Obra vai ser leiloada no final do mês

Americana comprou quadro de Renoir numa feira da ladra por cinco euros

“Paisagem na margem do Sena” pode valer 80 mil euros no leilão de 29 de Setembro
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“Paisagem na margem do Sena” pode valer 80 mil euros no leilão de 29 de Setembro Reuters

É mais uma daquelas histórias que ciclicamente parecem humanizar o sofisticado e inacessível mercado mundial da arte: uma mulher americana da Virgínia descobriu agora que entre os bonecos de plásticos que estavam num pacote que comprara por sete dólares (cerca de cinco euros), há cerca de ano e meio, numa feira da ladra no vale de Shenandoah, e que depois guardara nos arrumos da garagem de sua casa, se encontrava uma pintura de... Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) – um nome que, de resto, estava inscrito no caixilho do quadro, mas cuja importância lhe escapou de todo.

Há algum tempo atrás, quando regressou à sua garagem e se preparava para reaproveitar o caixilho do quadro – que, na altura da compra, lhe tinha interessado bem mais do que a pintura –, a americana seguiu o palpite da mãe, que a aconselhou a perguntar a quem soubesse quem seria esse tal Renoir. “Finalmente decidi ouvir a minha mãe”, disse a mulher, que quis manter o anonimato e que nas declarações que entretanto fez à imprensa americana pediu que a identificassem apenas como “a rapariga do Renoir”.

A proprietária do quadro recorreu então à leiloeira local, a Potomack Co., na cidade de Alexandria, onde a especialista em artes plásticas da casa acabou por identificar a pintura como sendo “Paysage bords de Seine” (“Paisagem na margem do Sena”), que o famoso pintor impressionista francês fizera em 1879. “O quadro tem as cores do Renoir, tem a sua luz e o seu traço”, disse Anne Norton Craner, a referida especialista, em declarações à agência Reuters. E explicou que para confirmar a autenticidade da obra recorreu a investigadores do Museu Metropolitano de Arte de Washington e consultou também o catálogo “raisonné” de Renoir organizado pela histórica galeria francesa Bernheim-Jeune.

Como os resultados dessas investigações coincidiram, Anne Craner ficou sem qualquer dúvida quanto à autenticidade da pintura de Renoir. “Este não é um quadro que alguém se disponha a falsificar; se alguém quiser falsificar uma pintura, escolhe algo mais fácil”, disse a especialista à Associated Press. Na sua investigação, Anne Craner conseguiu também reconstituir o rasto de “Paisagem na margem do Sena”. O quadro terá sido oferecido pelo seu autor à sua amiga e modelo Alphonsine Fournaise Papillion, mas depois foi parar à galeria Bernheim-Jeune, que em 1926 a vendeu a um advogado e coleccionador americano, Herbert L. May, que a terá mantido como sua propriedade até à sua morte em 1966. O destino que o quadro teve a seguir, e de que modo foi parar a uma feira da ladra embrulhado num saco de bonecos de plástico, é algo que fica agora por descobrir.

Surpreendida com os desenvolvimentos recentes do seu achado, a “rapariga do Renoir” decidiu entretanto leiloar o quadro. “Tenho demasiado medo [de ficar com ele]”, confessou. Pediu então à Potomac que tratasse do seu leilão, acrescentando que “quem quer que o venha a comprar, vai certamente cuidar dele como ele merece”.

O leilão está já marcado para o dia 29 de Setembro. E a Potomac avançou com uma avaliação entre os 75 mil e os cem mil dólares (60 mil a 80 mil euros, aproximadamente). Mas, com a conhecida volatilidade do mercado da arte, é bem possível que a história particular desta obra de Renoir faça disparar a sua cotação.

Qualquer que seja o montante da venda, ele vai certamente permitir à americana pegar na sua mãe e viajar até França, para verem em Paris o Museu do Louvre e depois depositarem um ramo de flores no túmulo do pintor, na localidade de Essoyes, na região de Champanhe-Ardenas, a leste da capital francesa. “Só quero dizer-lhe ‘Obrigado’”, justificou a “rapariga do Renoir”.

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