A imensa liberdade de uma rainha chamada Erykah Badu

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A liberdade de Erykah Badu nasce de um imenso talento Miguel Manso

T-shirt de cava, discretas calças verde tropa, cabelo longo caindo sobre as costas, livre, sem mãozinha de assessor de imagem. Diz-se que um verdadeiro líder conquista respeito pelo seu exemplo, não pela exibição da autoridade que o estatuto lhe confere. Ontem, no Hipódromo Manuel Possolo, em mais um concerto do Cascais Music Festival, vimos uma líder: da música, da palavra, da história que construiu e continua a construir.

Vimos Erykah Badu na sua estreia em Portugal e a autora de Mama"s Gun não precisou de mais do que a voz magnífica, o poder do discurso e a liberdade com que foi maestrina de uma óptima banda navegando pela soul, pelo funk, pelo groove hip hop alimentado a piano Rhodes ou swingando como os fusionistas jazz que, nos anos 1970, procuraram céu africano no tecto de clubes americanos. Tudo para falar do presente. Soldier, em encore, foi mote para discurso de activista capaz de empolgar multidões: dos zapatistas à guerra mundial em curso "contra os poderes que põem povo contra povo" - "mais baixo, banda, mais baixo", foi dizendo até a banda se silenciar, para que as palavras ressoassem com maior impacto.

Erykah Badu, rainha da chamada neo-soul, surgiu em palco como em concerto soul e hip hop clássico. Primeiro, DJ Rashid "Tumbling Dice" Smith foi mostrando clássicos de Busta Rhymes, Bob Marley, Michael Jackson ou White Stripes. Depois surgiu a banda - teclista, baterista, coros, flautista, guitarrista, baixista, percussionista - e, enquanto o groove se começava a entranhar, ei-la: o chapéu de aba larga sobre a cabeça e o casaco estampado que desapareceriam de cena mais à frente.

Erykah Badu (não) é alta, é 20 feet tall, diz a letra: assim arrancou o concerto, assim assomaria ela no final, depois de arrepiar a capella com um grão na voz e uma intensidade que a aproximou de Billie Holiday - era um excerto de Humble mumble, dos Outkast, era a glória da existência e a sombra da morte em canção. Em palco, improvisou batidas na caixa de ritmos a seu lado, trocando as voltas às canções e saltando de ambiente em ambiente sonoro, sempre acompanhada sem mácula pela banda - qual James Brown no Apollo, não podiam faltar os "take it to the bridge". Tocou On & on ou Appletree e que se mande às malvas a designação neo-soul. Isto é soul e hip hop de corpo inteiro, é música firmemente assente nas raízes comuns e abertas ao mundo presente.

No final, Erykah Badu haveria de descer até ao público, haveria de sorrir enquanto o público a erguia e ela, de sorriso aberto no rosto, flutuava sobre a multidão. Em todo o concerto, houve uma naturalidade desarmante nos gestos e no discurso. Nem um sinal do ritual mecanizado dos concertos das estrelas de massas - que ela é, mas Erykah Badu serve como excepção que confirma a regra. Voz da consciência, voz da história, voz que se representa a ela mesma, na sua luta cívica, no seu humanismo, na sua entrega total à música que representa - lembrando J Dilla, por exemplo, em Didn"t cha know -, Erykah Badu foi nada menos do que um sopro de liberdade, esperança e, acima de tudo, um portento musical.

O Hipódromo Manuel Possolo estava longe de esgotado, mas o público conhecedor do percurso da cantora em palco assistiu a um momento memorável. Lúdico para que o corpo ganhasse movimento, divagando para que o cérebro viajasse um pouco, assertivo nas palavras - do retrato frio das ruas abandonadas pelo Estado ao íntimo das relações - e, principalmente, repetimos, de uma liberdade nascida de um imenso talento e do desejo de fazer de um concerto uma experiência única. Estamos hoje mais ricos. Já vimos Erykah Badu.