Crítica

O Cavaleiro das Trevas Renasce

Nolan realizou um filme, Memento, em que um homem vê afectada a sua memória recente e utiliza o corpo como bloco de notas para a investigação a que se atira. Os Batman de Christopher Nolan - Batman - O Início, 2005; O Cavaleiro das Trevas, 2008; O Cavaleiro das Trevas Renasce, 2012 - parecem existir de forma oportunista pela ausência de memória. As personagens aparecem sem saber de onde, quando partem não deixam saudades, sem relação de pertença a um cenário. Não que seja essa a narrativa desses filmes; não são filmes sobre personagens em busca de um cenário, são colagens sem espessura, sem tempo e sem espaço - sem uma história e emoções próprias no interior das imagens. É verdade que o londrino se atirou à empresa com o propósito de começar do zero, como se quisesse anular anteriores figurações, especialmente o Batman (1989) e o Batman Regressa (1992) de Tim Burton. Mas então é um gigantesco acto falhado. Porque se mede com alguém que decidiu tudo na relação visceral das personagens com um cenário (é por isso também que Batman Returns é uma obra-prima) e não tem nada a contrapor. A não ser o gigantismo. Qual é o “estilo” Nolan? É não ter estilo. É Christian Bale afectar mal de vivre e Anne Hathaway parecer estar em Os Anjos de Charlie. É Tom Hardy ser uma aflitiva incógnita como vilão. É o realizador ser um maquinista a calcorrear o espaço (“cineasta de acção” ele não é; isso é John MacTiernan, é James Cameron - em outros tempos - ou Kathryn Bigelow) e jogar tudo na acumulação, que é o que se faz quando não se sabe fazer outra coisa. É estender a duração do filme para ganhar pose metafísica - pretensão e resultado infantis. É as cenas comporem um trailer de algo a que não se chegou.