Estudo

As exportações crescem, mas a economia portuguesa não aproveita

O conteúdo importado na produção nacional para exportação cresceu de 20,2% em 1986 para 25,9% em 2008
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O conteúdo importado na produção nacional para exportação cresceu de 20,2% em 1986 para 25,9% em 2008 Rui Gaudêncio

Augusto Mateus apresentou hoje um estudo que revela que os sectores mais rentáveis estão a perder cota de exportação . O economista conclui também que a economia portuguesa não usa suficientes recursos endógenos e que o crescimento deve partir do sector privado.

O trabalho, desenvolvido em parceria com a Caixa Geral de Depósitos (CGD), traz uma mensagem de necessidade: ligar as exportações à criação de valor e assim garantir crescimento económico e emprego. “O Governo deve criar medidas que acompanhem as restrições orçamentais, pois sem elas não terá resultados imediatos”, defendeu o economista Augusto Mateus antes da apresentação do Estudo sobre Exportações, valor e crescimento, da sua autoria.

Sem esse valor acrescentado às exportações - leia-se, valor que as empresas conseguem acrescentar ao custo inicial dos bens -, o crescimento nas exportações portuguesas pouco ou nada significa para efeitos de crescimento económico. E, de facto, a contribuição das exportações portuguesas para a riqueza do país estagnou: desde 1985 que as exportações contribuem cerca de 30% para o Produto Interno Bruto.

O investimento para reanimar a economia, diz o professor e economista, “terá de vir do sector privado, pois o sector público está sobrecarregado com as responsabilidades sociais”. Augusto Mateus avisou que “se querem [o Governo] gerar novos postos de trabalho terão de promover as condições de atracção do investimento privado.”

As conclusões do relatório

O sector exportador português cresceu de forma desequilibrada e foi incapaz de promover o crescimento económico e emprego. Isto porque existe nas exportações uma ineficiência alocativa, em primeiro lugar, e, em segundo, porque o país não conseguiu aproveitar os seus recursos próprios e transacionou principalmente o que importara antes, conclui Augusto Mateus.

Ineficiência alocativa porque a “economia portuguesa virou-se para dentro”, diz o economista. Ou seja, apesar de os vários sectores da economia nacional conseguirem ter uma porção maior de valor acrescentado nas suas exportações, a percentagem de actividades que de facto se conseguem transacionar na economia externa portuguesa desceu significativamente. Hoje, só 18,5% das actividades económicas são transacionáveis, quando em 1995 esse valor estava nos 26,5%.

Cerca de 61,2% da riqueza conseguida através do aproveitamento do valor acrescentado na economia portuguesa está no ramo dos serviços comercializáveis, que, na sua maioria, não são transacionáveis. Não contribuem para as exportações.

A indústria, sector que até tem conseguido trazer mais valor acrescentado à sua produção, tem descido na contribuição para as receitas nacionais que são conseguidas através da diferença entre custo de um bem e a sua posterior venda. Aqui está a referida “ineficiência alocativa”. Os sectores que poderiam contribuir mais para valorizar as exportações estão a perder a quota de exportações.

As conclusões do estudo de Augusto Mateus dependem em muito da distinção entre valores absolutos e valore relativos. Em valores absolutos a economia portuguesa tem conseguido aumentar o valor acrescentado por sector. Nas contas relativas, esta contribuição não tem representado crescimento e emprego porque a cota de exportações desta mais eficiente produção nacional tem decrescido.

Para além da “ineficiência de alocativa”, tem que existir um aumento da incorporação de bens próprios do país na economia exportadora. Apesar de a economia portuguesa ter conseguido aumentar a percentagem de valor acrescentado, o estudo conclui que este valor continua demasiado baixo. Ao todo, a percentagem que a economia portuguesa consegue extrair da exportação de valor acrescentado situa-se apenas nos 18,5%.

O vice-presidente da CGD introduziu o estudo de Augusto Mateus, que foi apresentado pelo autor na sede do banco, em Lisboa. Atentando às conclusões a que o economista chega, António Nogueira Leite afirmou que a CGD vai passar a orientar a sua linha de crédito de forma a privilegiar as pequenas e médias empresas que de facto podem garantir, através das exportações, o crescimento e o emprego de que o país precisa. Desta forma, argumentou Nogueira Leite, “[o banco] passará a contribuir de uma forma mais directa para o crescimento do PIB português”.