Reportagem: Serviço de Voluntariado Europeu em Portugal

“Recebo sempre mais do que dou. É o que consigo reter destes anos todos de voluntariado”

Os voluntários que chegaram em Outubro de 2011
Foto
Os voluntários que chegaram em Outubro de 2011 DR

Todos os anos dezenas de portugueses partem para oportunidades de voluntariado na Europa, através do Serviço de Voluntariado Europeu – programa financiado e coordenado pela comissão europeia -, mas também há quem tome a mesma opção com direcção a Portugal. Estes são os relatos da experiência de três jovens estrangeiras que lhes saiu na “rifa” fazer voluntariado em Portugal.

Em Portugal, “precisam-se voluntários nas juntas de freguesia, na Casa Pia, na União das Misericórdias, nas instituições particulares de segurança social, entre outros locais”, afirmou Nuno Chaves, director da associação ProAtlântico, uma das instituições que faz coordenação de projectos para o Serviço de Voluntariado Europeu (SVE). “Podem ser de carácter ambiental, social ou até logístico”, acrescentou.

Segundo os dados fornecidos pela Agência Nacional para o programa juventude em acção, em 2011, 132 portugueses fizeram SVE no estrangeiro e 144 fizeram o trajecto inverso. Neste momento, existem 110 organizações dispersas por todo o território nacional a trabalhar em parceria com o SVE. No último relatório oficial do programa, no período de 2007 até 2010, realizaram-se 6675 projectos de onde beneficiaram 16.491 jovens. Para isto foi necessário um financiamento da Comissão Europeia de 128.000 euros.

O SVE é um projecto baseado em candidaturas. A ProAtlantico, ou outra organização, encontra a necessidade e o pedido de ajuda. Depois apresenta uma candidatura, que pode, ou não, obter financiamento. “Qualidade, pertinência e apoio de formação, são alguns dos factores de avaliação da candidatura, mas o que é realmente importante é quanto é que um voluntário pode aprender com a experiencia”, descreveu Nuno.

São jovens, iguais a tantos outros, e estão a procura de uma experiência que os ajude a crescer e a criar identidade, enquanto conhecem outro país. Chegaram a Portugal em Outubro, de 2011, e regressam a casa este Verão.

Luana Conti, 23 anos, faz voluntariado na associação Proatlantico

Luana Conti tem 23 anos e nasceu na Aldeia de Asti, na Itália. Em Julho de 2011 acabou a sua licenciatura em Design Gráfico e em Outubro rumou em direcção a Portugal, para fazer um ano de voluntariado no estrangeiro.

“Numa viagem à Suécia conheci dois jovens espanhóis que estavam a fazer voluntariado numa instituição de apoio à infância, pelo SVE. Nessa altura, decidi que quando acabasse a licenciatura ia parar e fazer um ano de voluntariado fora do meu país”, afirmou Luana Conti. “Podia ser em qualquer lado. O importante era ser um projecto da minha área de estudos. Assim podia contribuir mais eficazmente”, acrescentou.

Após quase um ano em Portugal, fala português com leves hesitações, quando não sabe que vocábulo aplicar. Interrogada sobre o país acolhedor responde que “antes não sabia, não conhecia, nunca tinha lido, nada de Portugal.” A hospitalidade não passou despercebida a Luana Conti: “As pessoas são mesmo calorosas. Sentir-me em casa, no estrangeiro, é o melhor que podemos encontrar.”

Luana está a fazer voluntariado como designer gráfica para a associação Proatlantico, aproveitando o seu tempo livre para passear, ir à praia e estar com os amigos que “fez cá.”

Quanto ao “trabalho”, parece ser a parte que ela menos se lembra e descreve. “Estou a praticar o meu curso.” Faz design gráfico de tudo. Ilustração de cartazes até à página online, fazendo parecer as suas tarefas uma simples trivialidade.

No seu caso é Portugal que está a contribuir mais para o seu “crescimento” e “futuro profissional.”

“Esta é uma experiência que me está a ajudar a crescer e a superar os meus limites. Ao mesmo tempo estou a fazer um serviço necessário. Um experiencia com benefícios em duas direcções. Minha e da entidade que me recebe”, sublinhou.

A curiosidade pela etnografia do país acolhedor levou-a também a dar os primeiros passos na literatura portuguesa. “Comecei há pouco a ler o Caìm, do José Saramago. É o meu primeiro livro escrito em Português”, afirmou Luana. “Estou a gostar, mas tenho de ler muito devagar para perceber o Português e a maneira como ele escreve”, acrescentou.

Quanto ao futuro diz que para já quer “regressar a Itália e fazer um mestrado”. Ficar em Portugal, ainda não é uma hipótese, pois ainda lhe “faltam descobrir muitos lugares do mundo.”



Francisca Gonzalez, 28 anos, faz voluntariado na instituição Casa do Parque

Francisca Gonzalez veio da cidade de Múrcia, na Espanha. Tem 28 anos e é Mestre em Psicologia de Intervenção Social.

Acostumada à “rotina do voluntariado” em Espanha, veio para Portugal, dar mais tempo à sua vocação, após “desfortúnios da vida”. Em 2011,” fiquei desempregada e como já tinha vontade de experimentar voluntariado no estrangeiro, achei que era o melhor momento”, afirmou Francisca.

Portugal foi uma escolha certa, neste caso. “Queria vir para Portugal porque era o meu país vizinho, mas nunca tinha cá vindo. Tinha muita curiosidade pela língua portuguesa”, afirmou Francisca. “Gostava imenso do país mesmo sem o conhecer e agora gosto ainda mais. Acho que estou apaixonada”, confessou.

Chegada a Portugal não conhecia ninguém, mas isso não foi problema. ”Não foi nada difícil adaptar-me. É uma cultura diferente da minha, mas não tão diferente que não conseguisse adaptar”, sublinhou.

Francisca faz voluntariado na Casa do Parque – centro de acolhimento para crianças em situação de risco – ajudando os funcionários em qualquer que seja o serviço. “Higiene, alimentação e qualquer outra coisa. Ainda tenho a oportunidade de brincar muito com as crianças. Contudo, nem todas as situações do dia-a-dia são fáceis na Casa do Parque, o que leva com que Francisca tenha de aplicar ”por vezes o que aprendeu enquanto psicóloga.”

Nas suas rotinas dos tempos livres aproveita para se sentar à beira rio “contemplando o Tejo” ou ir aos miradouros e “apreciar Lisboa.”

No meio dos hábitos já entranhados é difícil para Francisca dizer o porquê de fazer voluntariado, mas uma coisa é certa para ela: “Recebo sempre mais do que dou. É o que consigo reter destes anos todos de voluntariado.”

Quanto ao planos para futuro, diz que quer voltar para Espanha, mas se “o trabalho não aparecer” voltará a tentar sair do seu país, de preferência “a ser paga.”


Sophie Wagne tem 20 anos, faz voluntariado no Centro João Paulo II

Se existem casos em que as experiências de voluntariado são determinantes no crescimento e discernimento do futuro dos voluntários, o exemplo da jovem Sophie Wagner, com 19 anos, da vila de Dillinjen, na Alemanha, não passa despercebido.

Após concluir o décimo terceiro ano – o secundário tem quatro anos na Alemanha – foi à gaveta buscar um papel que tinha guardado religiosamente onde falava de oportunidades de voluntariado no estrangeiro pelo SVE.

“No meu décimo ano, fui a um gabinete de orientação escolar e lá encontrei um flyer sobre voluntariado internacional. Desde então esteve guardado na minha gaveta da mesinha de cabeceira, para quando chegasse o momento certo.” O país que lhe calhou na “rifa” foi Portugal.

“Para dizer a verdade, não sabia quase nada de Portugal. Nem da sua geografia, nem da sua cultura, mas foi fácil aprender português porque já sabia um pouco de espanhol e de francês. Porém, todos os dias aprendo novas palavras”, confessou.

Depois de quase um ano em Portugal a fazer voluntariado no Centro João Paulo II, em Fátima, a sua experiencia já a moldou e criou bases para o seu futuro.” Eu não sabia o que queria ser, mas agora já estou decidida. Quando voltar para a Alemanha vou estudar Educação especial e inclusiva. Quero criar espaços na sociedade dita normal para incluir pessoas que possam ter alguma limitação física ou psicológica”, afirmou.

Inspirou-se no “trabalho” que faz diariamente e descobriu que, no futuro, quer aprender na universidade o “saber teórico”. Actividades de expressão corporal, “distrair” os residentes, higiene, são só algumas das coisas que faz.
Pela idade ou pela inexperiência no mundo do trabalho a adaptação a Fátima e ao serviço em alguns momentos não foi facilitada. “No início foi difícil encontrar a posição de voluntaria, no meio do centro. Às vezes parecia existir uma técnica específica para cada posição”, descreveu Sophie.

“Fiz amizade com muitas das funcionárias do centro, mas na comunidade local não encontrei muitos amigos. Cheguei a ir ao rancho folclórico, mas a maioria eram idosos”, acrescentou. Ao fim-de-semana transforma-se em turista. “Lisboa, Óbidos, Castelo Branco, Coimbra e mais que não me consigo lembrar agora. Só ainda não fui ao Alentejo e Algarve, mas já não vou ter tempo nesta estadia.” Sophie irá regressar a casa no final deste mês.

“De certeza que vou voltar, agora estou com a ideia de ir estudar e depois voltar para trabalhar cá. Gostava mas não se sabe. Nada é certo”, sublinhou