Mafra

Surfistas protestam contra fecho do "surf camp" de Ribeira d’Ilhas

Câmara pretende instalar novos equipamentos no local
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Câmara pretende instalar novos equipamentos no local Foto: Pedro Cunha

Dezenas de surfistas concentraram-se na manhã deste sábado junto à praia de Ribeira d’Ilhas, na Ericeira, para protestar contra o encerramento compulsivo e o processo de expropriação de um surf camp desencadeado pela Câmara de Mafra.

Vários surfistas empunhavam cartazes comparando o autarca de Mafra, Ministro dos Santos, ao Incrível Hulk (“destruir, destruir, destruir”). Noutro cartaz, lia-se “fiquem nos vossos gabinetes, não nos estraguem a praia”.

“Isto é uma invasão de propriedade privada. Penso que não estamos num estado comunista - a câmara decretou utilidade pública para montar um centro de negócios pior do que o que cá está”, disse José Maria Pyrrait, treinador de surf, citado pela Lusa.

Na segunda-feira, a Câmara de Mafra encerrou o surf camp, uma espécie de parque de campismo para surfistas com uma escola para aprender a modalidade, e tomou posse administrativa do terreno. Os proprietários do campo foram obrigados a desmontar o espaço e a desalojar os campistas, escoltados pela polícia.

Luís Duarte, um dos proprietários do equipamento que inclui uma escola de surf, só encontra uma justificação para a atitude da autarquia: dinheiro. "É só o dinheiro que lhes interessa, não conseguem ver que o surf camp é o nosso investimento", diz o empresário ao PÚBLICO, salientando que os aspectos positivos do espaço não foram considerados pela câmara.

O objectivo do município é fazer as obras previstas no Plano de Ordenamento da Orla Costeira, cuja primeira fase arrancou em Novembro, com a estabilização da arriba e a construção de uma passagem de madeira. A área a intervencionar junto à praia abrange 15 hectares, incluindo o espaço onde se encontra o surf camp, com cerca de um hectare. Segundo Joana Abreu, do gabinete de comunicação da autarquia, houve uma tentativa para chegar a acordo com os proprietários do campo, mas não houve consenso.

Em Fevereiro de 2011 foi aprovado por unanimidade, na assembleia municipal, um plano de pormenor para o local que já tinha sido submetido a discussão pública. Durante esse período não se registaram reclamações, observações ou sugestões, diz Joana Abreu. O plano obteve pareceres favoráveis e as várias entidades envolvidas, como a Administração da Região Hidrográfica do Tejo, mostraram-se dispostas a colaborar no plano de requalificação da praia. "Nesse sentido, o acto de posse administrativa representa apenas o corolário de um processo de expropriação, efectuado com os devidos avisos prévios", justificou a porta-voz da câmara, acrescentando que a autarquia não pode submeter o interesse público da requalificação da praia a interesses privados.

Para muitos surfistas, o encerramento do surf camp é um acto "injusto" e de "má-fé" do município. "A câmara não agiu com a decência que um organismo público deve ter", diz Luís Ferreira, surfista há cinco anos. No entanto, Pedro Rua, um outro praticante, diz que o encerramento do campo não vai prejudicar quem faz surf porque "a praia continua no mesmo sítio". Mas tal como Alexandra, também surfista, Pedro Rua receia que o projecto da câmara descaracterize a praia de Ribeira d"Ilhas e o ambiente que lá se vivia. Outro receio é o de que as obras contribuam para que a Ericeira perca o título de Reserva Mundial de Surf, a única reconhecida em Portugal.

O protesto contra o processo polémico chegou ontem à noite ao Festival Sudoeste, que decorre na Zambujeira do Mar, pela voz de Eddie Vedder, também ele um adepto do surf.