A majestade dos filetes do Aleixo está ao alcance de todos os portugueses que andem de comboio

Foto

Estamos em Julho de 2012. É Verão e as coisas mudaram muito em Portugal.

Em Portugal gostamos dos peixes inteiros. Mas abrimos excepção para os filetes. Em restaurantes bons, os filetes, de boas pescadas, congeladas ou frescas, são pre-filetados e congelados, à espera de entrarem em acção.

No distrito de Lisboa, nos concelhos de Cascais e Sintra, os melhores filetes são os do Restaurante Beira-Mar (com excelsos arroz de berbigão e molho tártaro, mesmo ao lado da Lota de Cascais) e, nas Azenhas do Mar, em Nafarros e na Praia das Maçãs, na Lurdes, no Saraiva e no Neptuno.

No Neptuno, por exemplo, pode escolher-se primeiro a pescada inteira. Olha-se nos olhos e passa-se-lhe a mão pelo pêlo. Regista-se a dentição. Quanto mais maléfica for, mais marisco passou ao estreito.

Pede-se que se desmanche o peixe, à nossa frente, em filetes. E o grande cozinheiro, o senhor Paulo, trata de fritá-lo, no ponto, num polme paradisíaco que deixa as nossas línguas a lamber desalmadamente o ar.

E, contudo, em matéria de filetes, é a Casa Aleixo, perto da estação de comboios de Campanhã, que serve os melhores filetes não só de Portugal como do mundo. Diz-se erradamente das coisas muito boas que são incomparáveis. Não. São comparáveis. Qualquer filete de pescada se compara com os demais. Acontece que os do Aleixo são, comparativamente, os melhores de todos.

Jantámos lá na segunda-feira passada para confirmarmos o que já sabemos há décadas. Que deleite, santo Deus! Há ocasiões em que só estas exclamações serôdias servem para descrever o que que se provou.

A Maria João prefere - mesmo amando os de pescada - os filetes de polvo. Até tirámos a prova dos nove. Ela pede sempre meia dose de polvo e eu de pescada. Depois, gulosamente, pedimos mais duas meias doses e dividimos. Resultado: ela come três quartos de dose de polvo e eu três quartos de pescada. Eu fico contente com a divisão, porque os filetes de polvo são perfeitos e combinam perfeitamente com o arroz de polvo. Mas a Maria João, adorando os de pescada, chora sempre o meio filete de polvo que cedeu, dizendo "decididamente, gosto mais dos de polvo".

São estas diferenças de opinião, ligeiríssimas, que sustentam casamentos felizes. Ela é o polvo e eu sou o arroz de polvo, cheio do gosto dela. Eu acompanho-a. Fico bem com ela. Polvo é uma coisa e arroz de polvo é outra. Mas ser arroz de polvo é mais próximo e mais parecido, sendo diferente, do que um arroz branco.

O Aleixo tem também as melhores saladas, feitas a partir de uma alface a que chamam francesa, que ficam com uma frescura de fazer estalar os dedos e o céu da boca. O único defeito, para lisboetas salgados e avinagrados, é que confia de mais no excelente azeite.

O arroz que acompanha, cozido na água do mais cor-de-rosa dos moluscos ultra-inteligentes, é o arroz de polvo. É seco e saboroso, feito com perícia e pontaria, ao contrário dos desastres caldosos e malandrinhos que grassam pelo nosso país fora, como testemunho de quem não sabe medir a água com o arroz.

Os espanhóis podem bem celebrar os arrozes caudalosos, como os italianos preferem os arrozes maçudos mas molhados dos risottos.

Mas os portugueses, a bem ver e a bem saber, são o povo do arroz seco: do arroz seco de tomate, para acompanhar os jaquinzinhos fritos. Ou, no caso vertente, do Aleixo, do arroz de polvo sequinho, que sabe a polvo mas não molha a boca, pedindo salada, água fresca e vinho branco.