com botas.

POSITIVO
Entrada do Sporting
A equipa de Alvalade nunca esteve à altura do desafio, mesmo quando melhorou na segunda parte, mas no primeiro quarto de hora assumiu uma atitude dócil imprevista. O jogo podia ter ficado resolvido logo ali.

Notícia actualizada às 23h09