Novas dúvidas sobre a política de austeridade

Estará o país condenado a despistar-se da rota que tomou para sair da crise?

O primeiro-ministro, o ministro da Economia ou o ministro das Finanças deviam fazer um esforço para explicar ao país por que razão os brutais esforços feitos para impor o recuo salarial dos portugueses não nos estão a aproximar dos níveis de competitividade da União Europeia - pelo contrário, de acordo com o Banco de Portugal a distância aumentou de cerca de 3% para a ordem dos 10%. Não se lhes pedem explicações de natureza técnica que nos permitam entender expressões como "índice cambial efectivo deflacionado pelos custos unitários do trabalho". Nem se lhes exige que consigam ir além de uma queda acumulada de 5,6% desde 2009 - feito que, no final do ano, corresponderá ao maior recuo dos salários dos portugueses em meio século. O que seria fundamental entender é a razão pela qual Portugal sofreu estes cortes e, ainda assim, perdeu posição face aos custos salariais da UE. Ou, por outras palavras, é determinante esclarecer se todo este esforço colectivo está ou não a valer a pena. Porque o que, directa ou subliminarmente, o Governo e os subscritores das suas teses têm afirmado é que, ao reduzir os salários, o país torna-se mais competitivo - a denominada "desvalorização interna". Foi assim que o Governo e a troika aplicaram essa terapia com uma intensidade rara (com a excepção da Grécia) e, diz o Banco de Portugal, em vão. Porque o grosso dos parceiros europeus, sem congelarem salários nem aplicarem a austeridade, conseguiu muito melhor do que a equipa de Passos. É certo que os últimos cortes de salários e pensões do ano em curso ainda não influenciaram os números. Mas os resultados dos últimos anos são suficientemente preocupantes para que o Governo explique o que se está a passar. Estará em causa apenas uma expressão estatística sem adesão à realidade? Ou estará o país condenado a despistar-se da rota que tomou para sair da crise?

Aborto e aberração verdadeira

Caíram mal, não apenas nos EUA como no mundo, as declarações do republicano Todd Akin sobre a chamada "violação verdadeira" e a solução que ele vê para o problema: o "corpo da mulher tem maneiras de resolver isso". Ou seja: a violação é feita pelo homem, mas, porque este tem mais coisas com que se preocupar, a mulher que resolva. Se isto não é um regresso à idade da pedra, anda lá perto. Foi com este "másculo" argumento que o aborto se impôs como solução clandestina, ao longo de décadas. A lei masculina e a punição feminina, paga com a dor, a prisão, quantas vezes a morte. Ou seja, a tal "maneira" que o corpo da mulher tem para "resolver isso". Mas a verdade é que a proposta que os republicanos vão votar na convenção de Tampa, na Florida, não difere disto. Quer que o aborto seja ilegalizado sem excepção explícita para os casos de violação ou de incesto. Como se vê, Todd Akin não está só, na defesa desta aberração verdadeira.