Aparelho vai observar o "lado negro" do Universo

Portugueses vão participar no telescópio espacial Euclides

Visão artística do telescópio espacial Euclides
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Visão artística do telescópio espacial Euclides C. Carreau/Agência Espacial Europeia

O financiamento para o telescópio espacial Euclides foi aprovado, esta terça-feira, pela Agência Espacial Europeia (ESA). Várias instituições portuguesas também participam no telescópio, que vai ser lançado em 2020, para procurar nas profundezas do Universo sinais da matéria negra e da energia negra.

No total, a construção, o lançamento e operação do Euclides custará mais de 600 milhões de euros, 125 milhões dos quais provêem dos Estados-membros da ESA. A agência espacial norte-americana NASA também participa no telescópio, com a construção de uma câmara de infravermelhos, o que representa 5% do investimento no projecto.

“Este projecto é uma aposta excelente para cooperação científica que abre óptimas perspectivas para Portugal. Põe-nos dentro de um dos projectos de investigação mais importantes dos próximos anos a um custo mínimo", diz ao PÚBLICO António da Silva, do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP) e um dos coordenadores portugueses do telescópio espacial.

Além do CAUP, a coordenação portuguesa cabe ainda ao Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa (CAAUL), mas, ao todo, estão envolvidas seis entidades portuguesas, entre as quais o Instituto Superior Técnico, em Lisboa, que irá desenvolver um software para análise de dados. “Neste momento, Portugal irá participar somente com recursos humanos qualificados, a financiar pelos vias normais de financiamento competitivo”, explicou António da Silva, acrescentando que os únicos custos serão os dos investigadores, mas que no futuro esta participação abre a possibilidade de explorarmos contribuições tecnológicas.

Aguarda-se a aprovação das verbas para colaboração portuguesa por parte da Fundação para Ciência e Tecnologia, a principal entidade financiadora do sistema científico português. No futuro, caso sejam necessários mais investigadores, “essas vagas irão a concurso público para investigação, como todos os projectos de investigação nacionais”, especificou ainda António da Silva.

Os investigadores portugueses estão entre os mil cientistas, de 100 institutos, que vão participar na construção do telescópio espacial, para tentar responder uma das questões mais importantes da cosmologia moderna: por que é que o Universo está a expandir-se a um ritmo acelerado, em vez de abrandar devido à atracção gravitacional de toda a matéria que contém? Uma energia misteriosa, designada por energia escura, está a provocar a sua expansão cada vez mais rápida. “O tamanho da equipa mostra o grande interesse na ciência do Euclides”, sublinha, por sua vez, Ismael Tereno, do CAAUL, citado num comunicado.

O Euclides terá um diâmetro de 1,2 metros e, além da cãmara de infravermelhos, terá outra para observar comprimentos de onda na luz visível. Em conjunto, estes instrumentos farão o mapeamento tridimensional da distribuição das galáxias. Os grandes espaços vazios que existem entre astros ou galáxias podem ser usados como referência para medir a expansão do Universo ao longo do tempo.

O telescópio irá fazer um levantamento de 40% do céu com um pormenor sem precedentes, o que permitirá aos astrofísicos detectar cerca de 2000 milhões de galáxias. Estas observações servirão para ver o que aconteceu nos últimos 10.000 milhões de anos no Universo, que tem 13.700 milhões de anos: irá estudar-se não só a evolução da energia escura, mas também a distribuição da não menos enigmática matéria escura, matéria que ninguém conhece a sua natureza, mas se sabe existir pelos efeitos gravitacionais que provoca nos objectos à sua volta e nas galáxias.

Notícia alterada às 09h17 do dia 21 de Junho:

Melhor clarificação quanto ao financiamento do processo.