Londres 2012

Futebol e olimpismo, uma dupla à sombra da FIFA e às custas do Mundial

Hope Solo, a guarda-redes dos EUA, entra nesta quarta-feira em acção
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Hope Solo, a guarda-redes dos EUA, entra nesta quarta-feira em acção Foto: David Moir/Reuters

Os Jogos Olímpicos começam já hoje, dois dias antes da cerimónia de abertura, com o futebol. Um corpo estranho no maior evento desportivo mundial, jogado fora do estádio olímpico e sem grandes estrelas.

A chama olímpica ainda não terá chegado ao seu destino final, no estádio olímpico, em Londres, e já se disputou uma série de jogos (femininos e masculinos) do torneio de futebol. É assim, na sombra, que a modalidade desportiva mais popular do mundo surge no calendário dos Jogos, sem ter nos relvados os seus melhores jogadores. Interesses económicos, a Federação Internacional do Futebol (FIFA) e o consentimento do Comité Olímpico Internacional (COI) tornaram desinteressante para as grandes potências o torneio olímpico e só o contingente dos países africanos parece aproveitar a competição para se promover.

Não é por acaso que o Brasil e a Alemanha, duas das maiores potências do futebol mundial (juntas têm oito títulos mundiais), nunca conquistaram o ouro olímpico no futebol - apenas a antiga Alemanha Oriental foi campeã olímpica, em 1976. É que as directivas da FIFA exigem que as federações suas filiadas não apresentem as suas selecções principais no torneio olímpico. Uma imposição que tenta impedir que os Jogos façam sombra aos Mundiais de futebol, retirando-lhes o magnetismo e os benefícios económicos. A norma tem também o consentimento do COI, entidade que regulamenta os direitos comerciais dos Jogos Olímpicos.

A decisão que diminui (e marginaliza) o futebol saiu da 95.ª sessão do COI de Setembro de 1989. Ficou marcada pela reeleição do presidente Juan Antonio Samaranch e pela confirmação dos graves problemas que afectavam as estruturas olímpicas. Aí também ficaram fechados vários acordos importantes sobre o movimento olímpico, que duram até hoje, mais de trinta anos depois, como o desaparecimento dos desportos de demonstração a partir de 1996 (a não admissão de atletas que tivessem relações com a África do Sul, na luta contra o apartheid, deixou de estar em vigor...). E também protestos de vários membros veteranos do COI, defensores do amadorismo, assustados pela irrupção dos profissionais de ténis e da NBA no olimpismo - nasceu aqui o primeiro Dream Team de basquetebol norte-americano.

Mas a decisão que começou a derrotar o futebol também saiu daqui. Nela, o COI admitiu provisoriamente para os Jogos de Barcelona 92 um torneio limitado a jogadores com menos de 23 anos - com três jogadores de qualquer idade permitidos por equipa. Antes, para os Jogos de Los Angeles 1984, havia decidido admitir jogadores profissionais, com o beneplácito da FIFA, mas apenas deixando participar os futebolistas que tivessem actuado no Mundial anterior.

Este formato permite que as selecções possam competir de forma igual e os países africanos se aproveitem. A Nigéria e os Camarões, vencedores em 1996 e 2000, respectivamente, são disso exemplos.

Sair do programa olímpico

"A FIFA não deixa fazer sombra", começa por dizer Vicente Moura. O futebol, geralmente, é relegado para outras cidades, longe do centro olímpico, começa antes da competição oficial e não seguiu a integração de profissionais de outros desportos como o ténis, golfe ou o basquetebol.

"São interesses comerciais", destaca o presidente do Comité Olímpico Português. "É a FIFA que tem imposto condições para o futebol poder participar nos Jogos, tornando-o um torneio menor", continua. E questiona a sua saída do programa olímpico. "Está num limbo", atira. "Por um lado, tem pouco interesse, porque faltam as suas grandes estrelas; por outro, é um desporto que desperta sempre atenção", adiantando que o futebol continua a gerar grandes assistências durante os Jogos Olímpicos, sendo dos mais vistos.

Outra razão é o calendário desportivo. O futebol nunca mostrou disposição para alterar as suas datas em função dos Jogos e os clubes não se mostram muito contentes por ceder os seus (quase sempre os melhores) jogadores numa fase em que a época futebolística está quase a começar.

Gil Vicente também está presente

FC Porto, Benfica e Sporting estão à espera do ouro. O FC Porto e o Benfica podem torcer o nariz à cedência de jogadores às selecções nos Jogos, já que cedem quatro e três jogadores, respectivamente.

Perder peças fulcrais das suas equipas no início da época não deixa nem Vitor Pereira nem Jorge Jesus satisfeitos - até porque, no pior dos cenários, só contarão com os craques no dia 11 de Agosto, quando termina a competição.

Portistas e benfiquistas estão bem colocados na corrida ao primeiro lugar no pódio, ou até a um dos outros dois (prata e bronze). O FC Porto é a equipa portuguesa que mais atletas vai ceder: Hulk, Danilo, Alex Sandro (Brasil) e Abdoulaye (Senegal). E são os brasileiros os grandes favoritos a vencerem a prova.

O grande adversário do Brasil é a Espanha, outro dos candidatos a uma medalha e, aí, o Benfica conta com um dos seus principais jogadores: Rodrigo.

O outro atleta "encarnado" é o uruguaio Urreta. Já o Sporting está representado pela nova aquisição deste Verão. Zakaria Labyad, comprado ao PSV, é uma das estrelas da selecção de Marrocos. E até o Gil Vicente se vê representado nestes Jogos, através de Yero, no lote de reservas da selecção do Senegal.

Portugal falhou bronze em 1996, Ronaldo foi humilhado em 2004

As três participações portuguesas em Jogos Olímpicos resultaram todas sem uma subida ao pódio. A primeira vez que a selecção lusa foi aos Jogos aconteceu em 1928, em Amesterdão.

Na Holanda, com essa estrela em ascensão que era Pepe, a jovem esperança do Belenenses que morreria anos mais tarde envenenado em vésperas de assinar pelo FC Porto, Portugal venceu por 4-2 o Chile e ultrapassou a Jugoslávia por 2-1, caindo surpreendentemente na segunda ronda ante o Egipto, por 1-2. Seria preciso passarem 68 anos para que Portugal marcasse presença noutros Jogos. Foi em 1996, em Atlanta.

Nos EUA, os portugueses, liderados por Nelo Vingada, conseguiram a sua melhor participação de sempre, com o quarto lugar. Na fase de grupos, passou como segundo classificado, com uma vitória (2-0 sobre a Tunísia) e dois empates com Argentina (1-1) e EUA (1-1). Nos quartos-de-final, a selecção que contava com jogadores como Peixe, Rui Jorge, Sérgio Conceição, Nuno Gomes ou Dani, ultrapassaria a França nos penáltis, mas seria eliminada nas meias-finais pela Argentina, por 2-0 (dois golos de Crespo).

No jogo para a medalha de bronze, Portugal saiu goleado ante o Brasil, por 5-0 (com um golo de Ronaldo, outro de Flávio Conceição e três de Bebeto).

Em 2004, Atenas viu uma das suas melhores selecções - Cristiano Ronaldo fazia parte da comitiva - sair com uma das piores prestações. Duas derrotas com o Iraque (4-2) e Costa Rica (4-2) deitaram tudo por terra. A vitória sobre Marrocos (2-1) não serviu para nada. O treinador era José Romão.

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