A vida de Assange no pequeno escritório da embaixada do Equador

A embaixada do Ecuador onde Assange está asilado
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A embaixada do Ecuador onde Assange está asilado AFP

Julian Assange vive há quase dois meses na embaixada do Equador, em Londres. Num pequeno escritório sem janelas, mas com Internet, passadeira de ginástica e uma luz solar, o fundador do Wikileaks diz estar “bastante bem”.

No número 3 de Hans Crescent, uma rua do luxuoso bairro de Knightsbridge, em Londres, fica a embaixada do Equador. Não é fácil dar com o local, já que está “cercado” por polícias, jornalistas e manifestantes. Estão lá por causa de Julian Assange, o fundador do site Wikileaks acusado de violações na Suécia

Depois de nesta quinta-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros do Equador, Ricardo Patiño, ter garantido que lhe concedia asilo político e direitos diplomáticos, o australiano, de 41 anos, continua a viver na embaixada do Equador. Se sair corre o risco sério de ser detido.

A embaixada é composta por dez divisões e ocupa a ala esquerda do rés-do-chão de um edifício de tijolo vermelho, muito próximo dos famosos armazéns Harrods, uma das cadeias mais luxuosas da cidade.

Não possui quartos de dormir, nem quartos de hóspedes. Segundo o jornal canadiano National Post, pessoas que já o visitaram contam que o fundador do Wikileaks vive num pequeno escritório equipado com uma cama, um chuveiro e uma pequena cozinha.

Mas Assange não costuma embarcar em grandes aventuras gastronómicas. Recebe pizzas e outros tipos de comida encomendada nos restaurantes da zona, cujos donos, segundo o jornal espanhol El País, já não acham muita piada ao barulho provocado pelo helicóptero que nos últimos dias sobrevoa a zona.

No seu “quarto”, Assange passa dos dias a ler e aver DVD e é já madrugada quando pára de trabalhar e desliga o computador, uma vez que tem acesso à Internet e ao telefone, diz o jornal britânico London Evening Standard.

O exercício físico também não é descurado. Segundo o National Post, Assange pode utilizar uma passadeira para correr e ainda sentar-se perto de uma lâmpada solar que compensa a falta de luz natural, dado que o espaço não tem janelas.

“Não é propriamente o [hotel] Hilton”, disse ao mesmo jornal Gavin MacFadyen, um apoiante que conheceu Assange na embaixada. Mas se no rés-do-chão do edifício de Knightsbridge há falta de espaço, nos pisos superiores isso não acontece. Segundo o jornal El País, os outros andares do edifício correspondem a apartamentos particulares que pertencem, entre outros, a membros da família real da Arábia Saudita e ao ex-primeiro ministro da Líbia, Mustafa Bem-Halim.

Antes de vir para a embaixada do Equador, o fundador do Wikileaks viveu mais de um ano com um amigo, Vaughan Smith, numa casa rústica em Ellingham Hall, em Norfolk, na costa leste do Reino Unido. A propriedade tem 240 hectares (equivalente a quase 329 campos de futebol). A diferença de espaço é evidente, mas, segundo Smith, Assange está a reagir bem e prefere concentrar-se no seu trabalho.

“Ele vive num quarto pequeno que dificilmente pode ser descrito como confortável, [mas] está feliz atrás de um computador a fazer o seu trabalho”, disse Smith, que o visitou nesta quarta-feira, ao London Evening Standard. “Ele é o mesmo Julian que era quando vivia comigo. Não é uma pessoa sentimental e por isso não sente falta das mesmas coisas que as outras pessoas sentem”, acrescentou.

Segundo fontes diplomáticas, citadas pelo Guardian, Assange afirma estar “bastante bem”. Ainda assim, a sua mãe, Christine Assange, teme que o filho possa estar a sofrer de um stress extremo devido aos 18 meses de clausura, durante os quais enfrentou pesadas batalhas legais entre os governos do Reino Unido e do Equador.

“Ele está sob um stress imenso há quase dois anos em condições semelhantes a uma detenção”, disse Christine Assange ao National Post. Acrescentou que alguns amigos que o visitaram ligaram a música e incentivaram-no a dançar.

Segundo os especialistas, a impossibilidade de Assange controlar a situação pode ter consequências psicológicas. “Ele está preso numa terra de ninguém”, disse ao mesmo jornal um professor de psicologia na Universidade de Lancaster, no Reino Unido, Cary Cooper. “Uma das maiores causas de stress é as pessoas não terem qualquer controlo [da situação]. Ele não tem nenhum. O controlo está nas mãos de outras pessoas – o governo do Reino Unido e do Equador. Não nas dele”, acrescentou.

Pode não ter controlo, mas tem apoio. Do lado de fora do edifício, guardado por mais de uma centena de polícias municipais, estão muitos manifestantes acampados na rua. Segundo o Digital Journal, cantam a versão espanhola do “Povo unido jamais será vencido” e planeiam espectáculos de solidariedade para com Assange.

Por um lado, festejam a notícia da garantia de asilo pelo Equador, e por outro revoltam-se contra a forma como o governo britânico tem conduzido a situação, ameaçando entrar na embaixada e resgatar o fundador da Wikileaks.

“Estou aqui para apoiar o Julian Assange e a Wikileaks”, disse ao Guardian Tristan Woodwards, um dos apoiantes. “Isto é completamente errado. As pessoas falam das alegações [de violação], mas [a reacção do governo britânico] parece exagerada para alguém que alegadamente cometeu um crime”, acrescentou.

Kristinn Hrafnsson, uma colega do Wikileaks, afirmou ao London Evening Standard que Assange está “animado e positivo, apesar de ainda haver muitos assuntos para resolver”.