Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Megafone

Vítor Gaspar: entre o réptil e a máquina

Vítor Gaspar pode bem ser a versão humanóide da HAL 9000, essa célebre máquina do filme 2001 - Odisseia no Espaço. Um dia podemos ouvir algo como “this mission is too important for me to allow you to jeopardize it”

Todos os governantes parecem medíocres quando um país inteiro caminha para o abismo.

Mas em Portugal há casos excepcionais. Vítor Gaspar parece excepcional porque possui a aura de competência que Pedro Passos Coelho não tem e que Miguel Relvas nunca alcançará (sobretudo agora). Se à partida o ministro das finanças foi elogiado pelo currículo e criticado pela forma como comunica, actualmente acontece o oposto. Esta complexidade na avaliação esbarra com o perfil simplista de Vítor Gaspar.

Mas é esta simplicidade atípica e aparente que pode trazer a pergunta, Vítor Gaspar faz parte da classe política? Afinal, é um dos principais responsáveis para que todos os dias fiquemos mais pobres.

Será a coragem de transportar a pasta que arde que faz a crença? Será exactamente pela forma como comunica?

Depois de Cavaco Silva ter dito que não era um político profissional e que não dependia da política para viver, e mais recentemente também ter dito que o seu salário de político (que não merece, porque não sendo profissional será certamente um amador) não era suficiente para os gastos; e depois de Fernando Nobre se ter colocado no papel de candidato não-político (porque nenhum partido político lhe servia) e mais tarde ter negociado com os partidos, surgiram naturalmente dúvidas sobre se Vítor Gaspar será também um ministro das finanças não-político?

Nos tempos que correm parece que a resposta afirmativa só lhe atribuiria valor. Mas não. Vítor Gaspar é um político dos melhores. Como sabemos? Precisamente através da sua comunicação. Se esquecermos as palavras não ditas e a retórica, é possível encontrar afirmações que esclarecem.

Vejamos, em 17/10/2011, em entrevista à RTP, o Ministro das Finanças alertou-nos que despedir no actual contexto “100 mil funcionários públicos não seria descabido”. Nessa mesma entrevista ficámos também a saber que os despedimentos só não se concretizaram porque com “a rescisão amigável seria preciso pagar compensações e o efeito imediato não existiria.”

Esta foi a entrevista mais reveladora que o Ministro deu até à data e que permitiu confirmar, que muitos dos políticos de hoje se caracterizam pela ausência de sistema límbico. É precisamente esta lacuna, no que toca à demonstração de sentimentos e afectos, que os coloca ao nível dos répteis.

Mas Vítor Gaspar é um político distinto e, por isso mesmo, as comparações devem ser exaustivas.

Analisando a forma como comunica, vemos que utiliza um discurso sempre pausado e sem espinhas, como dói mais. A inexpressividade está lá e o tom monocórdico também. Tudo leva a crer que estamos perante algo maior.

Vítor Gaspar pode bem ser a versão humanóide da HAL 9000, essa célebre máquina de inteligência artificial do filme 2001 - Odisseia no Espaço.

Sobretudo se tivermos em conta a forma como a máquina diz aos astronautas que eles não são capazes de levar a operação a cabo, que não podem colocar a operação em risco, que o erro é humano que a ela não erra e não distorce a informação. Um dia podemos ouvir do ministro algo como “this mission is too important for me to allow you to jeopardize it”.

No filme, o único sobrevivente da tripulação acabou por desactivar a HAL enquanto a máquina o enchia de falsos perdões como “I can assure you now, very confidently, that it's going to be all right again”.

E é precisamente este final que nos conforta. O país intui (capacidade exclusiva dos humanos) que este Governo vai ser desligado, mas resta saber se tarda.