Mari Boine: porta aberta para o mistério

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Vem do povo Sami, colonizado há muito pelos noruegueses. Essa fractura identitária resultou numa vontade e numa voz indomáveis. Actua hoje no palco principal do Festival de Músicas do Mundo de Sines.

Quem consultar o bilhete de identidade Mari Boine ficará a saber que ela é norueguesa. Mas quem ouvir um dos seus discos ou assistir aos seus concertos não sairá esclarecido acerca da cultura tradicional daquele país nórdico. Em parte isso deve-se à mania que ela tem de trazer para as suas canções os mais diversos géneros contemporâneos, do jazz à electrónica. Mas os paradoxos identitários da música de Boine têm raízes mais fundas: ela é norueguesa, mas não é norueguesa. É Sami.

Boine, que actua hoje no palco principal do Festival de Músicas do Mundo de Sines, sendo esta a sua terceira presença em Portugal após concertos em Aveiro e Lisboa, nasceu no norte da Noruega, numa zona a que hoje se chama Região Sami, indo buscar o nome ao povo que a habita. Não é um território pequeno - o povo Sami está espalhado por uma área geográfica que além do norte da Noruega abrange ainda partes da Suécia, da Finlândia e da Rússia. A região, note-se, não é um país, é antes - e oficialmente - uma região cultural.

Ser descendente de um povo que não tem oficialmente terra tem as suas implicações. "A nossa terra foi colonizada no século XVII por quatro países", dizia-nos Boine ao telefone. "Hoje temos quatro línguas diferentes apesar de sermos o mesmo povo. Houve períodos em que se quis a independência, mas acho que esse assunto hoje já não está na agenda política. Estamos simplesmente a tentar sobreviver dentro dos paises".

Isto significa tentar manter vivos alguns dos aspectos mais ancestrais de uma cultura específica, um dos quais - o xamanismo - particularmente controverso. "Originalmente éramos nómadas, daí a Região Sami ser tão extensa. A nossa cultura era xamanística e viviamos próximos da natureza. A agricultura não era o nosso forte, embora depois da colinização tenhamos começado a usá-la mais - mas o meio é gelado e não é fácil. A maior parte dos Samis trabalhavam com animais e pescavam".

A colonização do povo Sami pode ter começado há quatro séculos mas os seus efeitos não foram imediatos - na realidade, ainda hoje se fazem sentir e Boine levou com eles e o que faz hoje é, diz, "resultado de ter crescido com essas contradições". Frequentou desde pequena escolas norueguesas, tendo sido obrigada a comportar-se de acordo com a cultura norueguesa. "Por um lado cresci com um sentimento maravilhoso de liberdade que advinha do contacto com a natureza: os meus pais tinham uma quinta e pescavam do rio. O Inverno era duro, o Verão era maravilhoso. É uma terra de constrastes muito fortes, com muito espaço. Por outro lado víviamos junto a uma comunidade cristã e os meus pais foram cristianizados e negavam a tradição xamã. Eram rígidos e queriam que aderíssemos à cultura norueguesa. Eu tinha liberdade na natureza mas não liberdade na mente. Através da música tentei retratar esses contrastes".

Terapia

Cantar, diz, devolveu-lhe a liberdade da mente. O canto a que Boine se refere é o Yoik, o canto tradicional do povo Sami, profundamente enraizado na tradição xamânica. Não era o tipo de música que estivesse disponível enquanto Boine crescia: "Em miuda não ouvia muito esta herança cultural. Os colonizadores baniram esta forma de canto porque era mais fácil controlar os povos assim - quando cantas isto deixas de ser controlável".

O Yoik não era a única música interdita. "Tínhamos rádio mas não era permitido ouvir. Ouvíamos às escondidos dos meus pais. O meu tio tinha um gira-disco e eu tentava usá-lo sempre que podia". Cantar serviu-lhe como terapia: "Estava cheia de ansiedade. Detestava a minha cultura. Quando se é colonizado lavam-nos o cérebro de manhã à noite e isso pode causar uma confusão extrema em termos de identidade". A ideia é completada com uma frase de uma brutalidade imensa mas que ela diz com a tranquilidade de quem já ganhou distância: "Acho que posso dizer que nessa altura tinha ódio por mim mesma".

Faz sentido que a prática do canto Yoik tenha ajudado Boine a livrar-se da ansiedade. Não apenas em termos identitários, não apenas como forma de se aproximar de uma raiz que lhe foi negada, mas também em termos físicos: o Yoik, sendo "pentatónico e repetitivo", está, desde tempos imemoriais, "muito ligado às experiências das gerações anteriores": era uma forma de transmitir a comunhão do ser humano com o meio - duro mas mágico - que o rodeava. Era, também, "o meio de os xamãs entrarem em transe", o que se explica pela repetição.

A sua experiência não é caso único: conta que nos seus workshops de canto Yoik por vezes se depara com pessoas para quem o canto se torna uma forma de cura. "Em França tive uma aluna, uma advogada muito metida consigo mesma, muito fechada, muito tensa, e a dada altura libertou-se com o canto e cantava como uma velha Sami. Foi uma experiência extraordinária".

O Yoik, entretanto, deixou de ser proscrito. "As pessoas que nos colonizaram disseram-nos que o xamanismo vinha do diabo. Agora já percebem que não vem do diabo. O xamanismo é espiritual e psicológico, não é diabólico. É uma sabedoria de como sobreviver no mundo e na natureza e isso pode tocar até quem é urbano".

Boine, de qualquer modo, está longe de ser uma purista - e não deixa de ser extraordinário o respeito que ganhou, apesar das misturas constantes que faz na sua música, num meio que é mais conservador do que parece. "Ao longo da minha carreira apercebi-me que as minhas experiências podem ser confusas para as pessoas. Classificam-me como world music e eu não sou de todo purista. O meu instinto primário é comunicar com o moderno, com o futuro. Não quero ser exótica. Não sou um postal".

A prová-lo está o facto de estar a preparar-se para gravar em inglês. "Está toda a gente chocada com isto mas é o que eu tenho de fazer. Quero saber o que acontece quando as pessoas percebem o que eu digo. Talvez achem que é vulgar". Boine desconfia que o facto de o ouvinte comum não perceber o que ela canta lhe concede (a ela) uma aura de mistério. "Quero tocar nas partes misteriosas da vida mas não quero fazer de conta que sou misteriosa - porque não sou. Não quero ser uma falsa misteriosa, não tenho interesse nenhum nisso".

Como exemplo da sua abordagem idiosincrática à música ela avisa que em Sines vai tocar temas de Eight Seasons, um disco extraordinário mas repleto de jazz e electrónica. Da banda constará guitarra, trompete, samples, baterista, baixo e Boine afiança que "também haverá rock".

"Vai ser melhor ao vivo do que é em disco", garante, antes de deixar um conselho: "Não tentem perceber esta música. Não é música que se perceba, isso não é possível. Não usem a cabeça. O que podem fazer é acompanhar e sentir. Têm de confiar em mim. E talvez eu abra algumas portas".

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