A violência dos muçulmanos é um insulto ao islão?

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Protestos em Benghazi contra a morte do embaixador americanoO Presidente Obama e a secretária de Estado Hillary Clinton, depois de comentarem o assassinato do embaixador Christopher Stevens ESAM OMRAN AL-FETORI/REUTERS

O "pior vídeo do YouTube" incendiou o mundo islâmico. Porquê? Ignorância religiosa e ressentimentos políticos ajudam a explicar, dizem dois muçulmanos e um cristão copta. Por Margarida Santos Lopes

O palestiniano Aziz Abu Sarah ficou "magoado e ofendido" ao ver Innocence of Muslims, mas irritou-se mais com os actos de violência que "um filme medíocre" gerou. O americano de origem iraniana Omid Safi sentiu repulsa por Maomé ser apresentado como "mulherengo, bandido, tarado, pedófilo", mas acredita que, hoje, o seu profeta não se juntaria às multidões encolerizadas que atearam fogos pelo mundo islâmico.

Numa entrevista ao PÚBLICO, por telefone, a partir de Washington, disse Aziz, director executivo do Centro de Religiões Mundiais, Diplomacia e Resolução de Conflitos na Universidade de George Mason: "Nem Maomé nem Deus precisam que os defendam; o deus que os extremistas veneram tem medo. Não é omnipotente nem confiante, o que prova o quanto eles ignoram a sua religião. Olho para a TV, vejo autoproclamados "imãs" [guias espirituais] a protestar - a atacar, a matar - e pergunto-me: porquê? São eles que insultam o profeta e o seu legado. São eles que insultam o islão! Há milhares de pessoas a morrer diariamente na Síria, numa guerra sectária que envolve sunitas e alauitas (esta sim, é uma ofensa a Deus!), mas não se vêem muçulmanos unidos a insurgir-se nas ruas contra estes massacres. Alguém crê seriamente que Deus precisa de se defender de uma porcaria de um filme e que não gostaria mais de ver os fiéis a proteger vidas inocentes?"

Omid Safi, autor da biografia Memories of Muhammad: Why The Prophet Matters Today, respondeu assim a questões que lhe enviámos por Facebook: "Não sou daqueles muçulmanos alheados da realidade que nos mandam "arrefecer os ânimos" ou que deixemos de ser "tão sensíveis". Longe disso. Cada vez que aparece algo de ofensivo, há a tentação de reduzir isso ao "direito à liberdade de expressão", tido como absoluto versus a sensibilidade dos muçulmanos. Este quadro mental não ajuda nada ou, pelo menos, só ajuda parcialmente. Na realidade, coisas como Innocence of Muslims deveriam ser classificadas como "discurso de ódio", porque são do mesmo género dos filmes anti-semitas dos anos 1930 ou de Birth of a Nation, do Ku Klux Klan."

"É falso que só os muçulmanos exprimam a sua sensibilidade religiosa", frisa o professor de Estudos Islâmicos na Universidade da Carolina do Norte (EUA). "Os muçulmanos em sociedades relativamente livres, como a Turquia, ou sob regimes mais opressivos, como o Irão, têm uma tradição rica de cinema, cartoons políticos e sátira. Muitos jornalistas e comediantes pagam o preço por defenderem a liberdade de expressão. São essas pessoas que merecem estar na ribalta e não os que fazem propaganda ao ódio."

Interrompemos aqui os argumentos de Aziz e de Omid para explicar como as chamas se propagaram. "O pior filme do YouTube", segundo a revista The Atlantic, começou por ser atribuído ao "produtor e agente imobiliário Sam Bacile", que se vangloriou à agência Associated Press de ter "angariado cinco milhões de dólares de "100 judeus americanos"", alegada tentativa de "usar o anti-semitismo para se proteger".

A BBC fez uma pesquisa mas não encontrou ninguém na Califórnia que correspondesse à descrição de Bacile. Notícias recentes dão conta de que o "incendiário" de Innocence of Muslims é um extremista copta americano, Nakoula Basseley Nakoula. Esta figura, que inventou para si próprio 13 identidades irreais, já tinha estado detido por fraude financeira. Teria ligações a um "produtor obscuro" chamado Steve Klein, por sua vez membro de uma milícia de extrema-direita, que não gosta de gays, imigrantes, muçulmanos... e mórmones, como o candidato presidencial republicano Mitt Romney.

O produtor terá dito que exibiu o filme "apenas numa sala de cinema, quase vazia", em Hollywood. A distribuição terá ficado a cargo de Terry Jones, o pastor da Florida que, em 2011, exortara à queima de exemplares do Corão. Excertos do filme, legendados