Polémica

Directora do FMI continua sob crítica: ganha 380 mil/ano livre de impostos

Lagarde está na mira de muitos contribuintes, sobretudo os gregos
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Lagarde está na mira de muitos contribuintes, sobretudo os gregos Foto: Dominick Reuter/Reuters

A directora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, ganha 380 mil euros por ano em salário, livre de impostos. A remuneração de Lagarde está a ser criticada depois de aquela responsável ter dito, numa entrevista durante o fim-de-semana, que os gregos devem empenhar-se em ajudar o país a braços com uma grave crise, pagando os seus impostos.

A remuneração livre de impostos de Lagarde deve-se ao facto de a directora do FMI usufruir de estatuto diplomático. Vários responsáveis políticos europeus – com os gregos à cabeça - têm criticado as recentes declarações de Lagarde.

A polémica estalou no passado fim-de-semana, altura em que o diário britânico Guardian publicou uma entrevista a Lagarde em que esta responsável deixou claro que não tenciona suavizar os termos do pacote de austeridade para aquele país. A directora do FMI disse estar mais preocupada com as crianças da África subsariana do que com os pobres da Grécia, porque elas “precisam mais de ajuda do que as pessoas em Atenas”.

“Penso mais nas crianças de uma escola numa pequena aldeia no Níger que têm duas horas de aulas por dia e têm de dividir uma cadeira por três”, comparou Lagarde quando questionada sobre como conseguia não pensar nas mães que não têm acesso a parteiras ou em pacientes que não conseguem obter medicamentos de que precisam para sobreviver.

“Sabe que mais?”, questionou a dada altura a própria directora-geral do FMI. “Também penso em todas aquelas pessoas na Grécia que estão a tentar fugir aos impostos”, prosseguiu Lagarde, acrescentando pensar nesses “da mesma forma” que pensa nos que estão a ser privados de serviços públicos. “Acho que se deviam ajudar uns aos outros”, concluiu. Como? “Pagando impostos.” Para Lagarde, chegou o tempo de a Grécia e outros países europeus pagarem.

Após estas declarações, as reacções não se fizeram esperar. As primeiras vieram precisamente da Grécia. Evangelos Venizelos, líder do partido socialista grego PASOK, criticou Lagarde por ter “insultado” os gregos.

“Ninguém pode humilhar assim o povo grego pela crise e falo em particular da senhora Lagarde, que com as suas declarações insultou os gregos. Peço-lhe que reveja e repense aquilo que disse”, disse o ministro das Finanças do Governo cessante e líder do terceiro partido mais votado nas eleições gregas.

As reacções também não se fizeram esperar na própria França, país de origem de Lagarde. A porta-voz do governo de François Hollande, Najat Vallaud-Belkacem, respondeu: “Acho as declarações [de Lagarde] um pouco simplistas e estereotipadas. Penso que, neste momento, não temos de dar lições à Grécia”.

A Internet também está em ebulição com esta entrevista de Lagarde. Na sua página do Facebook, inundada de críticas, Lagarde publicou entretanto uma mensagem de reconciliação com os gregos. “Como já disse muitas vezes antes, o FMI apoia a Grécia neste esforço para sair desta crise e retomar o caminho do crescimento económico, emprego e estabilidade”, escreveu. “Uma parte importante deste esforço é que todos contribuam, especialmente os mais privilegiados, pagando os seus impostos”, acrescentou a directora-geral do FMI, explicando que era isso que queria dizer na entrevista que deu ao Guardian.

Algumas das mensagens de crítica colocadas no Facebook remetem para um artigo publicado a 6 de Julho do ano passado no site Tout Sur Les Impots e que refere que o salário anual de Lagarde pelo seu trabalho no FMI é de cerca de 380 mil euros (perto de 60 mil euros destinam-se a despesas de representação), que não estão sujeitos a impostos.

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