Futebol

Crónica de Jogo: Uma lição

O lance do golo da Académica
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O lance do golo da Académica Foto: Francisco Leong/AFP

Foram precisos 73 anos, mas a Académica voltou a fazer a festa na final da Taça de Portugal. Marinho, ironicamente formado nas escolas do Sporting, marcou o golo solitário no Estádio Nacional e foi um dos heróis da equipa de Coimbra. Mas também o guarda-redes Ricardo ficará na história do encontro por manter a vantagem até final. Os “leões” saíram do Jamor pela porta pequena.

Há apenas uma semana, a Académica disputava angustiada a última jornada do campeonato, sob o espectro da despromoção. Acabou por garantir a permanência e poucos dias depois do alívio, tornou a época efectivamente histórica.

Já restarão poucos adeptos da Briosa com memória para recordar o triunfo na primeira edição da Taça de Portugal, a 25 de Junho de 1939, quando a Académica bateu o Benfica, por 2-1, no desaparecido Campo das Salésias. A equipa disputaria mais três finais (1951, 1967 e 1969), mas seriam necessárias 71 edições (a competição não se realizou em 1947 e 1950) para voltar a erguer o troféu.

Uma chuvada antecedeu o início do encontro decisivo, mas ao apito inicial já brilhava o sol. E, mais do que o astro-rei, brilhou o ataque da Académica, que precisou de apenas quatro minutos para inaugurar o marcador. Adrien, Diogo Valente e Marinho foram as estrelas maiores. O primeiro iniciou a jogada pelo meio, abriu para Valente na esquerda, daqui saiu um cruzamento para a entrada de cabeça de Marinho. A defesa do Sporting assistiu a tudo, com Polga no chão a queixar-se de uma falta não assinalada.

E, antes de pegar no jogo, a equipa de Alvalade, ainda sofreu outro susto, aos 7’. Desta vez, funcionou o flanco direito da equipa de Coimbra, com Cédric (emprestado à Académica pelos “leões”, tal como Adrien) a cruzar para a cabeça de Edinho, que acabou por atirar à figura, demonstrando mais uma vez a intranquilidade da defesa lisboeta.

Surgiu então a reacção do Sporting, mas que se traduziu, quase invariavelmente, pela posse de bola, sem contabilizar nenhum remate enquadrado com a baliza durante todo o primeiro tempo. Os lances ofensivos leoninos procuravam essencialmente o corredor direito, com as subidas de João Pereira a criar alguns desequilíbrios, mas pouco mais.

Ao intervalo, a festa nas bancadas era feita de capa e batina. Os estudantes aproveitaram o momento para mostrar algumas tarjas de protesto contra o preço das propinas, o desemprego e a redução do número de bolsas de estudo, num gesto essencialmente simbólico para recordar a crise académica de 1969. O ano em que os seus antigos colegas desafiaram o Estado Novo, neste mesmo palco, com palavras de ordem contra o regime, durante a última presença da equipa na final. Frente ao Benfica, a Briosa acabaria por perder, por 2-1, com um golo de Eusébio no prolongamento, depois de terem estado a vencer por 1-0.

A história não se repetiu e, desta vez, os estudantes não deixaram escapar a vantagem. Mas houve que sofrer muito até ao apito definitivo do árbitro Paulo Baptista. Muito por culpa própria, ou melhor, por aselhice de Edinho, que falhou duas grandes oportunidades logo no arranque do segundo tempo. A primeira (46’), isolado (mas em fora-de-jogo não assinalado), permitiu a defesa de Rui Patrício; a segunda (49’) falhou incrivelmente o remate.

Lances que não apagaram uma entrada mais determinada dos “leões” no reatamento. No banco ficara Elias, rendido por Izmailov. A equipa acelerou, tornou-se mais ofensiva, mas também abriu mais espaços para o contra-ataque adversário. Apesar das melhorias, foi preciso esperar até aos 57’ para se assistir à primeira grande perdida sportinguista, com Wolfswinkel a falhar duas vezes o golo.

Com o tempo, foi crescendo o nervosismo nos dois lados, traduzido no aumento da agressividade no relvado. Sem grandes soluções, os lisboetas procuraram a baliza da Académica nos lances de bola parada, com Schaars a estar muito perto de empatar, na cobrança de um livre, que Ricardo voltaria a negar.

Nos instantes finais, com a Académica acantonada na sua área, os lisboetas ainda se queixaram de um penálti (por suposta bola no braço de Cédric), mas o vencedor já estava encontrado.

POSITIVOMarinho

Apontou o golo e esteve perto de fazer a assistência para outro. Uma exibição que ficará para sempre guardada na memória de um jogador made in Alvalade.


Ricardo

Um conjunto de grandes defesas que deram uma segurança extra à equipa.


Adrien

Grande exibição do sportinguista emprestado à Académica.


Pedro Emanuel

O primeiro troféu no ano de estreia do ex-técnico adjunto de Villas-Boas.


NEGATIVOSá Pinto

Disputou apenas o jogo da final e perdeu, numa campanha, toda ela, conduzida por Domingos.


Polga

(Mais) Uma exibição sofrível do capitão que deverá abandonar Alvalade.


FICHA DE JOGO

Académica, 1


Sporting, 0


Jogo no Estádio Nacional, no Jamor
Cerca de 38.000 espectadores

Académica

Ricardo a90’+2’, Cedric a32’, Abdoulaye, João Real, Hélder Cabral, Adrien, Diogo Melo a23’ (Danilo, 80’), David Simão a69’ (Flávio Ferreira, 69’), Marinho (Rui Miguel, 90’), Edinho e Diogo Valente. Treinador Pedro Emanuel.


Sporting

Patrício, João Pereira a34’, Polga, Onyewu a44’, Insúa a45’+2’ (André Martins, 70’), Elias a44’ (Izmailov, 46’), Schaars a73’, Matías Fernandez (Jeffrén, 77’), Carrillo, Wolswinkel a69’ e Capel. Treinador Sá Pinto.




Árbitro

Paulo Baptista, de Portalegre.

Amarelos

Diogo Melo (23’), Cedric (32’), João Pereira (34’), Onyewu (44’), Elias (44’), Insúa (45’+2’), David Simão (69’), Wolswinkel (69’), Schaars (73’), Ricardo a90’+2’

Golo

1-0, por Marinho, aos 4’.

Notícia actualizada às 23h03