Os gibões também são sopranos como alguns de nós

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Matthias Kabel/Zoo de Salzburgo

O estudo da equipa de Takeshi Nishimura, publicado na revista American Journal of Physical Anthropology, foi o primeiro a usar hélio em primatas não humanos. Este gás torna a voz humana mais aguda, ao aumentar a velocidade do som e a frequência de ressonância, tornando aqueles que o inspiram um pouco como os sopranos. Tal como a composição da atmosfera influencia a voz humana, também nos gibões isso acontece.

Este trabalho consistiu na gravação de sons, primeiro numa atmosfera normal e depois numa enriquecida com hélio, de uma fêmea de gibão-de-mãos-brancas do Jardim Zoológico de Fukuchiyama, no Japão.

Em Janeiro de 2007, foram feitas 146 gravações em atmosfera normal e 185 em atmosfera enriquecida, que permitiram verificar que os gibões conseguem, conscientemente, manipular as cordas vocais para produzirem sons. Mais: usam o mesmo mecanismo vocal que os cantores de ópera, para obter sons mais agudos. "Esta descoberta é muito interessante para compreender a biologia dos gibões, a sua semelhança com os humanos e o processo evolutivo da fala humana", diz ao PÚBLICO Nishimura. "A fala humana surgiu com uma raiz que é sobretudo comum aos primatas não humanos - pelo menos aos símios - e deve-se a mudanças nessa raiz comum. É também esse o caso para os gibões cantarem."

Estes novos dados revelam ainda que as habilidades vocais dos humanos, que fazem movimentos rápidos das cordas vocais para produzir sons que lhes permitem ter uma linguagem elaborada, têm uma origem evolutiva complexa. "Pensava-se que a nossa fala estava ligada a modificações específicas na anatomia vocal. Mas mostrámos como é que os sons distintivos dos gibões têm o mesmo mecanismo vocal dos cantores sopranos, revelando semelhanças fundamentais com os humanos", diz ainda Nishimura, num comunicado. "Isto revela que a raiz fisiológica da fala na espécie humana não é única."

Os gibões vivem nas florestas tropicais do Sudoeste da Ásia. Deslocam-se com os braços, quase sempre ao nível médio da copa das árvores. São conhecidos por produzirem vocalizações distintas, apesar de muito diferentes da fala humana, que ecoam pelas florestas e são audíveis a dois quilómetros. Estes sons permitem-lhes comunicar aos outros os seus limites territoriais, manter os membros da família unidos ou sinalizar algum perigo.