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Megafone

Quarto de hotel: Rua Paissandu, 23, Flamengo, Rio de Janeiro

Uma das maneiras de enganar a morte é cantar. A outra é dançar. Os brasileiros melhor do que ninguém entenderam isso e praticam a morte da morte. Nas ruas, nos bares, no trabalho

Deitado numa cama, no 1º andar de um Hotel na Rua Paissandu, bairro do Flamengo, Rio de Janeiro, tento fazer como Borges e sonhar o outro que me sonha. Mas não consigo… Distrai-me a sensualidade difusa de um dissonante coro de vozes sobrepostas, coalhadas pela luz tardia; uma algaraviada de brados vindos de baixo, dos empregados e empregadas que, no piso térreo, se entregam com estranha alegria às suas tarefas de todos os dias. 

Risos sobem e descem. Enrolam-se em espirais de cornucópia, chegando-me frescos, como água limpa no rosto. Adivinho mãos fatigadas e envelhecidas, mas as vozes são juvenis e aéreas, como vogais abertas numa canção antiga. Não entendo muitas das palavras, há uma mistura de vento, sabão e sol, algo que apela mais ao sentir do que ao pensar, ou ao pensar sentindo.

Um dia todos os rostos perdem os seus contornos e desaparecem na noite de nunca mais. Como lidamos com eles todos os dias, não nos apercebemos desse lento esbatimento, mas se comparássemos fotografias com dez anos de distância, perceberíamos como a morte se mistura com a vida.

Uma das maneiras de enganar a morte é cantar. A outra é dançar. Os brasileiros melhor do que ninguém entenderam isso e praticam a morte da morte. Nas ruas, nos bares, no trabalho.

Se o Rio de Janeiro fosse música, seria a dessas vozes dissonantes, difusas e leves, que não me deixam dormir nem sonhar o outro que me sonha (o que, diga-se, bem pode esperar!).

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