Assassino de sikhs nos EUA era ex-militar que acreditava na supremacia branca

Os sikhs queixam-se de discriminação e violência desde o 11 de Setembro
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Os sikhs queixam-se de discriminação e violência desde o 11 de Setembro John Gress/Reuters
Wade Michael Page numa foto divulgada pelo FBI
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Wade Michael Page numa foto divulgada pelo FBI DR

Ex-militar, especialista em guerra psicológica, Wade Michael Page, 40 anos, que no domingo matou a tiro seis pessoas, num templo sikh, em Oak Creek, estado norte-americano de Wisconsin, antes de ser abatido pela polícia, era, na descrição da imprensa norte-americana, um adepto das teorias da supremacia branca.

O ataque, nos arredores de Milwaukee, ocorreu quando estava a ser preparado o encontro dominical da comunidade sikh, 350 a 400 pessoas. Page matou cinco homens e uma mulher com idades entre os 39 e os 84 anos. Feriu também com gravidade outras três pessoas, uma das quais um polícia que atingiu oito ou nove vezes. As autoridades, que têm classificado o ataque como “terrorismo interno”, estavam ontem à procura das motivações do autor.

“Fizemos alguma coisa de errado?”, questionou-se Jagpal Singh, um membro da comunidade, citado pelo jornal Chicago Tribune. O caso ocorre duas semanas depois de, no Colorado, um jovem de 24 anos ter morto a tiro doze pessoas e ferido 58, na estreia do último filme Batman.

Os sikhs, calculados em 2500 a 3000 famílias no Wisconsin, queixam-se de discriminação e violência, desde o 11 de Setembro. Muitas vezes confundidos com os muçulmanos, devido ao uso de turbante e barba, o seu culto monoteísta junta elementos do islão e o do hinduísmo. “Tem havido nos últimos anos muitos ataques motivados por ódio contra a comunidade sikh e infelizmente somos levados a pensar que se trata da mesma coisa”, disse Sapreet Kaur, director de uma associação de grupos sikhs, num comunicado divulgado pela AFP. Mais de meio milhão nos EUA, onde, segundo a Sikh Coaliation, de Washington, foram vítimas de sete centenas de ataques desde 2001, os sikhs são a quinta religião no mundo com cerca de 30 milhões de seguidores.

O FBI confirmou que Page tinha o cadastro limpo apesar de alguns vezes ter sido interpelado pelas autoridades. Heidi Beirich, do Southern Poverty Law Center, com sede em Montgomery, Alabama, disse, citada pela Reuters, que o assassino foi, em 2010, membro do grupo racista skinhead End Apathy, com sede em Fayetteville, Carolina do Norte. Há registo de que, em 2000, tentou comprar equipamento à National Alliance, um grupo neonazi, acrescentou. A imprensa ouviu testemunhas segundo as quais o ex-militar, branco, alto, careca, tinha uma tatuagem alusiva ao 11 de Setembro.

Page, que usou uma pistola semiautomática de 9 mm legalizada, deixou o Exército em 1998, por “má conduta”, ao cabo de seis anos de serviço, informou ontem o Pentágono. Por estar bêbedo em serviço foi despromovido e impedido de continuar nas forças armadas. A sua última colocação foi em Fort Bragg, na Carolina do Norte. Para além da acção psicológica, trabalhou também na reparação de sistemas de mísseis Hawk. Nunca esteve em serviço fora do país e chegou a ser distinguido pelo desempenho militar.

A polícia fez buscas no apartamento em que o Page residia, em Cudahy, perto de Milwaukee. “Estou verdadeiramente surpreendido. Era um tipo fixe”, disse um vizinho, John Hoyt, à AFP. “As únicas coisas negativas que lhe ouvi dizer foram sobre a guerra, a namorada e o Presidente Bush — Bush Júnior, que começou a guerra.”

Ray Zirkle, que fez com a mulher os 20 quilómetros de Racine a Oak Creek, para acender velas no local do ataque, tem uma interrogação que não será apenas sua. “Estas pessoas iam à igreja. Há duas semanas eram pessoas que iam ver um filme. Quando é que isto acaba?”, disse à Reuters.

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