Hospital Júlio de Matos

Reportagem: Rádio Aurora, a Outra Voz contra a discriminação na doença mental

O microfone vai circulando entre os que querem exprimir a sua ideia acerca da gratidão, tema do programa
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O microfone vai circulando entre os que querem exprimir a sua ideia acerca da gratidão, tema do programa Foto: Rui Gaudêncio

Emitido a partir do Hospital Júlio de Matos, um programa de rádio dá voz a um grupo de pessoas com "cadastro psiquiátrico" para lutar contra o preconceito e mudar mentalidades.

"Há fórmulas tradicionais de fazer rádio e depois há a Rádio Aurora a Outra Voz." É a voz de um doente que se ouve, numa varanda do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa. Está a ser gravada à mistura com os chilreios dos passarinhos e o som do vento que passa entre as folhas das majestosas árvores em volta. E anuncia que este é o primeiro programa, em Portugal, realizado por pessoas com "cadastro psiquiátrico".

Sobre uma pequena mesa colocada na varanda da unidade de convalescença do Júlio de Matos estão colocados um computador e uma mesa de mistura. À volta, 12 pessoas diagnosticadas com patologias psiquiátricas consideradas "pesadas", como psicoses, esquizofrenias ou doença bipolar. São eles que vão gravar o programa de hoje, que tem como tema a gratidão.

"Gratidão é mostrarmo-nos felizes do fundo do coração por aquilo que nos dão. Por todos os bons momentos que a vida nos proporciona. E, quanto aos maus, não devemos desesperar, porque muitas vezes são uma oportunidade de mudar e de aprender a viver com mais humanidade", diz uma das doentes ao microfone.

O responsável pela gravação do programa é o psicólogo clínico Nuno Faleiro da Silva, de 38 anos. A ideia de criar o programa foi sua e de uma colega, a psicóloga Isabel Moura-Carvalho, há quatro anos. Trabalhavam então no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, e estavam em Barcelona quando viram um documentário sobre um programa radiofónico semelhante. Resolveram então avançar com a ideia. "Houve muita reserva e muitas dúvidas em termos institucionais", diz Nuno Faleiro. Mas as resistências não demoveram os psicólogos de avançar com a iniciativa.

Em Julho de 2009, o programa foi emitido, pela primeira vez, em Barcelona, em castelhano. Foi o início de um caminho cujos progressos são evidentes hoje. Com a contribuição da equipa formada pelos doentes, Nuno Faleiro realizou um programa-piloto que enviou, primeiro, para uma rádio universitária, depois para uma local. Ligaram-lhes de Alenquer e começaram a emitir em FM. Hoje, o Rádio Aurora, a Outra Voz é emitido a partir do Júlio de Matos, semanalmente, em 20 estações de rádio de todo o país. O principal objectivo é "dar voz" às pessoas com doenças psiquiátricas e combater "a discriminação e o preconceito" que existem relativamente a elas, explica o psicólogo.

O microfone vai circulando entre aqueles que querem exprimir a sua ideia acerca da gratidão, tema central do programa: "A vida tem-me ensinado a ser cada vez mais grata e a ser mais sensível aos outros e a dar mais valor às pequenas coisas e ao facto de estar viva." "Eu acho que a vida é ingrata e o mundo é injusto." "As pessoas que têm problemas de saúde mental são muito difíceis de aturar (...), tenho de agradecer aos técnicos a possibilidade que me estão a dar de ser tratado (...) porque o que fizeram não tem preço."

A participação no programa é aberta aos doentes internados, em ambulatório e a outras pessoas que queiram simplesmente juntar-se à equipa.

Além de contribuir para combater o preconceito, a participação no programa tem um efeito terapêutico, considera Nuno Faleiro da Silva. "Estimula o pensamento, combate o medo de falar e a liberdade é sempre terapêutica", nota o psicólogo.

Ao longo dos últimos três anos, foram muitos os temas dos programas. A política de saúde mental em Portugal foi um dos assuntos que levaram recentemente à varanda do Júlio de Matos o médico psiquiatra Caldas de Almeida, responsável pelo Plano Nacional de Saúde Mental. Por lá têm também passado muitos músicos, escritores e pintores para falar de arte.

O programa sobre a gratidão será transmitido num outro dia. "Estou grata ao público que nos ouve, são capazes de mudar de posto mas não façam isso. Ouçam-nos porque nós merecemos", diz uma das participantes.

O psicólogo também participa: "Sinto-me privilegiado e grato por termos construído este programa. Sinto uma enorme gratidão por fazer parte desta aventura." Uma aventura que já existe noutros países e que se reúne num projecto europeu, o Projecto SOV (Sounds and Voices), no âmbito do qual se realizará um encontro no mês de Outubro, em Lisboa. E no qual terá um papel especial o Rádio Aurora, a Outra Voz, um "programa para pessoas com mente aberta", como o definiu um dos elementos da equipa.