Opinião

O meu pai, Portugal e o Euro (II)

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1. A “Europa do futebol” rendeu-se à selecção portuguesa. A “Europa do futebol” é uma realidade bem específica para os comentadores futebolísticos, mas tem o seu significado. Exprime um recorte do continente, a partir da organização, regulamentação e cultura do futebol.

Há uma “Europa do futebol”, mas há outras Europas e há países que não se revêem totalmente naquela. O que os portugueses querem conquistar, para usar a terminologia de Alexandre Mestre Picanço ou de um dos seus patronos, Miguel Relvas, é esta “Europa do futebol”. Claro que atribuem a essa conquista valores que a mesma não tem para oferecer. Paulo Bento foi bem mais realista. Salientou que o futebol “é uma das poucas actividades” em que Portugal pode competir com a Alemanha e que “um bom resultado” poderá animar o país. “Não poderá resolver os problemas do nosso país, mas poderá pelo menos camuflar esses problemas”.

O que tem demonstrado essa Europa comandada pela UEFA?

2.

Bem cedo se viu que essa “Europa” e a UEFA estavam preocupados com valores. Na Ucrânia procedeu-se a um extermínio de animais abandonados, para “limpar as ruas” das cidades do Euro 2012. Chegou-se a falar em envenenamento, em tiro e mesmo em incineração de animais vivos. Tudo para, da “Europa do futebol”, preservar a imagem do país. O que interessa à UEFA é que a organização dê lucros. A este terror, acresce a formação de prostitutas para “receberem”, dir-se-ia condignamente, os adeptos estrangeiros, num claro fomento e acréscimo do turismo sexual.

3.

Quando a bola começou a rolar, sucederam-se as manifestações antidesportivas, com realce para a violência e o racismo. Sem pretender ser exaustivo, indiquem-se algumas dessas situações.

Ainda em treino, em Cracóvia, os holandeses denunciaram ter sido vítimas de espectadores que gritaram sons, imitando macacos, dirigidos aos jogadores negros dessa selecção. Aquando do primeiro jogo da selecção russa, frente à Rep. Checa, “houve deflagração de artefactos pirotécnicos durante a partida, assim como exibição de “símbolos ilícitos”, nomeadamente faixas e bandeiras com alusões ao “Império Russo”, que podem ser encaradas como provocação numa parte da Europa que esteve sob domínio de Moscovo”. Por isso, a Federação Russa veio a ser punida.

4.

À margem do jogo Polónia-Rússia, registaram-se incidentes entre adeptos polacos e russos, que levaram à detenção de 184. E mais cânticos racistas, dirigidos a Balotelli e Gebre Selassie.

É claro que nada disso se passa em Portugal, onde Miguel Relvas, responsável (?) governamental pelo desporto (?), o nega axiologicamente, não obstante o castigo aplicado pela UEFA ao FC do Porto. Os europeus têm é inveja de não termos racismo no futebol.

5.

Como se não bastassem estes episódios da “Europa do futebol”, o Euro 2012 reavivou –

nas palavras de Cassano

– o fantasma dos homossexuais, seres incapacitados para a prática desportiva. E, por fim (?), não faltou a publicidade a casas de apostas –

no elástico das cuecas de Bendtner

– e ainda o castigo aplicado ao guarda-redes sueco: “Johan Wilan perdeu um jogo, onde não podia deixar cair a bola, e os restantes jogadores decidiram aplicar um castigo, onde foi obrigado a baixar os calções. Depois, internacionais suecos começaram a rematar contra o rabo do guardião.”

6.

Eis a “Europa do futebol” no seu melhor. Prenhe de valores a transmitir aos mais novos. Plena de ética desportiva.

7.

O meu pai, esse, não perde “pitada”, também na esperança (eu sei) de que Ronaldo não ganhe vantagem sobre o seu Messi.

José Manuel Meirim é professor de Direito do Desporto

josemeirim@gmail.com