Vala comum no jardim do palácio do Governo de Timor-Leste

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A descoberta, no palácio, foi feita acidentalmente

Timorenses ou chineses mortos por indonésios? Vítimas da ocupação japonesa? Só com exames forenses se saberá de quem eram ossadas de 52 pessoas

Uma vala comum com ossadas de, pelo menos, 52 pessoas foi descoberta no jardim do palácio do Governo de Timor-Leste, em Díli. As investigações preliminares sugerem que os restos mortais não pertençam a timorenses. Várias possibilidades estão em aberto.

Inicialmente, no começo da semana passada, foram encontradas ossadas de 24 cadáveres, mas o número subiu nos últimos dias e não é certo que fique por aqui. "Até agora encontrámos 52 ossadas, mas só 11 estão completas", disse o superintendente Calisto Gonzaga, comandante do Serviço de Investigação Criminal de Timor-Leste, citado na terça-feira pela agência AFP.

A descoberta foi feita acidentalmente, por trabalhadores da construção civil que estavam a abrir roços para a canalização de um fontanário a instalar no jardim do edifício onde funciona o gabinete do primeiro-ministro, Xanana Gusmão.

Logo depois de encontradas as primeiras ossadas, Marito Reis, secretário de Estado dos Assuntos dos Veteranos, citado pelo jornal indonésio Jakarta Post, disse suspeitar que os restos mortais pertencessem a vítimas de um massacre em 1999, ano em que, num referendo organizado pelas Nações Unidas, os timorenses votaram esmagadoramente contra a integração na Indonésia e a favor da independência, proclamada em 2002.

Mas a análise preliminar das ossadas parece apontar noutras direcções. "Examinámos as cabeças e são muito grandes e alguns ossos são muito compridos. Em resumo, penso que não são timorenses", afirmou, segundo a agência francesa, Calisto Gonzaga.

O responsável pela investigação criminal em Timor-Leste afirmou também que as averiguações preliminares sugerem que as ossadas pudessem pertencer a pessoas mortas em 1975, e que o modo como os corpos foram enterrados indicia que tenham sido assassinadas.

É preciso investigar

Damien Kingsbury, académico australiano especializado em assuntos de Timor-Leste na Deakin University, disse que, se os ossos não forem de timorenses, é provável que sejam de chineses - uma comunidade presente em grande número aquando da invasão indonésia. "Quando os indonésios invadiram [o território] em 1975, [os chineses] foram um dos principais alvos dos militares indonésios", explicou. Citado pela AFP, Kingsbury acrescentou ainda que os indonésios não enterrariam os seus cidadãos em valas comuns e considerou pouco provável que os restos mortais encontrados em Díli sejam de portugueses.

Em 1975, a Indonésia invadiu a então colónia portuguesa, dando início a 24 anos de ocupação, durante os quais se calcula que tenham sido mortas cerca de 200 mil pessoas, devido à violência e privações de todo o tipo.

O leque de hipóteses sobre a origem das ossadas foi alargado pelo comandante-geral da Polícia Nacional de Timor-Leste, comissário Longuinhos Monteiro. "Podem ser da ocupação japonesa, mas não sabemos, temos de esperar pela informação dos peritos", disse, numa declaração divulgada ontem pela agência Lusa. O território foi ocupado pelo Japão entre 1942 e 1945, durante a II Guerra Mundial.

As autoridades criminais do país vão esperar pela deslocação a Timor, prevista para Julho, de um antropólogo forense australiano que vai trabalhar na identificação da origem das ossadas. Só depois disso divulgarão novas informações.