Como se conta uma multidão?

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A multidão concentrada na Praça de Espanha, em Lisboa Enric Vives-Rubio

É preciso a ajuda de algoritmos complexos, de câmaras especiais, de antenas que detectam sinais de telemóvel, de mapas a três dimensões? Ou basta "experiência" e "olho"? A polémica é frequente e é assim em todo o mundo: raramente há consenso sobre o número de participantes numa manifestação. Porque os números podem ser mais do que números - podem ser armas de arremesso entre patrões e sindicatos, Governo e oposição... Há, contudo, quem se dedique a investigar - e até a comercializar - ferramentas de contagem de multidões que, sendo úteis para medir protestos, têm outras potencialidades. Em Portugal, os métodos estão longe de ser particularmente sofisticados.

Comece-se por aqui, antes de procurar saber que técnicas têm sido inventadas. A PSP, por exemplo, faz, genericamente, da seguinte maneira: calcula a área onde se concentram as pessoas, usando ferramentas como o Google, depois avalia o quão compacta está a multidão - entre 3 e 6 pessoas por m2.

Para se ter uma ideia de que concentração de pessoas estamos a falar (porque a densidade da ocupação do espaço é uma das variáveis controversas), eis alguns exemplos: o Santuário de Fátima, quando conta os peregrinos, aplica a fórmula de quatro pessoas por m2, quando o espaço está bem preenchido. "Poderá ir-se até seis pessoas por m2, nas grandes peregrinações e nos locais de maior concentração, como junto à Capelinhas das Aparições", explica António Valinho, secretário da Reitoria.

Já num grande concerto (como o da Madonna, em 2008, no Parque da Bela Vista, com 72.666 pessoas) a promotora Everything is New define como lotação máxima 2,8 pessoas por m2, diz o director Álvaro Covões. No metropolitano, o valor de referência é quatro pessoas por m2, lembra o arquitecto Tiago Mota Saraiva.

A Lynce, uma empresa espanhola que trabalhou alguns anos com a agência de notícias EFE na contagem de multidões, faz saber no seu site que 1,7 pessoas por metros quadrado "já é uma cifra altíssima para uma multidão em movimento". Em Fevereiro, a empresa encerrou por problemas financeiros. E terá havido quem tivesse suspirado de alívio: "O pesadelo dos manifestantes fechou portas", noticiou-se, numa alusão ao facto dos cálculos da Lynce acabarem sempre por dar uma imagem bem mais magra das manifestações do que a publicitada por quem as organizava e, até, pela polícia.

Em suma: caberem seis pessoas num m2 pode parecer impossível para alguns? Valinho, do Santuário de Fátima, diz que não é. E o comissário Paulo Flor, director do gabinete de imprensa da direcção Nacional da PSP, não entra em detalhes. O método da polícia "tem apenas o propósito de apoiar medidas operacionais e consta dos relatórios confidenciais da PSP", diz.

Mais: os resultados das contas não são revelados desde 2008 porque "em dado momento da vida social e política do país" os números da polícia eram usados "como mediadores de lutas entre sindicatos e entidades patronais e/ou outras".

No sábado, a organização dos enormes protestos que decorreram em várias cidades do país com o lema "Que se lixe a troika. Queremos as nossas vidas de volta!", apontou para um número de 500 mil pessoas, só na cidade de Lisboa, e 100 mil no Porto, para além das manifestações noutras cidades.

Elísio Estanque, sociólogo de Coimbra, admite que as contagens são sempre polémicas. Mas não tem dúvidas que esta foi das maiores manifestações depois do 1.º de Maio de 1974 - que terá juntado um milhão a seguir à revolução de Abril, como lembra Alan Stoleroff, investigador do ISCTE, especialista em sindicalismo, que fala do protesto de 15 de Setembro como algo de "gigante".

Contar sinais de telemóvel

Mas é mesmo impossível contar com mais rigor? Um grupo de investigadores da Universidade do Porto desenvolveu um


software

que, com a ajuda de antenas, contabiliza, em tempo real, sinais de telemóvel.

O projecto foi finalista do ISCTE/MIT-Portugal Venture Competition (um concurso internacional que distingue projectos de base tecnológica em Portugal) e já foi distinguido noutros concursos. Suzy Vasconcelos, uma das autoras, diz que já é usado para monitorizar trânsito ou contar clientes em centros comerciais, mas também detectar como se movimentam (é possível saber, por exemplo, que uma pessoa que esteve na loja A foi, a seguir, almoçar ao restaurante B). Poderia ser usado numa manifestação? Sim, responde. Mas a sua empresa, a Around Knowledge, nunca foi contratada para tal.

A Around Knowledge nasceu na incubadora da Fundação Serralves e tem financiadores nacionais e internacionais. O funcionamento do produto que vende, explicado por Suzy, parece simples: "Para monitorizar uma manifestação, bastava colocar antenas nas extremidades da zona da manifestação e estas estariam a apontar para o centro da manifestação, de forma a cobrir a zona dos manifestantes" e a excluir, por exemplo, sinais que viessem de quem estivesse dentro dos edifícios.

A vantagem do seu método, diz, é que não faz estimativas. Conta pessoa a pessoa ("Hoje já quase toda a gente tem telemóvel, excepto crianças e pessoas muito idosas").

Outro português, Nuno Vasconcelos, professor na Universidade da Califórnia em San Diego, está a desenvolver um modelo estatístico que relaciona o movimento em imagens captadas por vídeo com o número de pessoas - está ainda "na infância", tem sido testado no campus universitário de San Diego. Mas uma das ideias é que esta tecnologia possa vir a ser usada pelas forças de segurança em manifestações, possibilitando identificar em tempo real zonas que estão sobrecarregadas de gente e onde há perigo de esmagamento, por exemplo, permitindo às forças de segurança actuar de forma preventiva.

"O meu trabalho é tentar fazer com que os computadores percebam imagens e reconheçam objectos, no fundo, dar capacidade de visão a computadores. Este problema da contagem de multidões é uma subárea nessa área" que pode ter interesse também para o planeamento urbano, exemplifica.

O "método da experiência"

Mas afinal, contar cabeças tem assim tanto interesse, quando se fala de manifestações?


"Mais cem mil, menos cem mil, aquelas imagens aéreas junto à Praça de Espanha dissuadiram grandes disputas sobre os números" da adesão ao protesto de sábado em Lisboa, diz Elísio Estanque.

"Os números nunca conseguem ser tão rigorosos como as pessoas, o importante para nós foi a força expressiva dessas pessoas unidas nas ruas cheias", muitas delas a manifestarem-se pela primeira vez, nota Mariana Avelãs da comissão que lançou a manifestação.

"Uma manifestação vale muito, também, pela impressão que deixa. Será que se forem um pouco menos, isso vai alterar a percepção do que representou" o protesto? - questiona o politólogo André Freire.

"Os números são um indicador da mobilização cívica", diz o investigador António Costa Pinto, presidente da Associação Portuguesa de Ciência Política. Mas "os académicos não têm meios para contabilizar". E, a verdade, é que desde o final dos anos 70 que as manifestações de rua deixaram de suscitar tanto interesse. "Em 1978, 1979, estar na rua era estar próximo do PCP. As elites tinha um discurso: há eleições, há deputados, acabou a rua da transição democrática... Por medo e por necessidade de legitimização das instituições representativas."

Mas, com tudo isto, há quem, para além da organização do protesto de há uma semana, arrisque cálculos. "Para uma manifestação tão grande, como era a de sábado, é extremamente difícil fazer uma contagem sem uma equipa, porque é - e foi - quase impossível uma só pessoa andar do fim até ao início da manifestação e, o inverso, andar do início até ao fim", começa por dizer Alan Stoleroff.

Habituado a contar multidões porque precisa disso para o seu trabalho académico, Stoleroff estima, ainda assim, que no sábado "houve, pelo menos, três vezes o número de participantes que na maior manifestação dos professores" que terá juntado 120 mil em Novembro de 2008. E mais também do que na organizada em 2007 contra a flexisegurança, pela organização sindical CGTP, no Parque das Nações, que terá juntado quase 200 mil e foi considerada uma das maiores de sempre. "Portanto, no sábado, estiveram entre 300.000 e 400.000" pessoas nas ruas de Lisboa.

Que método é o deste académico? "É uma mistura de método de contagem, de comparação entre manifestações e de muita experiência de observação de concentrações", responde. E ilustra: se uma manifestação percorre a Av. da Liberdade (o que não aconteceu no sábado - aliás, o facto do percurso não ser o de quase todas as manifestações dificultou os cálculos) o professor conta "pacotes" de pessoas numa determinada área e vai multiplicando esse número por áreas idênticas com a mesma densidade.

Mas há muitos outros dados que pode ter em conta: a probabilidade de encontrar pessoas conhecidas, por exemplo - "Conheço as caras de todos os radicais de esquerda, dos sindicalistas, vejo-os em todas as manifestações, mas na de 15 de Setembro não os encontrei" -, é menor em manifestações mais concorridas.

"Nem régua e esquadro, nem 'olhómetro'p", sintetiza João Torrado, da CGTP, outro homem que há décadas conta multidões. O sindicalista diz que não há matemática pura que permita contar gente. "As manifestações são todas diferentes. Há pessoas que entram a meio, às vezes a cabeça da manifestação chega ao local do discurso e a cauda chega uma hora e meia depois e quem chegou primeiro não fica até ao fim, não tem paciência; as pessoas andam para trás e para a frente..." Não basta, diz, multiplicar metros quadros e densidade estimada.

Faz-se então, como? Os sindicalistas da CGTP cruzam sempre a observação do terreno, com outro tipo de informação (quantos autocarros vieram com manifestantes? Quantas pessoas em cada empresa os delegados conseguiram mobilizar?) O próprio estado de espírito dos manifestantes interfere na forma como ocupam o espaço. Numa manifestação que assinale o 25 de Abril as pessoas vão mais relaxadas, mais afastadas; numa mais politizada há faixas a separar filas de pessoas, a multidão tende a esperar pelos discursos, e concentra-se; numa como a de sábado é tudo mais caótico.

No final das "manifes" da CGTP, juntam-se sempre alguns dirigentes e delegados, ponderam tudo e só depois avançam um número.

Balões e mapas 3D

Poderiam métodos menos baseados na "experiência" dar azo a menos debate? Não necessariamente.


Em Outubro de 2009, a organização de uma manifestação contra o aborto, em Madrid, calculou ter juntado dois milhões de pessoas. A polícia contou 250 mil. O jornal El País, 265 mil. E a Lynce apenas 55.316.

A empresa usou duas câmaras de vídeo, quatro câmaras de fotos e um balão dirigível que sobrevoou a manifestação. Foram recolhidas 300 imagens, mas bastaram sete para a contagem final, relatou o El País. A cada manifestante foi atribuído um número.

A EFE defendeu-se das críticas que surgiram dizendo que o método lhe parecia suficientemente rigoroso. E manteve o contrato com a Lynce.

Também os dados da norte-americana Digital Design and Imaging Service já têm sido notícia. Em Agosto de 2010, a estação de televisão norte-americana CBS contratou-a para estimar a multidão que estaria presente num comício liderado pelo conservador Glenn Beck, em Washington, sob o lema "Restaurar a honra". A organização estimou ter juntado no Lincoln Memorial entre 300 mil e 500 mil participantes (Washington Post). Já a empresa contou 87 mil, depois de recolher imagens aéreas da multidão e aplicá-las a um modelo a três dimensões, onde aparecem marcados os diferentes graus de concentração das pessoas no espaço.

Em suma: o método consensual parece estar longe de ter sido atingido. Nuno Vasconcelos, da Universidade da Califórnia, diz que "o que hoje em dia se faz - régua e esquadro, para estimar uma área e depois multiplicar por uma estimativa de densidade de pessoas é algo arcaico". O que Vasconcelos procura - e como ele outros investigadores que têm publicado sobre o assunto -, são margens de erro próximas do 1%. Até lá se chegar, acredita, "haverá sempre discrepâncias brutais" nos balanços dos protestos. É assim em toda a parte, garante.