O medo fica tatuado para sempre na mãe de um ex-toxicodependente

Maria, 66 anos: "Podemos ler os livros todos, mas quando nos cai o problema em cima não sabemos nada"
Manuel Roberto
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Maria, 66 anos: "Podemos ler os livros todos, mas quando nos cai o problema em cima não sabemos nada" Manuel Roberto

Mãe de ex-toxicodependente Durante anos, Maria perdeu a tranquilidade no sono e ficou doente. Nas sessões da Associação de Famílias Anónimas, encontrou reconforto e aprendeu o significado do "amor firme"

Um simples clique no interruptor da luz era suficiente para despertá-la. Foi assim durante anos. E hoje, aos 66 anos, Maria ainda não recuperou a tranquilidade do sono de outros tempos. São as mazelas de anos de atenção redobrada às movimentações do filho mais novo, hoje com 33 anos, que se tornou toxicodependente ainda no 8.º ano de escolaridade. Primeiro foi o haxixe, depois veio a heroína e mais tarde, na única recaída, a cocaína. Está livre de drogas há meia dúzia de anos, mas Maria rejeita usar a palavra cura. "Está em recuperação", faz questão de corrigir.

Os indícios começaram a aparecer: as notas baixavam, as faltas às aulas eram constantes e a distância da família acentuava-se. Mas Maria não associava isso às drogas. Seria a adolescência. Seria uma fase. Até que as evidências tornaram impossível não enfrentar a realidade. Após o reconhecimento do problema, veio a incompreensão. "Por que é que isto me aconteceu?", martelava Maria na sua cabeça. Depois somou-se-lhe a culpa. "Em que falhei?", questionava-se repetidamente. Era professora e participara em várias acções de formação sobre o problema das drogas. Até chegou a tirar um curso para lidar com jovens em risco. Sentia-se esclarecida e capaz de esclarecer. "Podemos ler os livros todos, mas quando nos cai o problema em cima não sabemos nada", diz.

A relação com os dois filhos, uma rapariga e um rapaz, era boa. "Éramos uma família aberta e sempre dialogámos. Falávamos de tudo", explica. Maria tinha-se divorciado ainda os filhos eram miúdos, mas a separação correra de forma pacífica. Isso não evitava que o filho se queixasse da falta de empenho e do distanciamento do pai. Anos após a separação, Maria decidiu mudar-se para o Porto. A filha foi consigo. Mas o mais novo, João (nome fictício), preferiu ficar em Braga, onde viveram até aí. Não queria deixar os amigos nem a escola. Ficou um ano em casa do pai, mas este pô-lo na rua quando um dia descobriu que João lhe roubara dinheiro para comprar droga. Maria resgatou-o. Trouxe-o para o Porto.

Nada parecia resultar

Aí já estava identificada a dependência do haxixe. Mas isso não facilitou a recuperação - nem impediu o salto para a heroína. João passeava-se pelos Centros de Atendimento a Toxicodependentes. Frequentava psiquiatras e psicólogos, mas nada parecia resultar. Continuava a roubar em casa e obrigara a mãe a viver sem cartões bancários, cujo código, por artes mágicas, conseguia sempre obter.

Ludibriava a família simulando que fazia o tratamento de substituição. Levava aos médicos urina de colegas para provar que estava limpo. "Tomava o fármaco à minha frente, mas um dia descobri que era água. Ele tirava com uma seringa o conteúdo do frasco e colocava lá água", relata a mãe.

A dependência aguçava-lhe a arte do engano. Às vezes, o desespero dava azo ao caricato. "Um dia saí para fazer umas compras e fechei-o em casa, um segundo andar. Ele atou vários lençóis e desceu pela janela", descreve Maria. E continua: "A filha do vizinho do rés-do-chão assustou-se ao ver umas pernas no vidro e pensou que era um assaltante. Chamou o pai, que foi buscar uma arma. Por sorte, antes de atirar, o vizinho reconheceu-o".

Maria admite que era demasiado tolerante. Tinha dificuldade em exercer o "amor firme", um conceito que aprofundou nas sessões da Associação Portuguesa de Famílias Anónimas. "Manifestar afectividade, mas impondo regras", resume.

A filha acabou por ser determinante para a primeira recuperação do irmão. "Um dia cheguei a casa e ela estava a dizer-lhe: se me roubas mais alguma coisa, sais de casa ou saio eu", conta Maria, com os olhos humedecidos. Percebeu que tinha de agir. Fez-lhe um repto: "Vais reabilitar-te ou ponho-te fora". Ele aceitou entrar num centro de tratamento.

Mas antes deixou um episódio tatuado na memória da mãe. Faltavam dois dias para entrar na comunidade terapêutica. Um primo fazia anos e Maria autorizou a saída. Mas João acabou a noite em coma alcoólico e a fugir do hospital. Chegou a casa às 6h da manhã manco, com as meias rotas e os sapatos nas mãos. Parecia desfeito. Mas, após uma hora no sofá, já queria sair. Foi a única vez que Maria recorreu à violência. "Fui buscar o rolo da massa e disse-lhe que se ele não ficasse em casa lhe dava cabo da outra perna. Ele acabou por acalmar."

Vidas reconstruídas

Entretanto, Maria também tinha ficado doente. A angústia e o medo enchiam-lhe os dias. Recorreu a ajuda psiquiátrica, mas os remédios não resolviam tudo. E foi o médico que lhe recomendou as sessões das famílias anónimas. Há 14 anos que frequenta uma reunião semanal de hora e meia. E sente-se reconfortada e feliz por poder ajudar outros.

Três anos em recuperação e João regressou a casa. Esteve a fazer um intercâmbio no Brasil e acabou o curso de Relações Internacionais. Começou a trabalhar, mas antes de chegar aos 30 recaiu. Desta vez, na cocaína. Só o corte de relações da mãe, da irmã e da namorada o forçaram a pedir ajuda.

Uns meses num centro e recuperou. Há anos que não consome drogas nem álcool. Nos últimos meses, deixou o tabaco. Está prestes a ser pai. Reconstruiu a vida. Mas há mazelas que ficam. Maria já tem duas netas e mantém-se muito atenta a elas. O tempo desvaneceu muitos episódios, mas o medo continua à espreita.

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