Os 100 anos inesperados de um visionário chamado John Cage

Foto
"A minha música favorita é a que ainda não ouvi. Escrevo para ouvir o que ainda não ouvi", dizia John Cage. fotos: dr

Nasceu há 100 anos, morreu há 20, mas os seus sons inesperados continuam a vibrar. Artista, compositor, músico e inventor, John Cage, uma das figuras mais discutidas do século XX, entrou para o panteão das vanguardas ou ainda continuamos a pensar que as suas propostas "não são música"?

Um visionário, alguém que nos fez repensar o que é uma obra de arte e de que forma nos podemos relacionar com ela, mas também um músico e compositor invulgar, que foi capaz de abrir novos horizontes na relação entre música e outras artes. O americano John Cage morreu há 20 anos, na última quarta-feira faria 100 anos, mas o seu legado continua actual.

O espírito inquieto, herdou-o do pai. Nasceu a 5 de Setembro de 1912 em Los Angeles. No mesmo ano, um submarino bateu o recorde do mundo de imersão, mantendo-se debaixo de água com 13 pessoas durante 13 horas. O inventor foi o pai, que queria chegar à lua e que lhe dizia: "Se alguém diz que não pode ser, então isso mostra o que tens de fazer."

Começou a estudar piano na 4.ª classe, com a tia Phoebe, e em 1928 acabou o ensino secundário com as melhores notas da escola. Interessava-se sobretudo por literatura e pintura. Queria ser escritor. Em 1930, depois de decidir não ir para a universidade, partiu para a Europa. Aí conheceu a música de Bach e de Mozart mais profundamente, e tocou peças de Scriabin, Hindemith, Stravinsky - música moderna. Passou três meses em Maiorca, onde compõs pela primeira vez obras com rígidos métodos matemáticos, que não sobreviveram: "Soavam mal", diria mais tarde.

Em 1933 procurou Schoenberg, que se tinha exilado nos EUA, fugindo do nazismo, e com ele experimentou a composição serial. O austríaco critica a sua falta de sentido harmónico, diz-lhe que sem isso terá sempre um muro que não pode atravessar e ele responde que, nesse caso, vai passar a vida a bater com a cabeça na parede. Estava mais interessado nas propriedades do som e nas qualidades do ruído. E Schoenberg acabará por dizer: "Não é um compositor, é um inventor genial."

Em 1934 fica impressionado com os filmes experimentais de Oscar Fischinger e fica a matutar nas ideias do cineasta: o som é a alma dos objectos inanimados, tudo tem o seu próprio som. Um novo mundo abre-se. Começa a interessar-se pela percussão, e ouve a obra Ionisations, de Varèse, que o inspira. Em 1938 inventa o "piano preparado", transformando com bricolage o piano num instrumento de percussão controlado por um único intérprete, introduzindo objectos estranhos dentro dele (borrachas, bolas, molas, pedaços de madeira ou papel). Como escreveu o musicólogo Daniel Charles, a partitura já não indica o efeito a obter, mas o protocolo da sua obtenção (que tecla tocar). O resultado é em grande parte imprevisível.

O encontro com Cunningham

Um dos momentos capitais da sua vida é o encontro com o bailarino e coreógrafo Merce Cunningham. A pedido deste, escreve Credo in Us (já tinha escrito o famoso CREDO, em 1937), iniciando aí uma relação de 40 anos, que será uma das colaborações artísticas mais frutuosas do século XX. Com ele inventa bailados difíceis de catalogar, próximos do happening.

Para a professora e teórica de dança Maria José Fazenda, essa colaboração transformou a dança no século XX: inspirado em Cage, "Cunningham fez a introdução na dança de métodos aleatórios e a criação de estruturas coreográficas indeterminadas, corta com as motivações exteriores, temáticas ou emocionais, e centra toda a atenção no movimento da dança como uma materialidade em constante expansão."

Pela primeira vez, de forma intencional e sistemática, a dança é independente e autónoma, diz Fazenda. "Já não se trata de criar uma dança para uma melodia ou um ritmo, a música e a dança aproximam-se pela duração, e a dança descobre a sua musicalidade própria."

Em 1943 dá um concerto/performance com Cunningham no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e a partir daí a sua obra e personalidade irão tornar-se conhecidas e discutidas nos meios vanguardistas do mundo.

O compositor Miguel Azguime considera que "fez uma revolução conceptual profunda. Há um antes e depois de Cage. O mais importante é a concepção de que tudo o que é sonoro é potencialmente música."

No fim dos anos 1940 e no início dos anos 1950, interessa-se pelo budismo. O centro está em toda a parte, cada som é um mundo, cada coisa um centro que se intersecta com outros centros. Aprende a preferir a aceitação (do som inesperado) do que o controle, que passa a evitar.

O compositor Vítor Rua diz que "quebrou com a auto-estrada da intencionalidade, com a ideia de que a música se conduz por um determinado caminho, e seguiu outra auto-estrada, a da não-intencionalidade."

Nos anos 1950 compõe peças electroacústicas e desenvolve formas de electrónica ao vivo e em 1961 é publicado Silence, o seu primeiro livro. A sua música e atitude são objecto de controvérsia. Boulez ataca os seus procedimentos, que apelida de aleatórios. Outros compositores criticam as tentativas de "desaparecimento" do compositor enquanto autor. Cage defende-se: "Boulez não quer o meu acaso, quer o acaso dele!", referindo-se à descoberta de Boulez da obra de Mallarmé, e à integração do acaso parcialmente em obras do compositor francês.

No fim dos anos 1950 escreve uma das suas obras mais admiradas, o Concerto para Piano e Orquestra (57-58), com importantes novidades ao nível da notação musical, mas com um título surpreendentemente clássico.

Ouvir o que ainda não ouvi

Em Portugal, no início dos anos 60, Jorge Peixinho divulga a sua música e faz happenings como Cage, com algum escândalo. "Isso não é música" é uma frase que se ouve recorrentemente. O americano declara que lhe interessa "baralhar as distinções entre arte e vida, como Duchamp (...). E entre professor e estudante. E entre performer e auditório." E mantém uma procura constante do som "inesperado e instantâneo", palavras-chave de um manifesto dos anos 1960, escrito para o grupo de teatro Living Theatre.

"Na relação com outras artes e no multimedia, fez tudo, abriu tudo", diz Vítor Rua. "Foi dos primeiros a usar gira-discos e rádio como instrumentos musicais, trabalhou com a performance, o vídeo, a dança. Abriu portas, até para o rock e pop". Para este compositor, o mais importante é impedir que ele seja "arrumado como filósofo e pensador, como quem diz: não era músico. Era músico, sim, e um grande compositor, um dos maiores do século XX."

O compositor Miguel Azguime considera que "o principal é a diversificação e implicações das ideias. Do ponto de vista filosófico, fez repensar a obra de arte, como Duchamp, a relação da sociedade com a arte e o egocentrismo do artista."

Vítor Rua diz que "Cage não foi digerido", o que é paradoxal: "Não há pessoa que tenha influenciado mais compositores e músicos, já ninguém pode continuar a dizer que não é nada, e no entanto ainda é arrumado como maluquinho. Ainda há incompreensão, ignorância, desconhecimento, preconceito."

A propósito da série de obras com números, Cage declarava: "Procuro alguma coisa que ainda não descobri. A minha música favorita é a que ainda não ouvi. Não oiço a música que escrevo. Escrevo para ouvir o que ainda não ouvi."

O artista, editor e crítico americano Richard Kostelanetz, que conheceu Cage de perto, refere que "ele é inspirador porque era original. Convidou outras pessoas a ouvir, ver, ler, a fazerem as coisas de outra maneira." Kostelanetz não tem dúvidas de que a ideia essencial de Cage é a anarquia: "Espaço e tempo não-centrados, e sem maestro. Nem líderes, nem seguidores. Era um anarquista pacífico." No contacto pessoal destaca "a generosidade para com os colegas, os jovens, os outros artistas. Era cooperante, livre e aberto."

Na música destaca 6 obras maiores: Sonatas e Interludes, para Piano Preparado (1948); Music of Changes (1951); Williams Mix (1953), HPSCHD (1969), Roaratorio: An Irish Circus on Finnegans Wake (1979), e ainda as suas Europeras (a partir de 1987). Mas não esquece o trabalho visual, destacando plexiglas (plexigramas) que homenageia Duchamp depois da morte deste (Not Wanting to Say Anything About Marcel).

A 11 de Agosto de 1992 John Cage morreu de ataque de coração. Como ele dizia, continuaremos e seremos paisagem para os pequenos bichos, porque "não há fim para a vida". E a música é parte dela.