O Jardim Botânico de Lisboa está de volta à cidade

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O espaço estava cada vez mais degradado, pondo em causa a sua própria identidade, diz a responsável José Fernandes

Quem chega à Rua da Escola Politécnica, entre o Rato e o Príncipe Real, sabe que está prestes a encontrar um sítio que foge aos padrões da movimentada cidade de Lisboa. “Cria-se uma espécie de uma bolha neste jardim”, diz Ireneia Melo, investigadora principal do Jardim Botânico de Lisboa. E essa bolha surge não só pela descida de temperatura que se faz sentir, mas também pelo ar idílico que se impõe.

A investigadora tem uma paixão por esta “mancha verde lisboeta”. Desde 1964 que o Jardim Botânico é a sua casa. Entrou para lá nos tempos de estudante e viu a sua carreira crescer naquele espaço. “Fui tarefeira, auxiliar de naturalista, naturalista, investigadora auxiliar e investigadora principal”. Recorda-se de todos os dias que o jardim viveu e sabe de cor os seus altos e baixos. “É preciso muita dedicação e quase um milagre para o manter”, comenta.

O jardim acolhe plantas e árvores de todo o mundo. Ao longo dos quatro hectares é possível encontrar um pouco dos cinco continentes. “Para mim há aqui uma colecção extraordinária”, refere Ireneia Melo. “As pessoas vêm aqui para ver alguma coisa de exótico. Vêm ver como as plantas de adaptam aos vários ecossistemas. E depois vêm ouvir o silêncio”, salienta.

E é essa calma que acaba por atrair os visitantes. Por ano, este espaço acolhe cerca de 75 mil pessoas. “Somos sobretudo visitados por grupos de crianças, alunos de Belas Artes e turistas. Os portugueses não visitam tanto, mas são os que mais criticam”, comenta a investigadora, referindo-se às polémicas sobre a recuperação deste espaço verde.

Durante os últimos anos, o Jardim Botânico tem sido alvo de críticas. A falta de financiamento reflectia-se na pouca manutenção e também na vigilância. O espaço estava “cada vez mais degradado”, pondo em causa a sua própria identidade. Mas desta vez, segundo Ireneia Melo, as mudanças foram poucas. “As coisas estão conservadas e mais limpas. Os arruamentos principais foram nivelados, colocou-se areão, taparam-se buracos, pintaram-se os bancos e arranjaram-se as pontes. Agora até há a possibilidade de ouvir a água a correr, o que não que não acontecia há mais de dez anos”, devido à impermeabilização do lago principal.

Jacinto Leite, responsável pelas obras, afirma que “a base de saibro [areia argilosa] estava destruída e só se encontravam pedras”. Foi necessária uma limpeza e a recuperação do aspecto original com material da mesma base, mas enriquecido com argamassas [mistura feita com areia, água, cimento, cal ou gesso]. “Não fizemos uma mudança significativa”, acrescenta. “Reabilitámos os regatos com alguns materiais mais recentes e que lhes deram um suporte melhor para que a pressão da água não perfurasse”.

De forma a monitorizar a humidade do solo, Catarina Silva e Albino Medeiros, ambos professores na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, desenvolveram, há cerca de um ano, um estudo hidrogeológico. Este estudo levou à instalação de vários piezómetros que permitem medir a quantidade de água do terreno.

Concluídas as obras, o espaço da Escola Politécnica apresenta-se da cara renovada, mas continua a ser o que sempre foi, um jardim botânico. “As pessoas têm que pensar que um jardim botânico não é um jardim de um hotel, onde só tem que ter flores bonitas, onde não pode haver uma ervinha fora do canteiro… No jardim botânico tem que haver tudo”, reforça Ireneia Melo.

Fundado em 1878, o Jardim Botânico de Lisboa foi construído com um programa de ensino universitário de botânica e para investigação. Mas, para Ireneia Melo, “este jardim tem que ser visto como um museu e não apenas como um espaço de lazer, porque ele é muito frágil. As pessoas têm que respeitar este espaço como um espaço próprio, de silêncio”. Afinal, “tudo fica na memória das plantas”, declara.

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