O primeiro ouro dos Jogos de Londres

Pela primeira vez, há mulheres nas delegações de todos os países participantes. É uma vitória

Aprimeira mulher a ganhar uma medalha olímpica, a tenista britânica Charlotte Cooper, campeã em Paris, em 1900, jogava com uma saia até aos pés e posava de gravata e raqueta em punho. Era a primeira vez que as mulheres participavam nos Jogos Olímpicos, depois de terem sido excluídas dos jogos de Atenas. 112 anos depois da vitória de Charlotte Cooper, pela primeira vez todos os 205 países que participam nos Jogos têm pelo menos uma mulher nas respectivas delegações e os EUA têm mesmo mais mulheres do que homens. Até os sauditas ou o Qatar deixaram o tabu para trás. É a primeira medalha dos Jogos Olímpicos de Londres e provavelmente o sinal político mais poderoso que enviam.

Os Jogos Olímpicos são a mais universal de todas as manifestações desportivas e reflectem valores que transcendem o desporto. Se nos Jogos de Pequim, em 2008, a afirmação global da China era a questão política mais importante, Londres não precisa de se pôr em bicos dos pés para existir no palco global. Organiza os Jogos para reforçar a sua imagem de centro cosmopolita financeiro, cultural e turístico. A organização reflecte o gosto do dia pela sustentabilidade e pelo politicamente correcto - os animais que vão participar na cerimónia de abertura foram poupados ao matadouro, por exemplo. E, como manda o gosto do dia, sofre com a hipersensibilidade mediática às gaffes, como a troca das bandeiras das duas Coreias ou o tweet de uma atleta grega que foi considerado racista. O sucesso final dos Jogos passará por muito mais do que isto. Na primeira linha estarão a segurança e a dura relação entre o evento e uma cidade de mais de dez milhões de habitantes que nunca dorme. Até lá, já ficam na história como os Jogos com a maior presença feminina de sempre. Algo que enriquece a universalidade do espírito olímpico, por muito estranho que isso parecesse ao barão de Coubertin.

O apelo das armas e o bom senso

Não é preciso ser Michael Moore (que fez um filme provocador sobre a paranóia americana pelas armas, após a matança de Columbine) para ficar espantado com o facto de, nos dias seguintes ao massacre num cinema de Denver, ter aumentado para o dobro o número de pessoas candidatas à compra de armas no Colorado. A segunda emenda da Constituição dos EUA reconhece a posse e o porte de armas como direitos do povo americano (embora relacione textualmente esse direito com a necessidade de uma well regulated militia, o que não se coaduna com os dias de hoje), mas aqueles que correm a armar-se portam-se como se esse direito fosse um dever. Compram-nas antes que alguém se lembre de impor a sua restrição, coisa que nenhum político arrisca. Nem mesmo Obama, que, embora apele ao "bom senso" no seu controlo, as reconhece como "herança nacional". O tema é eleitoralmente perigoso. Mas socialmente é letal, como se vê em Denver.