Cinema

Kim Ki-duk cantou em Veneza com o seu Leão de Ouro

Cineasta sul-coreano levou o prémio principal, por "Pieta". "The Master" o de melhor realizador e melhor actor. Terá sido este, afinal, o filme preferido do júri?
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Kim Ki-Duk exibe o Leão de Ouro conquistado em Veneza Tiziana Fabi/AFP

Doze anos depois de ter provocado desmaios em Veneza onde "A Ilha" estava a ser exibido — foi assim, em 2000, que Kim Ki-duk mostrou internacionalmente as garras, com sequências em que o adereço eram anzóis —, o sul-coreano cantou neste sábado com o Leão de Ouro da 69.ª edição do festival nas mãos. Desde aquele 2000 que tem sabido fazer jus a uma notoriedade de provocador, com sentido de propósito apurado, e os prémios têm sido vários. Os desmaios de sábado são o encanto de hoje. Pieta, história de contornos “dostoievskianos” sobre um homem que vive da crueldade que inflinge aos outros, é que continua a mostrar que Kim encontrou o seu “nicho” ao fazer de cada filme uma corrida de estafetas da crueldade física e mental.

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Ki-duk cantou — uma canção do filme — depois de uma "gaffe" na cerimónia, a troca entre os prémios Especial do Júri (ao austríaco Ulrich Seidl) e de Realização (ao americano Paul Thomas Anderson). Philip Seymor Hoffman recebeu em nome de Anderson, “um dos grandes cineastas do mundo” — "The Master" é uma tentativa de fazer o "great american film", não interessa que falhe, a ambição é grande. Recebeu também o premio de interpretação para Joaquin Phoenix, também ausente. Disse Hoffman que o guru espiritual que interpreta em "The Master" se limitou a cavalgar a energia “indomável” de Joaquin, um marinheiro que chega da II Guerra submetido às suas pulsões destrutivas.

Com duas distinções ao filme de Anderson, abriu-se a especulação. A revista "Hollywood Reporter" citava no sábado uma fonte que garantia que essa era a primeira escolha do júri, mas como as regras impedem que um Leão de Ouro possa ser acumulado com outro prémio, isso favoreceu Kim Ki-duk. O presidente do júri, Michael Mann, foi questionado na conferência de imprensa. Respondeu que tinha à disposição prémios e regulamentos que são diferentes dos dos Óscares, exemplificou, já que estes podem ser atirados todos a um filme; este palmarés, concluiu, é o que vale, é o resultado das deliberações do júri. Entenda-se como se quiser.

Seidl ficou com Premio do Júri, que distingue o segundo filme da sua trilogia "Paraíso" com que investiga o corpo das suas protagonistas — depois de "Amor" em Cannes, em que se reiterou precipitadamente a imagem de que vampiriza as suas actrizes, com "Fé", em Veneza, talvez se tenha reparado mais na ternura. Apesar de se ter tentado atear o fogo do escândalo por uma cena em que a protagonista leva o seu desejo por Jesus na cruz até ao contacto físico.

Dos filmes distinguidos no palmarés principal o de Seidl é o melhor. Mas se pensarmos em todos os filmes premiados neste sábado, contando com os júris paralelos, então o maior deles é o vencedor da secção Horizontes: "Three Sisters", de Wang Bing, cineasta que não se reconcilia com o facto de haver uma China rural condenada a uma invisibilidade espectral pela China do boom económico. O seu documentário é um épico, pela forma como, e isso acontece desde "West of the Tracks" (1999–2003), filma a história íntima como uma epopeia: gente obrigada a transcender-se, a humanidade a sobreviver no inumano.