Nelson Garrido
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Nelson Garrido

A geração à rasca desenrasca-se pior mas ainda não está perdida

Precariedade, desemprego, emigração. Os jovens portugueses vêem o futuro com cada vez mais reserva. Mas a geração não está definitivamente perdida, acreditam sociólogos

Inauguramos o P3 a falar de crise. Da geração à rasca (que ainda se desenrascava), da mais qualificada, da mais viajada, da mais internacional. No dia 22 de Setembro de 2011, o P3 nascia com a crise às costas: o desemprego sub-25 era de 27,8% e o havia 13,6 mil jovens licenciados sem emprego.

Não era o fundo do poço. Enquanto o P3 crescia, o país desintegrava-se: o desemprego subia, a emigração subia, a esperança e as oportunidades e os sonhos caíam. Desemprego jovem: 36,4%. Número de licenciados sem emprego: mais de 80 mil.

Carlos Gonçalves, investigador da Universidade do Porto, faz o balanço de um ano sem rodeios: “A situação agravou-se substancialmente.” É um cenário não exclusivo dos jovens – vimos a prova no dia 15 e Setembro, quando três gerações saíram às ruas numa das maiores manifestações da democracia portuguesa –, mas que os afecta particularmente.

São o grupo com maior taxa de desemprego e a pergunta não cala na cabeça deles: ainda há espaço para o futuro? Um relatório da União Europeia, divulgado recentemente, falava do risco de esta se tornar definitivamente numa “geração perdida”. Carlos Gonçalves não vai tão longe (“Tenho relutância em dizer que a geração está perdida, é muito forte”) e delimita a questão: é uma geração com “fortes problemas do ponto de vista do emprego”.

Diploma: uma arma que já não chega

Mas a grande arma dos jovens (“o nível de qualificações mais elevado de sempre”) é também posta em causa por este estudo europeu, que conclui que para um jovem português o risco de ficar desempregado é tanto maior quanto mais qualificado for.

Os novos caminhos abertos pelo crescimento de vagas no ensino superior não foram acompanhados pelo tecido empresarial, “fortemente constituído por empresas obsoletas e pouco inovadoras”, sem capacidade para integrar a mão-de-obra mais qualificada. Por isso, diz Carlos Gonçalves, é preciso “reorganizar a oferta no ensino superior”: "É uma responsabilidade, em primeiro lugar, das universidades, que devem ter atenção ao volume de vagas e às oportunidades de trabalho."

Houve uma mudança significativa das dinâmicas do mercado e, para os jovens, parece relativamente pacífico que a ideia de emprego para a vida tenha desabado. Menos pacata será a ideia de “não dispor de um mínimo de estabilidade existencial que proíbe projectos e sonhos de médio e de longo prazo”, adverte o docente de Psicologia da Universidade do Porto, Joaquim Luís Coimbra.

Com as opções a estreitar, os portugueses vêem na emigração uma alternativa: estima-se que, em 2011, 100 mil tenham abandonado o país. E em 2013 serão mais, estima a socióloga Margarida Marques, que ressalva, no entanto, que "a sangria desatada dos anos 60 não deverá voltar a repetir-se". 

O facto de esta geração ter sido sociabilizada de forma distinta dos pais ou avós, dá-lhe outra capacidade para reagir: a depressão relacionada com a falta de emprego “não acontece tanto nesta geração”.

Deprimidos não, sem esperança sim

Joaquim Luís Coimbra vai mais longe: “Dizer que a juventude portuguesa está deprimida é uma irresponsabilidade social.” A teoria não é pacífica (“já me valeu algumas discussões”), mas quer, acima de tudo, “desconstruir a cultura da medicalização”. A depressão é uma “categoria pesada que culpabiliza demais o indivíduo. É como se disséssemos que o problema está dentro dele e a solução também”.

Não está. “É um sofrimento que tem pouco a ver com o indivíduo, a falta de esperança resolve-se culturalmente”, diz o docente da UP. É verdade que “os jovens estão menos esperançados e que não existe uma base para que construam o futuro”, mas a “daí a serem medicados vai um passo grande”.

Na verdade, a precariedade já não é a maior das preocupações dos jovens. “Creio que alguns jovens pensam que aceitariam a precariedade, mas nem isso têm. É só desemprego.” Carlos Gonçalves admite que esse seja não só um factor de desmotivação mas também um “fervilhar de revolta crescente, ainda que pouco visível do ponto de vista social”.

O problema maior? “Não existe a ideia de que se vá sair desta situação, não há expectativas”.