João Dixo, morreu o pintor da poesia

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O pintor retratado por Ângelo de Sousa, em Maio de 1970 DR

O artista foi membro do Grupo Puzzle, que marcou o final dos anos 1970

Morreu ontem o pintor João Dixo. Tinha 71 anos, e uma carreira diversificada e de múltiplos interesses. Foi membro do Grupo Puzzle, um colectivo artístico nascido na sequência do 25 de Abril de 1974. Mas foi também um professor de méritos reconhecidos, e um artista sempre preocupado com a actualidade.

De Vila Real, onde nascera em 1941, Dixo mudou-se para o Porto, para realizar estudos de pintura na Escola de Belas Artes (ESBAP). Licenciou-se com 20 valores, uma nota que recordava a de outros alunos alguns anos mais velhos - Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues -, que tinham formado os "Quatro Vintes" (1968). Depois de ter finalizado Pintura, também em 68, Dixo obteve uma bolsa de estudo e investigação em Paris (1975-77). Aqui, integrou as exposições do grupo La Jeune Peinture, com o qual colaborou até à década de 1980, e estudou principalmente antropologia e arqueologia, dois temas que sempre o interessaram. Por esta altura, a obra de Dixo encontrou o estilo que a haveria de caracterizar: uma figuração expressiva, em consonância com uma prática que se definia no princípio da década no mundo ocidental. O pintor, que também realizou instalações e performances, não descurava, contudo, um entendimento pessoal e poético da sua obra, que a individualizava no meio artístico, frequentemente traduzida em espaços fragmentados por múltiplas imagens.

O currículo de Dixo conta com participações em mais de duas centenas de exposições individuais e colectivas, e a sua pintura está representada nas principais colecções de arte contemporânea portuguesas.

O Grupo Puzzle (1975-80), integrando também Albuquerque Mendes, Armando Azevedo, Carlos Carreiro, Dario Alves, Graça Morais, Jaime Silva, Pedro Rocha e Pinto Coelho, ficou marcado pela interferência da vida pessoal e colectiva na efervescência criativa dos anos 1970. Uma grande pintura feita por todos, representando a bandeira nacional, esteve presente na exposição antológica que o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian dedicou, no ano passado, em Lisboa, à arte daquela década.

Em 1973, Dixo tornou-se docente da ESBAP, tendo também sido fundador do grupo de Desenho do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra e, mais tarde, responsável pela licenciatura em Pintura. Leccionou no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (1966-75). Foi também fundador, no final da década de 1970, da Bienal de Vila Nova de Cerveira.

O funeral realiza-se hoje, às 10h, na Igreja dos Olivais, em Coimbra, seguido de cremação. As cinzas seguem depois para Vila Real.