Thomas Peter/Reuters
Foto
Thomas Peter/Reuters

Megafone

As galdérias (também) marcham

Esta marcha não é só para quem se identifica como "slut", galdéria, puta, fácil, badalhoca. É para quem se identifica com a luta contra a discriminação e violência de sexo e género, contra a culpabilização das vítimas dessa violência

Sou activista. Sou feminista.

No ano passado, um polícia de Toronto aconselhou um grupo de mulheres a não se vestirem de forma “slutty” para não serem violadas. A consternação que isso gerou resultou em muitas SlutWalks por todo o mundo. Eu estive na de Lisboa, com muitas outras pessoas — mulheres, homens, e não só — de várias nacionalidades, etnias, raças, religiões e configurações corporais, e este ano marcharemos pela segunda vez.

Há quem diga que “puta”, “galdéria”, “fácil” e “desavergonhada” (possíveis traduções para a palavra "slut") são e serão sempre insultos. Sim, são insultos: vindos de quem acha que tem o direito de julgar a forma como as mulheres andam vestidas, de as culpabilizar pela forma como se comportam, de quem acredita realmente que se as mulheres se vestirem desta ou daquela maneira vão deixar de ser violadas.

Só que as palavras (e os seus significados) não são escritas em pedra. As palavras são fluidas. E se há uma coisa que os movimentos LGBT nos têm ensinado ao longo dos anos, é que os insultos podem ser reapropriados. “Gay” e “queer” são talvez os dois exemplos mais famosos: insultos reapropriados, palavras para as quais se construíram novos significados.

As galdérias fazem o mesmo. Se uma mulher é chamada de “galdéria” por usar mini-saia, pintar os lábios ou até mesmo por querer fazer sexo com uma pessoa mas não com outra, então “galdéria” não descreve realmente nada. Invertamos então os factores: se eu me chamar a mim mesmo “galdéria” por afirmar a minha auto-determinação como pessoa com um corpo que é meu, ou por considerar que tenho o direito a vestir-me das mais variadas formas sem ser alvo de agressão por isso – continuo sem descrever um comportamento objectivo, mas transformei o insulto em orgulho.

Operação por frustração: se aquilo com que me querem insultar é motivo de orgulho, como é que o insulto me insulta?

Agora, uma importante ressalva: não é com um passe de mágica que os insultos deixam de magoar. Não é por haver esta reapropriação que os insultos deixam de pretender magoar. E é essa pretensão que tem que acabar, porque ser-se "slut" (na nossa acepção) não tem nada de mal. Ao mesmo tempo, convém não esquecer que nem todas as pessoas são insultadas desta maneira, ou têm a liberdade de conseguir responder desta forma. Reconheço, como homem branco de classe média e educação superior, que estou a falar a partir de uma posição privilegiada. E que quem marcha ao meu lado também poderá ter parte dessas posições, ou outras — ao mesmo tempo que também tem muitíssimas posições de falta de privilégio.

Por isso, esta marcha não é só para quem se identifica como "slut", galdéria, puta, fácil, badalhoca. É para quem se identifica com a luta contra a discriminação e violência de sexo e género, contra a culpabilização das vítimas dessa violência. Esta marcha é para quem acha que as mulheres, os homens, e as pessoas de outros géneros devem ter a liberdade de ser "sluts".

Porque "não" é "não" e, se/quando for “sim”, avisamos.