Festas populares

Os últimos dias dos tronos de Santo António

A receita: uma caixa de cartão, um napperon, um prato para o tostão, as velas, uma jarra de flores e o santo
Foto
A receita: uma caixa de cartão, um napperon, um prato para o tostão, as velas, uma jarra de flores e o santo Daniel Rocha

Do tamanho de uma caixa de sapatos ou tão grandes como a imaginação, os tronos de Santo António são hoje uma tradição quase extinta. É um costume que vive em memórias e arquivos.

Caminhando pela Alfama dos anos 1950, Maria de Portugal rendeu-se aos tronos de Santo António. Ao santo há muito que se havia rendido. É de lá que fala. O seu olhar ficou preso "nos miúdos que faziam tronos à porta de casa com bancos e a imagem do santo".

A antiga presidente da Associação de Artesãos de Lisboa, hoje com 94 anos, facilmente se perde no seu álbum de recordações. O Concurso de Tronos de Santo António conheceu forma pela primeira vez em 1982, ano em que Maria de Portugal fundou a associação. O objectivo era "preservar tradições que não se devem perder". Em Junho celebra-se o santo, mas o famoso "um tostãozinho para o Santo António" do Pátio das Cantigas já se começava a ouvir em Maio pela Lisboa dos manjericos. A frase ficou. Os tronos são hoje mais difíceis de encontrar.

Alfama parece esquecida. Muitas portas e algumas perguntas depois, no número 34 da Rua da Regueira, Margarida Almeida confirma que esta tradição não era só enredo de filmes. "Na minha criação, todos fazíamos. Faziam-se os tronos consoante o jeito e as possibilidades." E acrescenta: "Os que dizem que não se lembram é porque têm vergonha de dizer que pediam."

A dona da mercearia explica que tinha sempre "um banquinho à porta, com uma gaveta para o tostão, em que punha um napperon todos os dias limpinho". O marido, Augusto, assente e até traz um banco da mercearia para exemplificar.

A saudade daquele tempo está-lhes estampada no rosto. Dizem que na mesma Alfama que não envelhece "está tudo a morrer, o bairrismo está a morrer. Só temos uma marcha que é uma doença".

Os tronos, que na origem eram réplica do altar da Igreja de Santo António, ficaram presos "ao engodo do dinheiro, agora anda-se de lata na mão [a pedir para o santo]", contam. Alfama, que em nova "vestiu a blusa clarinha", veste o velho, o novo e o usado, sempre bordado com linhas de recordações. E pelos "becos, escadinhas, ruas estreitinhas" enxerga-se o medo a quem não se conhece.

Com a promessa de que ao final da tarde muita gente lá estaria, o largo do chafariz de dentro está deserto, mas na padaria, quando se ouve falar em tronos de Santo António, as vozes levantam-se. Dulce é a primeira a falar. Do Santo António só sabe o "responso" que lhe reza quando alguma coisa precisa de encontrar: "Gosto muito dele, agora trono? Isso nunca fiz", conta.

Todos riem e é Maria Hermínia quem leva o assunto num tom mais sério e recorda: "Pedia um tostãozinho ao Santo António para comprar uns sapatinhos." Uma voz apressada interrompe: "Eu e os meus irmãos gastávamos tudo em doces e guloseimas. O meu pai não gostava, assim que ele chegava fugíamos todos para casa." A crise chegou ao santo e, por isso, em Alfama, "vêem-se muitos retiros para vender sardinhas. Santo nem vê-lo", diz Fátima Brito, funcionária da padaria. E "este ano ainda vai ser pior", acrescenta.

Fim da tradição

Os tronos eram por vezes obra de muitos. Os pátios reuniam-se para a construção dos tronos com o apoio das colectividades do bairro. Os concursos promovidos por jornais como o Diário Popular e pela autarquia de Lisboa, com direito até a prémio pecuniário, funcionavam como incentivo.

Talvez por isso, o mais célebre trono de Alfama seja o da Rua dos Corvos, elaborado com o apoio do Corvense, uma das colectividades do bairro. Jorge Antunes foi um dos últimos envolvidos na construção do trono e não é fácil convencê-lo a falar sobre o tema: "Alguns dos tronos do Corvense correram o mundo", diz. E conta que chegou a fazer "uma réplica da Igreja de Santo António com o seu altar-mor", ou a "representação do Sermão de Santo António aos Peixes", entre outros.

Os materiais que utilizava eram, essencialmente, madeira, esferovite, plástico, papel autocolante de várias cores e tempo. Muito tempo. "Todas as horas livres, até as de almoço, eram para trabalhar no trono. Contava também com a ajuda da minha mulher." No Adicense, a outra colectividade do bairro, mantém-se a tradição, embora, como reconhece o presidente, os tronos que ali se constroem sejam "menos elaborados" do que os da concorrência. Noutros bairros de Lisboa também existiu este costume. Contam-se entre eles a Mouraria, a Lapa e a Bica.

Foram, aliás, os tronos de Santo António que em 1989 "ajudaram ao ressurgimento do Sport Lisboa Marítimo", explica Fernando Duarte, o homem dos tronos desta colectividade do bairro da Bica. Ali não havia a tradição dos tronos mais pequenos, mas até meados dos anos 1990 conseguiram vários prémios no concurso promovido pela Câmara de Lisboa. Fernando parece estar resignado com o facto de esta tradição, que ainda não está morta, estar moribunda. No entanto, acredita que, se voltarem a existir "financiamentos e com o apoio da autarquia", se pode recuperar este uso, já que o maior problema "é que, ao contrário dos arraiais, por exemplo, este é um investimento sem retorno".

Da mesma opinião partilha Manuela Alegre. Contudo, e a provar que o que se joga aqui é a imaginação, mostra um pequeno trono de Santo António, erguido todo o ano no cimo de um móvel, no seu local de trabalho, a Voz do Operário. Fica a receita: uma caixa de cartão vestida de alegres cores, um napperon ou uma colcha, um prato para o tostão, as velas, uma jarrinha de flores e, por último, o santo.

Três séculos e muitos tronos depois, esta tradição parece estar a conhecer aqueles que são os seus últimos dias. Pedro Moreira, director do departamento de gestão cultural da EGEAC-Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural, tutelada pela câmara, afirma que "nos últimos oito anos, os tronos de Santo António nunca foram do acometimento e missão desta empresa municipal". Muito embora a EGEAC seja responsável pela programação das Festas de Lisboa e tenha por missão "criar uma personalidade cultural única e distintiva para a cidade de Lisboa", o dirigente acredita que a "continuidade desta tradição dependerá de uma maior adesão da comunidade local e muito em particular das instituições comerciais e do associativismo", e admite que esta prática "tem sido algo esquecida no panorama cultural de Lisboa."

Maria de Portugal, por seu turno, manteve até ao fim a sua missão. Embora nos últimos anos os tronos a concurso "não tenham sido o que eram", organizou em Junho do ano passado, quando ainda presidia a Associação de Artesãos de Lisboa, mais uma edição do Concurso de Tronos de Santo António e relembra que "há tradições que não se devem perder." Quem também acredita na tradição é A Vida Portuguesa, então designada Uma Casa Portuguesa, que criou em 2006 um kit para se montar um altar popular em casa.

Até 15 de Junho podem ver-se os tronos a concurso, nas instalações da associação, hoje presidida por Manuela Castro.

Uma velha tradição

A tradição dos tronos de Santo António remonta já ao século XVIII. Terá começado após o terramoto de 1755, quando a igreja daquele que no século XVI se tornou o santo nacional português ficou parcialmente destruída. Particularmente querido dos lisboetas, que o preferem ao santo padroeiro da cidade, S. Vicente, Santo António não podia ficar sem casa. Daí a necessidade de se pedir "um milreizinho para o Santo António" e arrecadar fundos a fim de reconstruir a igreja. Santo António de Lisboa e de Pádua nasceu Fernando de Bulhões em 1195, próximo da Sé de Lisboa, no sítio em que, no século XV, D. João II erigiu a sua igreja. Tornou-se frade franciscano em Coimbra e terá partido para Pádua a convite de Francisco de Assis, onde acabou por falecer a 13 de Junho de 1231.