Há espera no cais

Foto

Até domingo, 16 trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo esperam por Godot na Rua dos Mareantes. Mas esta não é só a extraordinária história do auto que eles levantaram do chão com Marco Martins. É também a história bem menos extraordinária do fulgor e da morte da construção naval em Portugal, e deste país que todos os dias acorda para não fazer nada.

Olívia lembra-se doutros tempos em que também estava à espera, mas não de Godot. Era ainda uma miúda, filha de um serralheiro civil dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) cujo posto de trabalho haveria de herdar - mas estamos a ir demasiado depressa. O tempo demorava o seu tempo, nesses tempos - e, no entanto, quando chegava o Natal, Olívia tinha "sempre as melhores bonecas". "Todos os anos a empresa fazia uma festa no Teatro Sá de Miranda para os filhos dos trabalhadores. Lembro-me disso e do cabaz de Natal que o meu pai trazia para casa: um bom cabaz, com folha de bacalhau, nozes, vinho do Porto", conta na sua sala de jantar em Santa Marta de Portuzelo, onde construiu uma casa que não sabe se vai conseguir acabar de pagar ao banco. Tal como ela, também o marido é funcionário dos ENVC, uma empresa pública com um passivo acumulado monumental e cerca de 630 trabalhadores (nalguns casos, agregados familiares inteiros) parados há mais de dois anos à espera que o Governo diga alguma coisa, qualquer coisa.

Apesar da falta de encomendas, Olívia e o marido continuam a entrar todos os dias nos estaleiros às 8h, mesmo que seja para não fazer nada. Nos últimos tempos, o trabalho só começa verdadeiramente depois das 16h30 - quando chegam a casa, consertam sapatos na oficina montada na garagem, e assim ganham algum dinheiro extra. Agora sim, estão à espera de Godot, como na peça de Samuel Beckett que o encenador e cineasta Marco Martins trouxe para Viana do Castelo, quando o director do Centro de Criação para o Teatro e as Artes de Rua, Renzo Barsotti, o convidou a criar, para o Festival do Norte, um auto sobre o trabalho com um grupo de funcionários dos ENVC.

- Temos de fazer coisas.

- Não podemos estar parados.

"Lá dentro é o Godot. É a espera que desespera", confirma-nos cinco horas mais tarde, num café na outra ponta da cidade, Martinho Cerqueira, electricista, delegado sindical e membro da comissão de trabalhadores (CT) que cessou funções há duas semanas. Martinho, 60 anos de vida e 46 de estaleiro, sente-se em casa no texto de Beckett - como se verá no auto que hoje, amanhã e depois, às 22h, o grupo de 16 trabalhadores dirigidos por Marco Martins e Nuno Lopes apresentarão à cidade, e ao mundo, na Rua dos Mareantes, com vista para as docas de onde há muito não saem barcos. Há dois anos que, salvo ocasionais reparações (em 2011, segundo a CT, 62 navios foram ali reparados), os funcionários dos ENVC se limitam a cumprir horário e algumas tarefas de limpeza e manutenção - o último navio que construíram, o ferry-boat Atlântida, encomendado pelo Governo Regional dos Açores e entretanto recusado por não cumprir a velocidade contratual, está encostado no Alfeite. O Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que o viu em 2010 quando foi a Viana do Castelo com José Sócrates, achou-o tão "bom, bonito e barato" que prometeu comprá-lo. Entretanto, encomendou aos ENVC, por 128 milhões de euros, mais dois asfalteiros que deviam ter entrado na linha de fabrico em Outubro - se houvesse dinheiro para comprar aço.

Até hoje, o Governo não desbloqueou os três milhões que podiam pôr a maior empresa de Viana do Castelo novamente a funcionar (e por menos dinheiro do que o montante injectado para salvar um banco privado, o BPN). Desde então, os estaleiros perderam mais um negócio de 50 milhões, um dos administradores bateu com a porta acusando os outros de "inércia", e o Governo anunciou a sua intenção de vender a empresa ao comprador que garantir o maior número de postos de trabalho - decisão a conhecer entre Setembro e Outubro.

Até lá, a espera. Uma espera que, como todas as anteriores, pode desembocar noutra espera, e depois noutra, e depois noutra.

- Vamos embora?

- Não podemos.

- Porquê?

- Estamos à espera do Godot.

A espera, diz Marco Martins, não é só o grande tema do espectáculo que levantou do chão com Nuno Lopes e 16 amadores - é "o grande tema dos estaleiros". Quando chegou a Viana do Castelo para começar a trabalhar, tinha na cabeça um espectáculo autobiográfico, construído a partir das histórias de vida dos trabalhadores - mas à medida que os ensaios iam decorrendo, o grupo começou a pedir textos. Na mala do carro tinham ido excertos de Heiner Müller e Karl Valentin, mas nenhuma peça pareceu tão feita à medida da situação como o À Espera de Godot.

"Os estaleiros estão verdadeiramente parados - e isso foi uma constatação brutal. Nós só lá entrámos um mês e tal depois do início do trabalho com o grupo; às tantas já me sentia como o Lars von Trier, que está sempre a fazer filmes sobre a América mas nunca lá pôs os pés. A imaginação ia trabalhando e eu já tinha uma ideia na minha cabeça. Mas não tão violenta como a realidade, devo dizer: os estaleiros são uma multidão que entra às 8h da manhã e depois ninguém, nenhum ruído; as máquinas a apodrecerem, as docas absolutamente vazias...", descreve o encenador. Filmou tudo o que pôde, "na ânsia de registar este momento da vida dos estaleiros e de retratar a espera daquelas pessoas" - um material que, além deste espectáculo, pode vir a dar "uma curta ou uma média-metragem muito forte". Sobre os estaleiros mas também sobre este país de desempregados que se levantam todos os dias para não fazer nada a não ser esperar: "Há uma angústia em relação ao futuro, ao que é avançar, ao que é o progresso, que é muito do nosso presente colectivo."

Mas se a espera é coral, as histórias de vida que o espectáculo amplifica, e que se agigantam entre os excertos de Beckett, saíram do corpo de cada uma destas 16 pessoas - e são tão incríveis estas histórias de fatos-macacos enormes em corpos de 14 anos, estas vidas ali agachadas em horas extraordinárias, que é como se o estaleiro fosse outra vez o animal enorme e barulhento que a cidade conheceu em 1944 e pelo qual se regulou durante décadas. Um a um, na peça de Marco Martins, os trabalhadores entram ao serviço. Contam a chegada aos estaleiros, o primeiro dia de trabalho, o navio favorito, o acidente mais terrível, aquilo que ao fim destes anos ainda puderam salvar, entre mortos e feridos - e a história deles é a história do fulgor e da morte da construção naval em Portugal, uma indústria que em Viana do Castelo chegou a empregar mais de 2500 pessoas e que atravessou toda a década de 80 a dar lucro.

Por causa dos salários e da progressão na carreira, mas também por causa do orgulho de classe, quase stakhanovista, associado à construção naval, ingressar nos estaleiros era "um sonho" para rapazes como o Esteves, 55 anos, que ali chegou vindo do "trabalho muito duro" numa fábrica de serração, ou para o Sebastião, que ainda conseguiu trabalhar cinco anos ao lado do pai, "um herói". Perto deles, Marco Martins sente que é fácil "tomar partido": "Para mim é importante ter um lado, e eu estou do lado deles, com tudo. Mas claro que tenho um ponto de vista - e houve momentos em que foi uma luta. Quando eles perceberam a visibilidade que o espectáculo ia ter, fizeram pressões para falar desta situação, daquela pessoa. Tive de os convencer que quanto mais abstracto isto for, mais forte será, a mais gente irá chegar. Quem se sentir acusado sentir-se-á acusado na mesma, sem que tenhamos de apontar o dedo."

- O que é que ele disse?

- Que logo via. Que ia pensar no assunto. Que não prometia nada.

Quando chegou a Viana do Castelo, há dois meses, Marco Martins ainda pensava que ia fazer Estaleiros dentro dos estaleiros, mas percebeu que o estatuto daquele espaço tutelado pela Empordef, a holding do Estado para as indústrias da Defesa, tornaria o simples acto de assistir ao espectáculo uma dor de cabeça burocrática. É melhor assim: "É mais deles, e é mais forte. O espaço dos estaleiros é tão monumental e tão pouco habitual, tão gráfico, que provavelmente iria impor-se às histórias individuais." Que na verdade são tudo, ou quase, porque hoje, amanhã e depois estas pessoas vão expor-se muito, e isso é toda uma vitória: "O que tínhamos, no fundo, era um grupo de metalúrgicos que em grande parte nem sequer se conheciam: sabiam os nomes uns dos outros, pouco mais. Não é evidente pôr homens de 50 e tal anos que nunca se expuseram emocionalmente a exprimir sentimentos. Fizemos muitos jogos teatrais para lhes dar concentração, confiança - nalguns casos foi um verdadeiro trabalho de psicoterapia", conta Nuno Lopes, o actor profissional que Marco Martins quis levar para o meio de 16 amadores.

Nenhum dos dois estava à espera de receber tanto. Sobretudo Marco, que tinha tido uma experiência prévia em Santa Maria da Feira, onde Renzo Barsotti o convidou a fazer um Romeu e Julieta com a comunidade cigana da Baralha entre 2009 e 2010: "Na Baralha passei um ano muito duro, em que tive de responder a dificuldades básicas como a impossibilidade de realizar ensaios. Aqui não: este é um espectáculo que as pessoas realmente queriam fazer, e por isso todos os dias me davam muita coisa. Mas não nos interessava a exposição pela exposição, nua e crua. Queríamos que se expusessem por acreditarem que este espectáculo é necessário. E há aqui coisas que nunca tinham sido ditas: apesar de em Viana toda a gente ter um familiar ou um amigo nos estaleiros, há muita coisa que fica lá dentro." Nuno continua: "Claro que tinha exercícios para puxar por isso, mas não estava à espera desta entrega toda - de uma honestidade tão grande, e absolutamente tocante. Estamos a falar de 16 pessoas maravilhosas."

São as mesmas 16 pessoas que apareceram há dois meses, para uma sessão que já era de trabalho mas muitos trabalhadores imaginaram ser um casting de que sairiam chumbados. "Quis que ficassem sem saber se tinham jeito. Era-me suficiente eles terem vindo. É muito bonito sentir as pequenas fragilidades, as ligeiras hesitações: fazem parte do espectáculo. Mas alguns foram revelações, há aqui verdadeiros actores. Como é que o Tó Zé, que no início dizia que não sabia falar em público, se sai com aquela frase incrível: "Às vezes o amor que temos pela casa desvanece-se no desespero da espera"?", espanta-se Marco. Dois meses, dezenas de ensaios - de segunda à sexta das 17h às 20h, e todos os domingos das 15h às 20h - e alguns jogos do Euro 2012 depois, ainda se comove "imenso": "Foi muito terapêutico para eles e para mim. Acho que tenho uma relação pessoal com cada um deles."

Nuno Lopes tem mais do que isso: tem "material para muitas personagens", e uma aprendizagem para a vida. É disto que se alimenta como actor: "Foi a primeira vez que fiz um trabalho de encenação e direcção de actores, ainda por cima com amadores, mas nada disto me é estranho: sempre que faço pesquisa de personagens, vou ter com as pessoas." É um método como os outros: "Não tenho nada contra os actores que não fazem este caminho, mas eu preciso de chegar a um ponto em que estou a falar como as pessoas que represento. Não me chega imaginar, embora isso às vezes também funcione muito bem na ficção. O [João] Canijo explica-o melhor do que ninguém: isto de criar uma personagem funciona por contágio. Como um sotaque. Contagias-te da vida daquelas pessoas e depois não consegues largar. Eu estaria pronto para fazer uma personagem dos estaleiros: sei aquilo por que estão a passar, do que falam, o que pensam."

Aqui não se colocou essa questão: Nuno foi o professor de teatro, o modelo e, admite Marco Martins, "o polícia bom" - mas nunca o agente infiltrado. A ideia era que esta fosse uma peça feita pela comunidade e para a comunidade. Por isso, no ponto em que está, Estaleiros já não é só um espectáculo do Festival do Norte - com 16 trabalhadores, o grupo de Cantadeiras do Vale do Neiva e o Rancho Folclórico de Vila Franca do Lima, e ainda banda sonora de David Santos, aliás Noiserv - sobre o património imaterial mais valioso de Viana do Castelo, a segunda capital de distrito do país com pior poder de compra. É, argumenta o director artístico do festival, Renzo Barsotti, um contributo para a reflexão sobre a degradação do trabalho: "Este espectáculo pode ser um instrumento de interpretação da realidade, e entendo que é esse o papel das artes neste momento histórico. Em Viana do Castelo, e perante a situação dos estaleiros, de que a cidade é inseparável, quisemos sugerir o trabalho como bem a tutelar, como património a salvaguardar. Mas o tema do trabalho é uma emergência em todo o país, em toda a Europa. E que capacidade tem ainda o teatro popular - uma tradição muito forte no Alto Minho, que já vem da Idade Média e do Auto de Floripes -, para incidir de forma eficaz na sociedade?"

O que estas pessoas puderem fazer pelos estaleiros, farão - e se tiver de ser teatro, que seja. Não se trata só de garantir um emprego, um salário, regalias; trata-se de não deixar morrer um modo de vida, uma casa, uma família. "Eles têm realmente um grande orgulho naquilo que fazem, na qualidade do que ali é feito, numa progressão que não é só a de entrar a ganhar 600 euros e dali a dois anos estar a ganhar mil: é uma progressão no saber", confirma Marco Martins. A dedicação que têm, "uns aos outros, à empresa", é coisa "muito rara de se ver", retoma Nuno Lopes: "De repente parece que foram amigos a vida toda. Há uma coisa muito forte que os une: constroem navios juntos."

É o que os faz ficar, em vez de ir: nunca navegaram num navio construído nos estaleiros.

- O que fazemos agora?

- Não sei.

Pedro, o soldador de 36 anos que veremos em Estaleiros regressar aos tempos em que tinha uma banda de garagem, não tem dúvidas de que na segunda-feira, terminadas as três apresentações do espectáculo, "volta tudo ao mesmo". Fabíola, que entrou para ser secretária de administração há 30 e tal anos e agora tem a seu cargo as relações públicas e a imagem corporativa da empresa que é toda a sua vida de trabalho, acha o contrário: "Isto é de certeza absoluta mais do que um espectáculo. É um pedido de reflexão. E uma oportunidade para mostrarmos à cidade o orgulho imenso que temos nos estaleiros. Passa pela cabeça de muito pouca gente, mas passa pela nossa, o que custa fazer um navio. E nem é preciso falar dos acidentes - basta dizer que há alturas em que os soldadores trabalham com 40 graus em cima das costas. Todo o dia, todo o Verão. É muito duro."

Todos, a começar por Marco Martins e Nuno Lopes, sabem que o espectáculo vem "num momento decisivo para a vida dos estaleiros". É uma sorte, mas também é um peso em cima dos ombros: "Sinto-me muito responsável por estas pessoas e pela mensagem que vamos passar. Falamos de pessoas que ali morreram, de pessoas que deram a vida toda àquele sítio. Acredito que seja agora mais difícil para quem decide prejudicá-las. Não sou nada dessas utopias, mas acredito."

Aconteça o que acontecer depois da reprivatização dos ENVC - "Isto não pode piorar, é insustentável: faltam as coisas mais básicas lá dentro..." -, Marco Martins já se sentiu útil, "talvez como em nenhum trabalho anterior": "O espectáculo quebrou a angústia destas pessoas, deu-lhes uma razão para acordarem todos os dias. Gostava que não ficasse por aqui. Tenho imensa vontade de voltar a trabalhar com eles."

Mas isso talvez dependa também do que acontecer hoje, amanhã e depois. Numa cidade onde até o presidente da câmara municipal - José Maria Costa, um engenheiro químico - é um ex-trabalhador dos estaleiros, estes são os dias de voltar a sair à rua. Como há um ano, quando mais de três mil pessoas num concelho de 38 mil habitantes se juntaram numa manifestação contra o plano de reestruturação que previa a saída de 380 funcionários até ao final de 2011. Como sempre que os estaleiros entregavam um navio e a cidade vinha despedir-se.

Talvez este espectáculo seja, como diz Pedro, uma maneira de o outro - o da dança das cadeiras, dos navios encostados no Alfeite, dos administradores que não lêem as letras miudinhas, da falta de dinheiro para comprar aço, dos jogos de cartas para passar o tempo - terminar: "Já chega de tanto espectáculo. Já chega daquele espectáculo. Queremos voltar a trabalhar."