Quem. O quê

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No passado dia 1, na sua coluna de opinião, sob o título "Quem? O quê?", Vasco Pulido Valente (VPV) desceu a um nível que jamais havia imaginado que fosse capaz, insultando levianamente todos os que têm defendido o Serviço Público de Rádio e de Televisão (SPT), a mim incluído, ao afirmar que o fazem "geralmente, para defender o seu emprego e o seu dinheiro".

Quero lembrar a VPV três factos simples (embora saiba que para ele a realidade tem pouca importância quando não se ajusta às suas convicções):

a) o manifesto "Em defesa do serviço público de rádio e de televisão" conta neste momento com 413 assinaturas de personalidades independentes, das mais variadas áreas profissionais e de vários quadrantes políticos e ideológicos;

b) o debate público sobre o futuro do SPT, reavivado agora pelas recentes declarações de António Borges, fez emergir milhares de opiniões de cidadãos portugueses preocupados com a eventual extinção do SPT que, no espaço público, excedem várias vezes em número o daqueles que se manifestam a favor da sua extinção;

c) os inquéritos de opinião, auscultações, sondagens, etc., que têm sido feitos nos media têm revelado invariavelmente uma esmagadora maioria de portugueses favoráveis à manutenção do SPT.

Convinha, por isso, que VPV explicasse que emprego e que dinheiro está tanta gente a defender quando pugna pela existência de um SPT. Que emprego e que dinheiro estão a defender personalidades como Siza Vieira, Laborinho Lúcio, António Arnaut, Bagão Félix, Marinho Pinto, Carlos Vale Ferraz, Carlos Tê, Daniel Sampaio, Francisco Sarsfield Cabral, Helena Roseta, Hélia Correia, Henrique Cayatte, Irene Flunser Pimentel, Januário Torgal Ferreira, Joana Vasconcelos, João Caraça, Joaquim de Almeida, Júlio Pomar, Mário de Carvalho, Miguel Anacoreta Correia, Miguel Sousa Tavares, Narana Coissoró, Pedro Rebelo de Sousa, Ricardo Sá Fernandes, Sérgio Godinho, para citar apenas alguns dos 413 nomes que já assinaram o manifesto, a maioria dos quais nunca obteve qualquer provento da RTP ao longo da sua vida e cuja carreira profissional (à excepção de períodos de exercício de cargos públicos por via da legitimidade eleitoral) foi sobretudo construída no sector privado, ao contrário de VPV, que, ele sim, pertence há anos aos quadros do Instituto de Ciências Sociais, um serviço público cuja existência, utilidade e importância não me ocorreria questionar.

Quanto aos "iluminados" (uma das expressões mais habituais no seu vocabulário juntamente com o termo recorrente "indígenas" sempre que se refere aos portugueses que sobram para além da sua ilustre pessoa), que ele considera incapazes de esclarecer o que é um SPT, remeto para o admirável artigo de Adelino Gomes, publicado no mesmo dia, também no PÚBLICO, nas "costas" (salvo seja) do seu. E relembro que os ditos "iluminados" têm por companhia, no seio da UE, 26 países e respectivas opiniões públicas onde não se põe em causa a existência de um SPT, enquanto VPV tem por companhia esse farol da cultura europeia chamado Luxemburgo, de onde tantos contributos têm vindo para a civilização ocidental.

Esta tese dos "iluminados", "meia dúzia de extravagantes", que "persiste(m) em discutir o indiscutível" - mas que, afinal, proliferam por toda a Europa e até pelo mundo "civilizado" - trouxe-me à memória a célebre história da mãe que, ao assistir, orgulhosa, à parada militar do filho e ao verificar que ele marchava com o passo trocado em relação ao resto do pelotão, culpou o pelotão pelo desacerto da marcha...

Por fim, aproveito para relembrar aos leitores, e ao próprio VPV, que ele foi director de programas da RTP em 1974, e que viveu uns anos em Inglaterra, onde foi generosamente "educado" pela BBC.

Nessa altura, sabia o que era o Serviço Público de Televisão.

É verdade que o mundo, entretanto, mudou muito. E ele também. Para pior.