Tudo o que é normal para os outros é um obstáculo para Pedro Isidro

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Pedro Isidro ao centro com a bandeira de Portugal nas mãos (Ivo Ferreira acompanha-o) dr

A maior parte dos atletas que vão estar em Londres precisaram "apenas" de obter o mínimo olímpico na sua respectiva modalidade para garantir um lugar na elite mundial e representar o seu país em mais uns Jogos Olímpicos. Mas não foi esse o caso de Pedro Isidro. Para este marchador, que só ontem viu confirmada a sua presença na competição, o passaporte para Londres obrigou a um esforço redobrado.

Pedro Isidro, nascido a 17 de Julho de 1985, na Azambuja, herdou deficiências cognitivas que o levam a ter grandes dificuldades em manter a atenção e em matéria de memorização, com tudo que isso implica na gestão do quotidiano. Problemas que se avolumam por causa de grandes dificuldades de expressão.

Ana Oliveira, coordenadora do atletismo do Benfica, clube que o atleta representa a nível federado, salienta as dificuldades acrescidas que Pedro Isidro teve que superar para conseguir tornar-se um atleta olímpico. "Trata-se de uma enorme recompensa para um atleta que trabalha imenso e com total dedicação", afirmou. "Tudo o que é normal para os outros gera para ele acrescidas dificuldades. A marcação de reuniões, encontros, horas de treino e outros tarefas rotineiras semelhantes tornam-se muito mais difíceis para ele e temos de o fazer recorrendo acrescidamente ao pai ou ao seu técnico, Luís Dias. Tudo é mais difícil, mas consegue-se, e o factor da enorme força de vontade que ele empresta a toda a sua carreira é neste particular decisivo", sublinhou.

Pedro Isidro iniciou-se na marcha em 2003 e o ano de 2008 foi aquele em que atingiu resultados de valia internacional. Estreou-se na Taça do Mundo em Cheboksari (Rússia), estabelecendo um recorde pessoal de 1h25m22s que ainda se mantém vigente e que o coloca como oitavo melhor português de sempre. Acabou então em 50.º lugar nesse certame e voltaria dois anos mais tarde à Taça do Mundo, desta vez em Chihuahua (México), onde subiu de posição, com um 29.º lugar com 1h27m55s.

Os anos a partir de 2008 significaram, no entanto, alguma estagnação nos 20km marcha e o passo mais importante foi dado por Pedro Isidro e pelo seu técnico com a abordagem aos 50km marcha, a mais longa das provas olímpicas, desde o ano passado. O benfiquista participou nos campeonatos nacionais disputados na Batalha, a 19 de Fevereiro, e acabou em segundo com um tempo de 4h10m45s.

A terceira presença na Taça do Mundo, este ano realizada de novo na Rússia, em Saransk, mostrou-se decisiva para o atleta. Terminou os 50km a 13 de Maio em 27.º lugar com 3h58m00s, um recorde pessoal e que o torna o nono português de todos os tempos. Esta marca não era mínimo A federativo (pedia-se 3h56m) para ir a Londres e João Vieira já tinha esse mínimo principal, pelo que Pedro Isidro ficava de fora. Mas a reconsideração da sua situação (e a de Luís Feiteira, na maratona) face aos mínimos menos exigentes da Federação Internacional abriu-lhe as portas olímpicas e fará companhia a João Vieira nos 50km marcha.

O sucesso de Pedro Isidro foi devidamente sublinhado pela APD-Amadora, organização filiada na ANDDI (Associação Nacional do Desporto para Deficiência Intelectual) e à qual o marchador está ligado. "Pedro Isidro consegue o enorme feito de ser o primeiro atleta com deficiência intelectual, a nível mundial, a qualificar-se para uns Jogos Olímpicos. Tratou-se de uma feito a todos os níveis assinalável e uma enorme conquista de integração", refere a associação em comunicado.

Tal como Pedro Isidro, também Luís Feiteira que, ao contrário do seu colega, já tinha integrado uma comitiva olímpica (Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, nos 1500m), será um olímpico português de última hora. Alinhará ao lado de Rui Pedro Silva na maratona.

Os raros casos de atletas com deficiência

A APD - Amadora refere em comunicado que Pedro Isidro será o primeiro atleta a nível mundial a estar presente, com deficiência intelectual, em Jogos Olímpicos. E são, de facto, escassos os dados referentes a atletas que tenham situações semelhantes.

De atletas portadores de deficiências cognitivas ou intelectuais o caso mais notável foi o do corredor de 400m barreiras da União Soviética Vyacheslav Skomorokhov que, em 1969, se tornou campeão europeu - além de recordista nacional com 49,17s -, sendo surdo e mudo de nascença.

No caso de atletas com deficiência física, alguns têm conseguido a sua participação em grandes provas internacionais.

Oscar Pistorius, o blade runner sul-africano, é o caso mais conhecido e este quatrocentista amputado abaixo dos joelhos em tenra idade conseguiu a qualificação para os próximos Jogos Olímpicos já depois de ter estado em acção nos Mundiais de Daegu do ano passado.

Já antes a norte-americana Marla Runyan, uma excelente especialista de 5000m, tinha estado presente nessa prova nos Mundiais de Edmonton em 2001 e nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, curiosamente nos dois eventos eliminada em nono lugar nas eliminatórias. Runyan tinha um deficiência visual superior a 70%.

Também deficiência visual em grande escala tem o sprinter irlandês Jason Smyth, que participou nos Mundiais de Daegu de 2011 e nos recentes Europeus de Helsínquia - tendo ficado em sétimo nas meias finais dos 100m -, e até ao fim lutou por uma qualificação olímpica para Londres.

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