A Marvel casou um super-herói gay e a DC quer tirar outro do armário

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Reuters/Marvel Comics

Na edição #50 da série Astonishing X-Men, Jean-Paul Beaubier, conhecido no universo Marvel como Northstar (Estrela Polar), pede em casamento o seu namorado, Kyle Jinadu, um jovem sem superpoderes. A cerimónia vai ter lugar na edição #51, em Junho. Apesar de ter assumido a sua homossexualidade já em 1992, Northstar deixa agora o clube dos solteiros, duas semanas depois de o Presidente dos EUA ter defendido publicamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

É difícil não estabelecer uma ligação com a declaração de Obama, mas a verdade é que este não é o primeiro casamento gay da história da Marvel e da DC Comics, as duas editoras mais mainstream do universo dos super-heróis. Em 2002, ainda Barack Obama era senador no estado do Illinois, Apollo e Midnighter, da WildStorm (então detida pela DC Comics), deram o nó na edição #29 da série The Authority.

Quem conhece a história das duas editoras, como Axel Alonso, sublinha que o universo dos super-heróis não faz mais do que retratar a vida real. "A Marvel sempre reflectiu aquilo que vemos através da janela", disse à agência Associated Press o antigo editor da DC Comics e actual editor da Marvel. Afastando qualquer colagem à recente declaração do Presidente dos EUA, o responsável garante que a empresa já estava a preparar o seu primeiro casamento gay: "Estamos a trabalhar nesta história há mais de um ano, para garantir que reflicta essa tradição da Marvel de retratar o mundo que se vê através da janela".

A escritora Marjorie Liu, actual responsável pelo argumento da série Astonishing X-Men, explica a entrada em cena do casamento gay no universo Marvel com a necessidade de "impulsionar os leitores e as personagens". Liu defende que "já estava na altura de avançar com a história de Northstar e Kyle, que têm uma daquelas raras relações entre personagens dos comics que realmente funcionam".

Apesar de a DC Comics ter batido a Marvel por dez anos - ainda que através da WildStorm -, a leitura dos balões que acompanham as duas cenas revela a marca das épocas em causa. É verdade que o pedido de casamento de Northstar a Kyle, esta semana, começa com um "Hell, no", mas o diálogo que se segue revela todos os problemas que têm afectado a relação do casal, com Kyle a acusar Northstar de não querer resolver o assunto com frontalidade. Recuando dez anos, Apollo e Midnighter beijam-se numa cena comentada num tom mais ligeiro: "I can now pronounce you guys, ah, well... husband and husband, apparantely. You may kiss the groom, boys" (Pronuncio-vos, ah, bem... marido e marido, aparentemente. Podem beijar o noivo, rapazes).

A casa do Super-Homem e de Batman já tem a sua quota-parte de personagens assumidamente gay - a primeira foi a mais recente versão de Kathy Kane como Batwoman, em 2006 -, mas os seus responsáveis anunciaram há dias que o mundo vai ficar a saber, também no próximo mês de Junho, que um dos seus super-heróis que se pensava ser heterossexual é, afinal, homossexual. No passado dia 20, o site Bleeding Cool escreveu que um dos responsáveis máximos da DC Comics, Dan DiDio, acabara de levantar o véu. Em resposta a uma pergunta durante a convenção Kapow, em Londres, DiDio anunciou que a empresa iria alterar a orientação sexual de um dos seus super-heróis, fazendo dele uma das "mais importantes personagens gay".

É o Batman? Seria surpresa?

Mesmo com a notícia de que a Marvel já estava a fazer os preparativos para o casamento entre Northstar e Kyle, o anúncio da DC Comics foi surpreendente. Em Julho do ano passado, em declarações à revista The Advocate, o mesmo responsável disse que a empresa preferia criar uma personagem gay do que alterar a orientação sexual de um super-herói heterossexual. Quase um ano depois - e à semelhança do Presidente dos EUA -, Dan DiDio anuncia agora que a política da empresa "evoluiu com o tempo".

A DC Comics fez saber que o super-herói em causa é homem, é percepcionado como heterossexual e é uma personagem de primeira linha no universo da editora. As apostas já começaram. Terá a DC Comics coragem para afastar Clark Kent de Lois Lane e tornar o Super-Homem num homossexual assumido? Terá chegado a altura de Batman sair do armário e dar razão a Fredric Wertham - psiquiatra e arqui-inimigo de todos os super-heróis -, que escreveu em 1954, no livro A Sedução dos Inocentes, que "só alguém sem bases de psiquiatria e psicopatologia não percebe a atmosfera homoerótica nas aventuras de Batman e do seu jovem amigo Robin"?

Ninguém sabe ao certo, mas a aposta mais segura é de um dos leitores do site da revista The Escapist: "Aposto que é aquele que veste roupa colada ao corpo".