Torne-se perito

O Rock in Rio começa esta sexta-feira. Queremos quantidade ou qualidade?

Bruce Springsteen actua no próximo fim-de-semana, no dia 3 de Junho
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Bruce Springsteen actua no próximo fim-de-semana, no dia 3 de Junho AFP

Dois casos de sucesso, modelos opostos. O Rock In Rio começa hoje em Lisboa, o Primavera Sound tem início a 7 de Junho, no Porto. Vindos de fora, implementam-se no mercado português.

São entidades consolidadas no mercado global da música ao vivo, mas com identidades muito diferentes. Do Rio de Janeiro para Lisboa vem, pela quarta vez, o Rock in Rio. De Barcelona para o Porto, apresenta-se, pela primeira vez, o Primavera Sound.

Com eles, as portas dos festivais de Verão abrem-se no Portugal de 2012. Dois fins-de-semana de Rock in Rio, seguindo-se o Primavera, de 7 a 10 de Junho.

Duas marcas de alcance mundial por razões distintas: o Rock in Rio pelos números impressionantes, por ser um evento para grandes massas, com uma lógica de entretenimento transversal, apostando numa estratégia comercial agressiva e afirmando-se em capitais como Lisboa e Madrid; o Primavera por se ter confirmado como um dos eventos de música mais credíveis do mundo em termos de cartaz, conduzindo até Barcelona público de todas as latitudes, dirigindo-se às várias linhagens de melómanos, apostando num marketing consciente e alinhado com segundas cidades, como Barcelona e Porto.

Os cartazes reflectem essas lógicas diferenciadas. No Rock in Rio, nomes seguros do rock: Metallica, Smashing Pumpkins, Lenny Kravitz, Bruce Springsteen... No Primavera Sound, projectos das linguagens alternativas da pop ou rock, alguns emergentes e outros já firmados: The xx, Wilco, Flaming Lips, Spiritualized, Chairlift, The Weeknd...

Em tempo de crise, nenhum se amedronta. "Em ano de crise, há duas hipóteses", diz-nos Roberta Medina, "se refreia ou acelera". A segunda hipótese foi a opção: "Vamos fazer o melhor festival de sempre, com um cartaz ainda melhor e com novidades, como a Rock Street, uma rua inspirada em Nova Orleães, que vai ter animação permanente."

Da parte do Primavera Sound existe prudência, mas também confiança: "Em Barcelona, estávamos com um problema de crescimento", conta-nos o director internacional, Gabriel Ruiz, explicando a escolha do Porto, como extensão natural. "Não queríamos passar das 40 mil pessoas diárias, e a consequência natural era procurar outro local. Começámos a considerar ofertas de cidades que percebiam o potencial cultural, turístico e económico do que fazíamos." Foi então que surgiu com uma proposta a produtora Ritmos (que organiza Paredes de Coura). "Não era, do ponto de vista económico, tão forte como outras, mas era consistente, aquilo que é necessário nestes tempos. E agradou-nos ser numa segunda cidade, no parque junto ao mar e, acima de tudo, serem pessoas que compreendiam muito bem o conceito."

O Rock in Rio tem o parque da Bela Vista, o Primavera ocupa o Parque da Cidade do Porto. "É um lugar singular e vamos ter que respeitar o meio ambiente. Ao mesmo tempo, tentamos convencer todas as marcas disso mesmo, não queremos massificar", diz Ruiz.

Potenciador de marcas

O Rock in Rio assume-se como um potenciador de marcas. Quando chegou a Portugal, ficou conhecido por criar uma dinâmica nova na relação entre patrocinadores e festivais. Hoje não existe um que não tenha patrocinadores. Mas a questão é como se estabelece essa relação, qual a forma que melhor serve o festival, o público e, já agora, as marcas.

Ruiz acha que o Rock in Rio teve um impacto mínimo em Espanha, em comparação com Portugal, porque "as marcas não se interessaram pelo conceito". O Primavera só é possível com patrocínios, mas Ruiz ressalva que só se associa às que estão sintonizadas com o conceito do festival. "Só a quem compreende o que fazemos e percebe que para chegar ao seu público o pode fazer de forma subtil."

Entra-se no Rock in Rio e as marcas são omnipresentes, dado assumido por Roberta Medina: "O consumidor não gosta de ser enganado, não gosta que se finja que não se está vendendo uma coisa para ele, quando está. Nenhuma marca vem para o Rock in Rio para vender telefones. Isso é um trabalho que se faz antes, com os passatempos ou as ofertas dos bilhetes. No recinto, as marcas têm de ser criativas para as pessoas viverem o que elas têm para oferecer."

No Primavera, a opção é que a publicidade tenha um papel discreto, mas seja mais dirigida. "Tivemos a sorte de encontrar pelo caminho um parceiro, a Optimus, que me surpreendeu muito, porque percebeu o conceito", reflecte Ruiz. "Entenderam que temos de cuidar do recinto, que não podemos ter um público massivo e que a sua presença tem que ser subtil."

Na construção do cartaz também existem diferenças. O Rock in Rio faz pesquisas de mercado para saber o que o público quer, apesar da disputa cada vez mais cerrada, por causa dos mercados emergentes na América Latina e Europa do Leste. No Primavera, viaja-se para ver concertos à volta do mundo e há parceiros privilegiados, como o festival ATP em Inglaterra ou a influente publicação Pitchfork.

Tudo indica que um e outro vão ser bem sucedidos. O Rock in Rio porque vai congregar multidões e o Primavera porque promete superar as expectativas para o primeiro ano (cerca de 12 mil pessoas diárias), apostando num crescimento sustentado e na correcção de eventuais lacunas de uma primeira vez.

Os dois festivais encontram-se também no centro de modelos de atracção turística diferenciados. Quando surgiu, o Rock in Rio, simbolizou a capacidade de Lisboa atrair eventos de grande envergadura. Já o Porto, diz Ruiz, está no ponto para ser descoberto. Tem, por isso, que definir o que quer. E dá como exemplo Barcelona, hoje vítima da superlotação turística. "Barcelona é uma cidade de turismo, não é isso que está em causa, o que está em discussão é o modelo de turismo que se quer implementar", reflecte. "Queremos quantidade ou qualidade? Muita gente, numa lógica de atracção de turismo de baixo preço, ou um público internacional conhecedor e que deixa em Barcelona 70 milhões de euros, como aconteceu no ano passado, nos dias do Primavera?"

A partir de hoje, para além da música, o que também vai estar em causa é isso: que modelo de desenvolvimento, e que tipo de imagem querem projectar para o mundo, as cidades de Lisboa e Porto, ao receberem o Rock in Rio e o Primavera Sound.

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