Grécia vai pedir mais dois anos para cumprir o programa da troika

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Foto: Andreas Solaro/ AFP Photo (arquivo)

A intenção do Governo grego de pedir um alargamento de dois anos para cumprir o Memorando de Entendimento – que, tal como Portugal, o seu país subscreveu com a Comissão Europeia, o BCE e o FMI – já tinha sido noticiada, sem que fossem conhecidos os termos da proposta. Hoje, o Financial Times (FT) faz manchete com o assunto, depois de ter tido acesso a um documento sobre o plano de extensão de prazos.Atenas tem a braços a difícil tarefa de cortar 11,5 mil milhões de euros (o equivalente a cerca de 5% do PIB grego) na despesa pública em 2013 e 2014, conforme lhe é exigido nos termos do actual plano de resgate, o segundo a que se submeteu para não cessar pagamentos e poder permanecer no euro, no meio de forte contestação social e de um terramoto eleitoral nas últimas legislativas. Depois de ter sido conhecida a notícia do FT, o Governo alemão já veio dizer que a Grécia terá de cumprir o programa de austeridade acordado com a
troika para continuar a receber as parcelas do empréstimo.

O novo prazo que o primeiro-ministro de centro-direita, Antonis Samaras, vai pedir pressupõe que o actual plano termine em 2016, em vez de 2014, com o ajustamento anual de défice público de 1,5% do PIB. De acordo como o mesmo documento, isso significaria que a Grécia necessitaria de um financiamento adicional de 20 mil milhões de euros, que o actual Governo de coligação se propõe obter sem recorrer aos seus parceiros da zona euro – utilizando um empréstimo já existente do FMI, emitindo bilhetes do tesouro e com um adiamento do início do pagamento do seu primeiro empréstimo da troika de 2016 para 2020, relata também o Financial Times.

O pedido grego deverá ser apresentado na próxima semana durante os encontros de Samaras com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e com o Presidente da França, François Hollande, previsto para o dia 24. Antes deverá encontrar-se em Atenas com o presidente do Eurogrupo, o luxemburguês Jean-Claude Juncker.

O jornal grego Kathimerini adiantou terça-feira que Samaras poderá conseguir fornecer a Merkel e Hollande os detalhes também dos cortes de despesa que pretende realizar, depois de os líderes dos outros partidos da coligação (Evangelos Venizelos, do Pasok, e Fotis Kouvelis, da Esquerda Democrática) os terem aprovado.

Os encontros da próxima semana serão os primeiros com os líderes europeus desde que Samaras é primeiro-ministro, devido a se ter submetido a uma cirurgia ocular que o impediu de viajar desde Junho, e as datas ainda não estão confirmadas.

Nas últimas semanas, vários líderes alemães têm dados sinais de impaciência para com a situação da Grécia, o que culminou com o vice-presidente da coligação do governo alemão, Michael Fuchs, a sugerir na segunda-feira que a Grécia deve sair da zona euro voluntariamente, caso falhe na adopção das reformas exigidas pelos credores internacionais.

E hoje, numa aparente reacção à notícia do Financial Times, um porta-voz de Angela Merkel veio reafirmar que a Grécia deve cumprir o programa de austeridade acordado e que o Governo alemão mantém inalterada a sua posição sobre as reformas que a Grécia tem de fazer. “Claro que a chanceler irá ouvir o que Samaras tem para dizer sobre a situação na Grécia e sobre a aplicação do programa”, disse o referido porta-voz, Steffen Seibert, citado pela Lusa. E sublinhou que, até final de Setembro a
troika apresentará um relatório sobre os progressos gregos.

Os juros implícitos às transacções das obrigações da Grécia a dez anos (prazo de referência nos mercados) estavam a subir ligeiramente pouco depois das 15h, para mais de 24,5%, segundo dados da Reuters. Em Itália, Espanha e Portugal a tendência era de queda ligeira, tal como vem acontecendo há alguns dias.

Espanha hesita?

A dramática situação grega irrompe assim novamente na crise existencial do euro, depois de várias semanas em que a Espanha esteve no epicentro do furacão, com juros em alta e o Governo de Madrid a acusar o Banco Central Europeu (BCE) de se portar como um banco clandestino por não actuar nos mercados de dívida.O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, anunciou esta terça que se encontrará com Angela Merkel a 6 de Setembro, e disse que não tomará nenhuma decisão até que o BCE defina os moldes em que poderá intervir nos mercados de dívida soberana dos países que peçam empréstimos aos fundos europeus de resgate e se acordem programas de austeridade.

Depois de ter rejeitado categoricamente a possibilidade de um pedido de resgate ao Estado (depois de já ter pedido uma linha de crédito para os seus bancos cujo valor pode ascender aos 100 mil milhões), o Governo espanhol parece agora hesitar. Também ontem, o Comissário Europeu da Economia e Finanças, o finlandês Olli Rehn, disse que o Governo espanhol está “de espírito aberto” quanto à possibilidade de pedir uma nova linha de crédito à UE.