Torne-se perito

Experimentação e júbilo de António Palolo

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RUI GAUDÊNCIO

Na Culturgest de Lisboa, uma exposição procura tornar finalmente visível o trabalho em película de António Palolo.

Exploram as formas geométricas e o corpo humano, a luz e a cor. E são o resultado de um pensamento abstracto e fascinante sobre a matéria. Na Culturgest, em Lisboa, numa exposição tranquila, os filmes de António Palolo revelam-se de novo. Em busca da recepção crítica e do público que merecem.

No fim de uma conversa com os jornalistas sobre António Palolo - Os Filmes, Miguel Wandschneider resume um desejo: "Que estes trabalhos se inscrevam, de uma vez por todas, na obra do artista e na história da arte portuguesa. Porque são excepcionais". O comissário e programador fala dos 12 filmes de António Palolo (Évora, 1946 - Lisboa, 2000) que iluminam as duas galerias da Culturgest e somos tentados a concordar. Produzidos entre os finais dos anos 1960 e 1978, merecem pela experimentação, pela liberdade criativa, enfim, pela beleza, semelhante consideração.

Reconhecido pelos pares e pela crítica (que lhe atribuiu, em 1969, a Menção Honrosa do Prémio Soquil), Palolo começara, como outros artistas (pensamos em Ângelo de Sousa), a trabalhar com a película e a câmara. Desse período inicial, descobrem-se três animações a preto e branco, ainda feitas em 8mm, que revelam a influência do filme Dada (através da fotomontagem) e alusões à arte pop. "Combinam formas geométricas e elementos figurativos de imagens fotográficas retiradas de revistas e jornais", acrescenta o comissário. "Podemos observar uma fragmentação, uma permanente composição e recomposição do corpo humano. E uma alternância entre formas geométricas e figurativas. Cubos, rectângulos, discos ópticos, imagens de mulheres e homens, a Vénus de Milo ou a de Botticelli".

Nesta fase ainda é possível estabelecer afinidades com a pintura neo-figurativa do artista (que, entre 1968 e 1971, também articulava referências pop num estilo aberto à figuração e à abstração), mas a partir dos anos 1970 o filme segue outros caminhos. "Não há qualquer relação, nem sequer remota, pese embora a qualidade pictóricas das obras. Há sim uma vontade de experimentar com uma extraordinária e fecunda imaginação pessoal. É uma experimentação consequente, que vale por si só, que leva a resultados espantosos". E os resultados apontam para uma pesquisa que António Paolo não podia fazer com os instrumentos da pintura: uma pesquisa em torno da luz, da cor, do movimento sobre a película do filme.

Desfocagens e recomposições

A partir de 1970-71, Palolo passa a usar exclusivamente o Super-8 e realiza Drawings, coregrafia de desenhos, linhas e vibrações produzida com uma simples técnica artesanal: riscar sobre a pelicula revelada. Essa abordagem à materialidade do filme, para produzir imagens, reencontra-se em Lights: uma sucessão de efeitos visuais e ópticos que explode lenta e silenciosamente, fruto da manipulação da luz e da câmara. Refracções, reflexos, desfocagens, captação imaginativa de diferentes fontes de luz. Procedimentos que compõem um mundo de imagens e de experiências de imagens. Aqui o filme abstracto, ao contrário do que temia Theodor W. Adorno, não rejeita ou desvaloriza o carácter "fotográfico" do filme.

O mesmo jogo com a luz prossegue na primeira parte de outro filme, este com datação incerta (cerca de 1972-1976), onde se vislumbra a luz de um candeeiro, o sol numa paisagem, ou a luz que entra pela janela. Por vezes percebe-se que Palolo expôs a película à luz ou que esta se abriu ao espectro cromático. E a experiência com o movimento também está presente, no modo como manipula as imagens das ondas e das nuvens. Já a segunda parte retoma a articulação entre a figura humana e formas geométricas dos primeiros filmes. Uma sucessão de imagens da arte e da cultura pop desfilam num ritmo menos fabril do que o das abstracções: a Marilyn Monroe e a Liz Taylor de Andy Warhol, Greta Garbo, o casal Roman Polanski/Sharon Tate, pinturas de Magritte, Ed Ruscha ou Tom Wesselman, uma fotografia de Hitler. Não há hierarquias, apenas, parafraseando, Roy Lichtenstein, recomposições. Duas conclusões podem contudo ser retiradas: António Palolo - que aparece no princípio do filme, reflectido num espelho, e no fim, envolvido num peculiar ritual - estava em sintonia com uma certa cultura hippie e psicadélica da época e lidava, sobretudo, com a versão internacional da cultura pop (o que explica a ausência de referências locais). E nesse auto-retrato, nessa aparição, sublinha Miguel Wandschneider, "afirma a sua identificação com as imagens. Como se estivesse a fazer uma narração na primeira pessoa".

Um património invisível

Com o aproximar do final da década, os filmes de António Palolo passam, nas palavras do comissário, "a formar um pensamento de raiz esotérica sobre a mente, o universo e o mundo fenomenológico". Um pequeno filme assinala, ainda sem apagar o fascínio com a luz, essa passagem: os movimentos de um líquido, talvez tinta, desenham uma forma circular que lembra a criação de uma célula ou de uma galáxia. A analogia com uma sequência "abstracta" de um filme de 1967 é irresistível. Falamos das espirais do café em Duas Ou Três Coisas Sobre Ela, de Jean-Luc Godard, que servem ao cineasta para, entre o texto e a imagem, ensaiar uma reflexão metafísica sobre a sociedade de consumo, a linguagem e o mundo.

Mas os interesses de António Palolo são, diríamos assim, mais cósmicos. Num filme, vemos imagens de fogo sobrepostas a imagens de planetas e constelações, e em OM (1977-1978) uma sucessão de cores, luzes e matérias cuja metáfora pode ser o mistério do cosmos ou do infinito. Produzido com o recurso a uma mistura de tintas (portanto com a matéria), teve o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e é o trabalho mais comprido dos 12 escolhidos pelo comissário (tem a duração de uma hora). Pede uma fruição demorada, como aliás toda a exposição.

Com efeito, o espectador é convidado a sentar-se e a dramaturgia encenada pela montagem sustenta-se em dois ou três filmes por sala. "Tive a preocupação de não tornar esta exposição um espetáculo de variedades ou circense", assinala Miguel Wandschneider. "Porque podia imaginar uma sala com quatro filmes. Excluí filmes que gostaria de ter incluído, mas houve a preocupação de fazer uma montagem muito sossegada. Quis que houvesse uma experiencia de cada filme e não uma experiencia de distracção".

Embora Miguel Wandschneider não tenha chegado a tempo de obter mais informação sobre as motivações e as influências de António Paolo (até que ponto estaria a par, por exemplo, do cinema experimental americano?), não tem dúvidas: "[Os filmes] são importantes até no contexto internacional por comparação com outros artistas". Depois da sua revelação em Novembro de 2000, no projeto SlowMotion da ESAD, nas Caldas da Rainha (comissariado pelo próprio Wandschneider), conheceram outras aparições: foram apresentados na exposição da colecção do CAM, entre 2000 e 2007, e OM figurou na mostra que Raquel Henriques da Silva dedicou, também no CAM, à produção artística portuguesa nos anos 1970. Mas a sua inscrição na arte e na cultura portuguesa continua por fazer. "Permanecem invisíveis no real. Não é minha intenção fazer uma patrimonização destes filmes. Nem discuto o seu valor. Como escrevo no jornal da exposição, são um exemplo de uma experimentação jubilatória".

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