Crítica

Olha o robô

O regresso de Ridley Scott ao universo de "Alien" é um objecto preso entre ser “outra coisa” e ser “mais do mesmo”, tão calculista como sedutor

David, chama-se o robô que vela pela tripulação da nave interestelar Prometheus, fretada em 2093 por um milionário visionário para uma escavação arqueológica a uma lua distante onde a vida humana pode ter começado. David, o robô, é a súmula da técnica e da cultura da civilização humana numa “embalagem” sem alma - ou que substitui a alma por uma aproximação mecânica e calculista. Prometheus, o muito aguardado regresso do britânico Ridley Scott ao universo futurista onde assinou as suas obras de referência (Alien - O Oitavo Passageiro, 1979, e Blade Runner - Perigo Iminente, 1982), é um filme à imagem de David: um objecto que resume em si meio século de cinema fantástico e de ficção científica, que amalgama uma série de referências imediatamente reconhecíveis numa “embalagem” vistosa, mas que tem uma agenda secreta como o seu robô.


Em todos os materiais de imprensa, Scott fez sempre questão de dizer que Prometheus não era uma “prequela” de Alien mas sim a pedra basilar de uma “mitologia” diferente tangencial àquele seminal filme. Claro que ninguém acreditou. E a esquizofrenia de Prometheus é essa: a de querer ser “outra coisa”, partindo do alienígena ossificado que a tripulação de Alien encontra no princípio do filme, quando na prática o que todos esperam é que seja a tal “prequela” que explique a origem do monstro indestrutível. A inteligência do guião (revisto por Damon Lindelof, cúmplice de J. J. Abrams e showrunner de Perdidos) está nessa “outra coisa”: Prometheus questiona a própria necessidade de questionamento, a sede de conhecimento, pergunta até onde iríamos em nome da ciência. E, nesse processo, consegue recuperar a inquietação primordial do desconhecido, o terror de uma solidão existencial confrontada com a imensidão de um universo onde, literalmente, não somos nada. Essa sensação de ter aberto a “caixinha de Pandora” - que só a espaços o cinema de terror conseguiu recuperar nos últimos 30 anos - é capturada extraordinariamente num par de sequências de antologia e numa metódica construção narrativa que nos impedem de descartar Prometheus como filme “apenas” oportunista.

Mas contra essa inteligência de usar a própria releitura do imaginário de Alien como fonte criativa, surge a necessidade de cumprir a agenda do blockbuster de verão - e vá de um “terceiro acto” que encadeia som e fúria um pouco sem rei nem roque, como quem cede a exigências de mercado admitindo que os tempos mudaram e a economia tensa do “velho” Alien já não tem lugar hoje em dia. Se é verdade que não é possível “regressar a casa” (o próprio filme o admite), Prometheus não deixa de ser um honroso substituto, sendo (de longe) o menos “amaneirado” dos filmes de Scott nos últimos anos, e um filme com mais cabeça e mais ideias do que a maior parte das propostas dos estúdios americanos nos últimos anos. Podemos vê-lo apenas como uma variação engenhosa e metafísica sobre o slasher movie (e Sigourney Weaver nos quatro Alien não era senão uma variação sobre a “última rapariga”), ou como uma meditação majestosa sobre os riscos da curiosidade infindável da ciência. Seja qual for a resposta, Prometheus tem tanto de grandioso como de mecânico, de inteligente como de cínico, de sedutor como de calculista. Como o seu robô que emula Peter O''Toole.