Alcino Soutinho e o Porto

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Paulo Ricca

O edifício dos Paços do Concelho de Matosinhos é a obra mais conhecida deste arquitecto que nasceu em Gaia, mas que escolheu residir no Porto. Vive e trabalha na Foz do Douro, lugar abençoado pela confluência do rio com o mar. "Todos os dias vejo água."

a final, qual é a cidade de Alcino Soutinho? Nasceu em Vila Nova de Gaia (1930), vive no Porto, mas a sua obra mais conhecida é a câmara de Matosinhos.

O arquitecto responde sem hesitação: é um portuense. E tem bem viva a memória da viagem fundadora dessa sua condição: nasceu e viveu em Coimbrões, ao pé da fábrica de cerâmica do Carvalhinho, mas, aos sete anos, o pai meteu a família no Fiat Balilla - "era o carro usado pelas milícias fascistas italianas da época" - e atravessou o Douro, rumo a uma nova morada no Porto. Tinha sido convidado a gerir uma fábrica de álcool etílico na cidade, "a única que havia no país", pois já trabalhava no mesmo ramo em Gaia, mas aqui com uma destilaria de aguardente vínica com que fornecia as casas do vinho do Porto.

"Essa viagem foi uma coisa premonitória, quando atravessei o tabuleiro inferior da ponte Luiz I: olhar e ver aquela estrutura metálica, pela primeira vez... Pode ter sido ela a fazer-me optar pela profissão que hoje tenho", diz o arquitecto.

E aceita mesmo o convite para revisitar e deixar-se fotografar nessa ponte que é um dos mais fortes ícones do Porto. "Então vista de baixo, em contre-plongée, a ponte oferece uma panorâmica impressionante, é uma massa estrutural muito forte."

É o olhar do arquitecto a falar. Mas essa primeira imagem podia bem ter dado um engenheiro de pontes, como Eiffel e Seyrig, ou um pintor, como António Cruz, para referir nomes directamente associados a este lugar da Ribeira portuense.

"Quando olho para a ponte Luiz I, ou para a D. Maria, não consigo deixar de me impressionar com a forte presença que as pontes metálicas sempre têm. Às vezes olho para a delicadeza de filigrana da D. Maria e fico admirado como é que eu tinha coragem para a atravessar de comboio", diz Alcino Soutinho, lembrando-se de quantos se recusavam a fazê-lo, apeando-se em Gaia para depois chegarem ao Porto pelas pontes Luiz I ou da Arrábida.

Alcino Soutinho é uma figura reconhecida da arquitectura portuguesa, com o nome associado à Escola do Porto, contemporâneo - e amigo - de Álvaro Siza, dois anos e meio mais novo, nas aulas de Belas Artes. "É curioso que ele queria ir para Escultura e eu para Pintura, mas cada uma das nossas famílias achou que isso era uma aventura perigosa e sem futuro em termos profissionais. Fomos para Arquitectura, o que, para nós, foi uma espécie de "recurso"", diz o autor dos Paços do Concelho de Matosinhos, que, à imagem de Siza, nunca abandonou a primeira vocação.

Soutinho continuou a pintar, toda a vida, e decidiu mesmo, há algum tempo, expôr essa sua faceta de "pintor clandestino" na Cooperativa Árvore, tendo presentemente uma nova exposição, sob o tema Eterno feminino, na galeria portuense Ap"Arte - onde, de resto, prevê mostrar novos trabalhos lá mais para o final do ano.

Quando se encontrou com a Fugas para esta visita guiada ao seu Porto, o arquitecto trazia o inevitável caderno Moleskine cheio de anotações e desenhos - "o desenho é o instrumento de trabalho do arquitecto", diz. Esse caderno guardava uma curiosidade: Soutinho tinha desenhado (com a data de 2010) o lugar onde nos encontrávamos, o jardim do Passeio Alegre, na Foz do Douro, o sítio por si escolhido para ponto de partida desta "viagem". "Vivo aqui perto, e sinto-me bem neste sítio porque ele reúne aquilo que o Porto tem de único, a proximidade simultânea entre o rio e o mar", justifica, enquanto passeamos em direcção ao velho farol da Foz do Douro, que Manoel de Oliveira eternizou em filmes como Douro, Faina Fluvial (1931) e Porto da Minha Infância (2011).

"O Porto está construído num abismo contra o mar - alguém escreveu isto" [o britânico Hilaire Belloc, citado por Mário Cláudio em Meu Porto, Dom Quixote, 2001] -, e a única excepção a essa topografia é a zona ribeirinha e litoral que se prolonga até Matosinhos. "É um privilégio muito grande poder ver o rio e o mar, todos os dias, e poder passear aqui", diz o arquitecto, que vive na Foz há 15 anos. "Às vezes, até dou comigo a dizer, como o fazia a aristocracia decadente e as pessoas "de boas famílias" do século XIX que aqui habitavam, "Hoje fui ao Porto"" (risos)...

Obra em Matosinhos

Curiosamente, e comparado com Matosinhos e Gaia, o Porto é a cidade que menos tem dado atenção - e obra - ao arquitecto. Aquelas condecoraram-no já com medalhas de mérito e com o título de cidadão honorário. "Santos da casa não fazem milagres, ou ninguém é profeta na sua terra, não é assim que se diz?", responde Soutinho, lembrando que também Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura - "que foi meu aluno e que respeito muito, sendo um nome notável da arquitectura portuguesa" - "não têm nada de muito significativo no Porto".

A obra de maior realce que Soutinho fez na cidade onde vive e tem o seu atelier é a Casa-Museu Guerra Junqueiro, que consistiu no restauro e ampliação de um projecto não acabado de Nicolau Nasoni. "É a única obra institucional que tenho no Porto", nota.

Os Paços do Concelho de Matosinhos (1980-87) - que integram um projecto mais vasto, que inclui uma biblioteca e uma galeria de arte, entretanto já construídos, e um auditório, ainda à espera de concretização - constituem, de facto, a sua obra mais mediática. "É uma memória interessante, porque foi a primeira obra pública institucional feita no país depois do 25 de Abril [de 1974]", diz o autor, recordando que, antes da Revolução dos Cravos, por se tratar de uma figura da oposição e da resistência ao Estado Novo, não lhe encomendavam nada. Recorda ainda que a câmara de Matosinhos foi também pioneira na expressão mediática da arquitectura em Portugal. Antes, os autores dos projectos nunca eram assinalados, falava-se apenas do proprietário. "[Em 1987], na inauguração desta obra, que teve uma cobertura mediática muito forte, apareceu o meu nome como seu autor. A partir daí, todos os jornais, o PÚBLICO e outros, quando noticiavam sobre uma obra mais significativa citavam sempre o nome do autor, o que se tornou importante, não só por uma questão de orgulho pessoal, mas também para vermos o nosso nome sufragado pela opinião pública."

A experiência mediática que Soutinho viveu na inauguração da câmara de Matosinhos contrastou com a situação de anonimato a que praticamente fora remetido, cinco anos antes, na atribuição do prémio Europa Nostra (1985) ao seu projecto de adaptação a pousada (D. Diniz) do castelo de Vila Nova de Cerveira. "Nessa altura, aparecia o nome do Ministério das Obras Públicas e da Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais, mas o autor não", recorda o arquitecto, que na sessão de entrega do diploma teve de ser procurado no meio dos convidados pelo escocês que representava a Comunidade Económica Europeia. "Eu lá me aproximei, modestamente. Foi curioso ter-me calhado abrir essa nova fase."

Pós-modernista infiltrado

Curiosamente também, o brilho dos mármores dos Paços do Concelho de Matosinhos valeu a Alcino Soutinho a imagem de alguém que descolava da imagem de frugalidade que então se atribuía à Escola do Porto. "Por aqui se procuraram desejadas dissonâncias no perturbante laconismo e invejável unidade da chamada "Escola do Porto", quando se tratava do indispensável aprofundamento e complexização dos valores da experiência passada. Por isso, os seus verdadeiros amigos lhe chamavam, ironicamente, arquitecto pós-moderno envergonhado e infiltrado, enquanto ele, sorrindo, assinava connosco, convictamente, o manifesto que elaborámos colectivamente contra a exposição do Pós-Modernismo que se realizava em Lisboa", disse Alexandre Alves Costa em Dezembro de 2007, na sessão que assinalou o 20.º aniversário da câmara de Matosinhos.

Alcino Soutinho volta a sorrir quando lhe lembramos a "acusação" de pós-modernista dirigida a essa sua obra. "É verdade que fui considerado, não direi um trânsfuga, mas um herético da Escola do Porto. Não é totalmente verdade. O que eu não fui foi um seguidor epidérmico da Escola. Mas os princípios, a interpretação do sítio, todos esses mecanismos que subjazem à Escola estão sempre nas coisas que fui fazendo, mas não de uma forma seguidista", responde o arquitecto, reivindicando a "dimensão experimentalista" da sua assinatura.

Assumindo essa filiação, Soutinho considera, de resto, que a Escola do Porto já cumpriu o seu papel histórico. "Teve o seu princípio, o seu apogeu, e acabou naturalmente. Provavelmente existem ressaibos, algumas coisas que ainda perduram. O movimento moderno, com o Le Corbusier, que se desenvolveu pelos anos 1940 e por aí fora, também acabou". E quando confrontado com a actual afirmação internacional de um Eduardo Souto de Moura (Prémio Pritzker 2011), nota que esse arquitecto é já "um filho da primeira geração". "Não se pode dizer que a Escola [do Porto] começou, mediou e acabou assim subitamente. Não há nenhum momento que marque essa datação, há uma evolução", diz Soutinho, recordando o papel fundador do arquitecto e professor Carlos Ramos (1897-1969) na afirmação da diferença da Escola do Porto e na libertação desta do espírito Beaux-Arts de Paris. "Ele, que foi nosso professor - meu, do Siza e outros - nos anos 1950, e que era um homem superiormente inteligente e com um espírito moderno, libertou os estudantes e disse-nos que era possível fazer arquitectura moderna."

Italiano adoptivo

Como todos os arquitectos, Alcino Soutinho é um viajante inveterado. Diz que a Itália é o seu "segundo país", desde que, em 1961, o visitou pela primeira vez para estudar museologia com uma bolsa da Fundação Gulbenkian - o seu projecto de fim de curso fora um Museu de Artes e Tradições Populares para o Porto... "Estive praticamente em toda a Itália, desde o Piemonte até à Sicília. Fiz lá grandes amizades, e há uma cidade que está no meu coração, Nápoles. É uma cidade caótica, mas é um caos maravilhoso."

Ainda na Europa, Soutinho gosta especialmente de Berlim. "Tem uma força e, sobretudo, uma dinâmica muito interessante entre aquilo que é o vazio, o verde e o construído. É uma cidade exemplar nesse sentido". O arquitecto viajou por todo o mundo e por lugares que hoje nos parecem "pouco recomendáveis, como a Síria e o Irão", diz. Mas, falando ainda de cidades, destaca duas na América, para além de Nova Iorque, "de que toda a gente fala". Trata-se de São Francisco e Chicago, "duas cidades muito equilibradas", tanto do ponto de vista da situação geográfica como da arquitectura. "Chicago tem esse equilíbrio que lhe dá a relação com a água - o grande lago que parece o mar - de que gosto muito, como acontece aqui no Porto". Soutinho recorda que visitou a cidade pela primeira vez em 1992, quando acompanhou Álvaro Siza para receber o Prémio Pritzker. "Vi que não tinha nada a ver com aquela ideia de ser a cidade dos gangsters", ri-se. E diz que São Francisco é simultaneamente "uma cidade muito europeia e muito americana" - "estas são malhas urbanas que são feitas independentemente da topografia do terreno, o que dá aquele movimento das ruas, com ladeiras e inclinações absolutamente fantásticas".

Mas Alcino Soutinho gosta sempre de regressar ao Porto, "a aldeia grande, global, se calhar", uma cidade composta de fragmentos, cada um com a sua identidade humana, e que tem a dimensão certa e adequada à vida das pessoas.