O homem que planta árvores

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Pedro Muagura está há dois anos na Gorongosa. O plantio mobiliza 55 trabalhadores e 275 voluntários.Na página ao lado, uma impala à sombra de uma acácia GIANLUIGI GUERCIA/AFP

Pedro Muagura já plantou perto de cem milhões de árvores. Coordena o programa de reflorestação da serra da Gorongosa. Planta árvores até quando vai ao estrangeiro Por Ana Cristina Pereira

Ninguém lhe ordenou que andasse por aí a plantar árvores, mas aos seis anos já lançava sementes pelos caminhos. Pastoreava bois. Os bois não paravam de comer plantas. Pedro Muagura também se servia delas. "Milho não tínhamos, batata usávamos uma vez por mês, arroz não havia. As frutas silvestres sempre existiram. Mesmo que haja seca prolongada, as plantas nativas têm fruta. Fui vendo isso."

Plantou muitas árvores. Uns cem milhões, contando com as que meteu na terra e com as que meteu na terra quem lhe obedece.

Uma vez, o Presidente da República de Moçambique, Armando Emílio Guebuza, apareceu-lhe em casa: "Por que plantas árvores?" Pedro pensou: "As grávidas precisam de sombra. Os bebés descansam numa cama de madeira. O nosso caixão também é feito de madeira. Nós alimentamo-nos de plantas. Plantas são vida."

Cresceu em Machipanda, província de Manica. Estudou no Instituto Agrário de Chimoio. Fez das plantas o seu negócio. "Antes era eu, a minha esposa, as crianças. As crianças deram uma grande contribuição. Tenho cinco - quatro meninas e um só menino. A mais velha tem 17 anos, o mais novo seis meses. É o Salvador. Salvou-me de ser o único homem no meio de tantas mulheres."

Plantava embondeiros (que dão malambe, um fruto com um miolo seco de sabor agridoce), maçaniqueiras (maçãs pequenas), ximénias (ameixas-do-mato)... As pessoas perguntavam-lhe: "Porquê só plantas nativas?" E ele começou a ter laranjeiras e outras árvores para vender. A empresa cresceu. Agora, 21 funcionários plantam árvores em seu nome. "Num dia só chego a produzir 26 a 27 mil plantas." Números que não estão exagerados, sublinha, porque há trabalhadores que chegam a fazer 1700 vasos por dia.

Sente-se "especial" desde que professores e estudantes lhe começaram a aparecer em casa. Às vezes, até lhe pediam que fosse a escolas ou universidades ensinar a cuidar de algumas espécies. Tornou-se professor. Estudou florestas na Finlândia e fauna bravia na Tanzânia.

Nem fora de Moçambique larga o seu "grande desafio". Plantou uma árvore em Portugal, perto do Aeroporto de Lisboa. "Não tive problemas." Em Heathrow, Londres, não conseguiu. "Foi difícil, mesmo para cumprimentar as pessoas. Dizia: "Bom dia!" A primeira pessoa não respondeu; a terceira quis saber por que estava a cumprimentar. Perguntei se podia plantar, ela disse: "Esquece!""

Plantou na Suécia, Dinamarca, Finlândia, Tanzânia, Zimbabwe, Malawi, África do Sul. Na África do Sul, mostrou que não brinca com isto. "Primeiro falei para os serventes: "Se não regam essas plantas, não vou almoçar aqui." Pensavam que estava a brincar. Falei com o manager. Ele disse: "Vão lá regar." Depois, deram-me uma árvore para plantar."

Quando a recuperação do Parque Nacional da Gorongosa despontou, o plantador de árvores dava aulas na vila homónima. "Fui vendo a relação entre florestas e fauna bravia. Pensei que era melhor fazer práticas no terreno. Depois, pedi ao Ministério de Educação para me juntar ao parque." Está há dois anos a tempo inteiro na reserva. Gere o programa de reflorestação da serra.

Ainda há um século, o homem não se atrevia a sair do sopé da serra, que atinge 1863 metros de altitude. Reza a lenda que quem tentar subi-la perderá a vida. Baptizaram-na de "Kuguru Kuna N"gozi", que no dialecto local quer dizer "lá no cimo há perigo". Aportuguesada, Gorongosa.

Na guerra civil (1976-1992) e nos dois anos até às primeiras eleições multipartidárias, as pessoas foram subindo a serra em busca de segurança. E a serra sofreu com esse avanço. "Faziam queimadas por causa da guerra, para caçar animais, para preparar áreas para milho, feijão."

Pedro ainda se lembra da primeira vez que sobrevoou a Gorongosa. Terá sido em 2005 - o Governo de Moçambique e a Fundação Carr (EUA) tinham assinado há pouco o memorando de restauração do parque, que haveria de evoluir para a co-gestão. Faltavam partes de floresta tropical, floresta de galeria, savana. A continuar assim, os rios Vunduzi e Muera mingariam.

Nem é preciso helicóptero. Para ver a devastação basta subir pela picada num jipe de safari, como o engenheiro agora sobe em direcção à cascata de Murombodzi. Consequência de práticas inapropriadas de uso de terras, baseadas no corte e na queima, o que degrada solos, fauna, flora, "tudo". Só em 2010,