Crise económica alimenta defesa de uma Catalunha independente

A manifestação de terça-feira foi a maior de sempre em defesa da independência da Catalunha
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A manifestação de terça-feira foi a maior de sempre em defesa da independência da Catalunha Albert Gea/Reuters

O jornal El País chamou-lhe "o tsunami de Barcelona". O tsunami foi a manifestação de terça-feira na capital catalã, protesto que para Josep Ramoneda, filósofo, escritor e até ao ano passado director do Centro de Cultura Contemporâneo de Barcelona, fez "o eixo do nacionalismo catalão mover-se na direcção da independência".

A Diada, dia em que se assinala a derrota da região na Guerra da Sucessão, em 1714, e a integração definitiva no Estado espanhol, foi este ano pretexto para uma gigantesca manifestação sob o lema "Catalunha, o novo Estado da Europa". Inédita não foi só a dimensão da multidão - dois milhões de pessoas, segundo os manifestantes; 1,5 milhões, de acordo com a polícia - mas também a sua representatividade. A marcha reuniu membros de quase todos os partidos (com excepção do Partido Popular), incluindo muitos conselheiros regionais (equivalentes a ministros).

Aliás, nunca antes um presidente do Governo regional (a Generalitat) marcara a Diada com um discurso tão independentista: "A Catalunha precisa de um Estado. Durante anos pensámos que podia ser o Estado espanhol", disse Artur Mas. Entretanto, abriu a porta à realização de um referendo e recebeu os promotores do protesto, a organização independentista Assembleia Nacional Catalã.

O líder da Convergência e União (CiU, nacionalistas de direita) não se limitou a manifestar apoio às reivindicações dos organizadores, quis fazer seu o projecto de independência. Artur Mas defende uma "transição nacional" que começa com o novo pacto fiscal, aprovado pelo Parlamento catalão e que o líder da Generalitat vai quinta-feira apresentar a Madrid, num encontro com o primeiro-ministro, Mariano Rajoy.

Em causa está a exigência de autonomia na gestão do dinheiro dos impostos: como todas as regiões, exceptuando o País Basco, a Catalunha cobra os seus impostos, mas entrega-os a Madrid, que depois redistribui o dinheiro pelas regiões. Os líderes catalães defendem que o Estado fica anualmente a dever 16,5 mil milhões de euros à Catalunha. A actual crise exacerbou este discurso, com a região a ter de pedir um resgate a Madrid de 5 milhões em Agosto.

Muitos comentadores e políticos viam na subida de tom de Artur Mas apenas uma tentativa para pressionar Madrid na negociação do pacto fiscal. Mas no encontro com a presidente da Assembleia Nacional Catalã (organização que trabalha na defesa da independência), Carme Forcadell, o líder catalão foi claro nas suas palavras. "Não posso esquecer-me da independência. Não posso misturar uma coisa com a outra. A ninguém pode ser pedido que aborte a esperança de todo um povo", afirmou. Para Forcadell, Artur Mas "portou-se como o presidente de um povo que caminha na direcção da independência".

Crescimento sustentado

O assumir da defesa da independência pelo presidente da Catalunha "será um factor que ajudará a ideia a consolidar-se e a reforçar-se", diz ao PÚBLICO Jordi Muñoz Mendoza, investigador de Ciência Política na Universidade Autónoma de Barcelona e co-autor de um estudo deste ano sobre o apoio à secessão na Catalunha. Mas Artur Mas só pode ter esta posição porque nos últimos anos se assistiu "a um crescimento sustentado do apoio à independência". "Primeiro o independentismo cresceu e normalizou-se, depois os partidos responderam a esta normalização", explica o académico.

O nacionalismo catalão moderno emergiu nos anos 1960 sob a liderança de Jordi Pujol, membro da CiU que depois da morte de Franco e da restauração da autonomia regional se tornou presidente do Governo regional. O cerne da política nacionalista de Pujol foi a defesa da língua catalã, num contexto de aumento do poder da região e de defesa de uma crescente autonomia. Essa era a posição tradicional da CiU. Agora, também Pujol defende a independência. "Não fui eu que mudei. Foi o país", diz.

Para Xavier Vidal-Folch, jornalista e até 2004 director da edição do El País na Catalunha, Artur Mas talvez tenha ido demasiado longe. "Ele está a entusiasmar as pessoas com a ideia da independência. E o mais provável é que a independência não se consiga... Parece-me que tudo isto lhe está a fugir das mãos", afirma, numa conversa telefónica.

A identidade e o nacionalismo catalães sempre existiram. Mas as sondagens mostram que há um aumento dos que defendem a independência como solução, quando até há alguns anos a maioria estava satisfeita com uma autonomia reforçada dentro de Espanha. Este ano, pela primeira vez uma maioria de 51,1% afirmou num inquérito que escolheria a independência num referendo.

Espanha e novas gerações

Jordi Muñoz identifica pelo menos dois factores estruturais por trás deste crescimento. Por um lado, a "insatisfação com Espanha"; por outro, "as mudanças geracionais" - os jovens formados em escolas catalãs que não viveram a transição para a democracia e olham para a autonomia como um ponto de partida e não como fruto de décadas de luta e de concessões negociadas.

A maioria dos investigadores identifica os governos de direita de José María Aznar como momento definidor, em que a "insatisfação com Espanha" ganhou novos contornos. "Vem daí, sim. O Governo Aznar, sobretudo o segundo mandato [2000-2004] foi muito activo na sua mobilização contra as autonomias", diz Vidal-Folch. Seguiu-se, nos anos do Governo socialista de Rodríguez Zapatero, o chumbo de partes do Estatuto de Autonomia aprovado por 90% do Parlamento catalão. O Parlamento nacional chumbou alguns artigos, mas foi o PP a levar o Estatuto ao Tribunal Constitucional, que enfraqueceu ainda mais o documento. Isso foi entendido como um ultraje por muitos catalães, motivou protestos e até referendos simbólicos.

Em Novembro, o PP voltou ao poder: "Este Governo ainda não leva um ano e já demonstrou que não tem vontade em resolver de maneira nenhuma este desencanto dos catalães. Antes pelo contrário, desvalorizam-se as reivindicações das pessoas e a atitude em relação à Catalunha é de hostilidade", defende Vidal-Folch.

Projecto de futuro

O factor conjuntural e determinante para os actuais níveis de apoio à independência é a crise económica que fez crescer o sentimento de injustiça no tratamento que a região recebe de Madrid. "O independentismo conseguiu implantar com êxito a ideia de que o nível de vida dos catalães seria melhor se a Catalunha fosse independente. Num contexto de crise em que só se oferece aos cidadãos "sacrifícios" e "sofrimento", o independentismo oferece um projecto de futuro que foi capaz de gerar expectativas num sector importante da sociedade", descreve Jordi Muñoz.

Vidal-Folch, que não acredita em Estados independentes no contexto da União Europeia, concorda que a independência tem ganho força enquanto "projecto possível". A situação de crise, diz, "leva as pessoas a procurar soluções inéditas, curas instantâneas". A independência é hoje, diz, a "utopia fácil".

Javier Muñoz não tem a certeza se a maioria dos catalões diria "sim" à independência se um referendo - que a Constituição espanhola não permite - se realizasse. Vidal-Folch nota "que neste mundo convulso tudo é possível", mas ainda acredita na tradição: "Os catalães não são suicidas, são negociadores."

Até agora, Madrid continua a desvalorizar as reivindicações e a dimensão do protesto da Diada. Os próximos meses dirão como Artur Mas vai gerir a situação e o entusiasmo pela independência que até agora tem alimentado, e se Madrid vai adoptar uma posição mais conciliadora. Vidal-Folch gostava que o futuro próximo trouxesse "um novo paradigma, em que os políticos aprendessem a colaborar", mas duvida. "O nacionalismo espanhol e o nacionalismo catalão alimentam-se entre si. Quanto mais se enfrentam mais fortes ficam e ao nacionalismo espanhol também serve ser duro para com os catalães, reacender fantasmas e culpar a Catalunha dos problemas."